Opinião de André Mira, Lead UI & UX Designer, DXspark
Em 2017, tornou-se óbvio que o desenvolvimento de software estava a dominar o mundo, enquanto que o design estava a dominar o desenvolvimento de software.
Esta previsão cumpriu-se na íntegra. Hoje, a experiência do utilizador (UX) é a marca. A interface digital é o produto. No entanto, à medida que as empresas crescem, aquilo que lhes permite ter sucesso, torna-se uma fonte de caos.
As equipas trabalham em silos. Os developers constroem o mesmo botão de 10 formas diferentes. Os designers criam três tons diferentes de uma dada cor. Websites, apps e ferramentas internas parecem ter sido feitos por empresas diferentes.
Isto não é apenas caos e desorganização. É um custo. Chama-se dívida de design e dívida técnica, e é algo que está a causar impacto nos produtos digitais.
A solução não é criar mais um ficheiro Figma, usar frameworks ou templates.
É um Design System.
O que é um Design System Real (e o que não é)
De uma forma muito clara: um UI kit no Figma ou Sketch não é um Design System.
Um UI kit é um ficheiro estático. É uma coleção de componentes.
Um Design System real é um produto vivo e dinâmico que serve os seus outros produtos de uma empresa. É a sua fonte única de verdade (SSoT) que constrói a ponte entre design e engenharia. Como o diagrama ilustra, é composto por três partes essenciais:
- Design: As fundações visuais. Isto inclui paletas de cores, tipografia, espaçamento e as regras de UX sobre como os componentes se devem comportar.
- Código: Uma biblioteca robusta de componentes reutilizáveis, controlados por versões e prontos para produção (ex: em React, Angular, etc) que os developers podem importar diretamente.
- Documentação: O manual de “como usar”. Esta é a parte mais crítica e frequentemente negligenciada. Explica porque é que os componentes são desenhados de certa forma, como usá-los e quando usá-los.
Um UI kit é uma planta. Um Design System é a fábrica e os processos que produzem as peças pré-fabricadas e com qualidade assegurada.
Os Custos Ocultos do Caos: A Vida Sem um Sistema
Quando não existe uma fonte única de verdade, cada equipa inventa a sua. Isto cria um efeito dominó de ineficiência que drena o orçamento do produto e frustra as suas equipas.
- Fragmentação da Marca: A sua marca parece inconsistente, pouco profissional e indigna de confiança.
- Desperdício de Recursos: Os seus engenheiros passam 30% do seu tempo a construir componentes básicos que já foram construídos por outra equipa.
- Atraso no Time-to-Market: Lançamentos de produtos são adiados porque cada nova funcionalidade exige começar do zero.
- Dívida Técnica Massiva: A sua codebase torna-se numa confusão insustentável e cheia de código duplicado, tornando a correção de bugs um pesadelo.
- Má Experiência do Utilizador: Os utilizadores ficam confusos e frustrados com interfaces que se comportam de forma diferente em todo o seu ecossistema.
O ROI: Um Cálculo que Não Pode Ignorar
As equipas de gestão e liderança perguntam frequentemente: “Qual é o ROI de um Design System?” mas a verdadeira questão é: “Qual é o custo de não ter um?”
Vamos usar um modelo simples e conservador (inspirado no trabalho da DxD.pt) para ilustrar as perdas.
O Cálculo de “Um Componente”:
Imagine que uma equipa precisa de um novo componente “seletor de data”. O processo envolve:
- Design (pesquisa, design, iteração): 8 horas
- Desenvolvimento (construir, testar, integrar): 12 horas
- QA & Revisão (correção de bugs, acessibilidade): 4 horas
- Tempo Total por Componente: 24 horas
Agora, imagine que tem 4 equipas de produto diferentes na sua empresa. Sem um Design System, todas elas irão construir este componente (ou uma variação) por conta própria.
24 horas x 4 equipas = 96 horas de trabalho.
Se o seu custo/hora médio combinado para equipas de design e desenvolvimento for €50/hora:
96 horas x €50/hora = €4,800
Isto representa €4,800 de esforço duplicado e desperdiçado para um único componente.
Agora, multiplique isto pelos 50-100+ componentes numa aplicação típica (botões, formulários, cartões, modais, cabeçalhos…). O custo não é apenas elevado, é um passivo estratégico.
O ROI de um Design System vem da eliminação deste desperdício. Ao construir o componente uma vez no sistema central (custando, digamos, 30 horas para garantir a sua robustez), poupa (96 – 30) = 66 horas logo na primeira utilização. O componente fica então disponível para todos os projetos futuros, acelerando o desenvolvimento para sempre.
Princípios Chave & Workflow: Como um Sistema Respira
Um Design System não é um projeto pontual; é um processo contínuo assente em quatro princípios:
- Consistência: Uma fonte de verdade para todas as equipas.
- Reutilização: Construir uma vez, usar em todo o lado.
- Escalabilidade: Adicionar novos produtos e funcionalidades sem adicionar caos.
- Governação: Um processo claro de como o sistema é gerido, versionado e como se pode contribuir para ele.
O “modelo de governance” é o workflow. Define como um novo componente é solicitado, aprovado, construído, documentado e lançado. Sem isto, o sistema fica desatualizado e a adoção falha.
Um Design System requer uma equipa dedicada e multidisciplinar de designers, engenheiros (front-end) e technical writers. Para a maioria das empresas, isto é uma distração enorme do seu negócio principal. É por isso que faz sentido trabalharem com equipas especializadas e externas.
O modelo DSaaS é uma parceria contínua preparada para:
- Construir e Co-criar: Estrutura o seu sistema desde a base—fundações, tokens, componentes e regras de utilização.
- Integrar e Manter: Assegura que o sistema está perfeitamente integrado no tech stack e é mantido ao longo do tempo.
- Governar e Evoluir: Gere as operações de “design ops” e front-end, garantindo que o sistema permanece um produto vivo, utilizável e relevante que evolui com o seu negócio.
Obtenha todos os benefícios de um Design System. Consistência, velocidade e escalabilidade enquanto as suas equipas se mantêm 100% focadas em entregar valor aos seus clientes.














