Crescimento sustentável

Teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, o primeiro pequeno-almoço debate do ano dedicado ao turismo. Em discussão os desafios e os objectivos do sector.

Texto de Sandra M. Pinto

Fotos de Sérgio Miguel

Sem margens para dúvidas, Portugal reafirma-se como o melhor destino turístico do mundo. O nosso País soma, segue e bate recordes. Eleito o melhor destino turístico do mundo pelo segundo ano consecutivo pelos World Travel Awards, conhecidos como os “Óscares do turismo mundial”, Portugal arrecadou 16 prémios. Com o turismo a bater recordes, está a aumentar a oferta hoteleira em território nacional. Já este ano, mais precisamente no dia 8 de Janeiro, foi assinado o memorando de entendimento entre o Governo e a gestora dos aeroportos nacionais, ANA, que vai permitir avançar com o aeroporto complementar do Montijo e a expansão do Humberto Delgado.

Simultaneamente, o Governo anunciou um plano de expansão para o metropolitano que serve a capital, claramente inserido numa estratégia de melhoramento da rede de transportes públicos que serve Lisboa. Este e outros temas serviram de base ao pequeno-almoço que teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, e onde estiveram presentes: Álvaro Covões (director da Everything is New), Andrea Granja (director of Public Relations & Communication – Tivoli Hotels & Resorts), António Loureiro (director-geral da Travelport), Catarina Pádua (directora de Marketing do Grupo Vila Galé), Catarina Zagalo (directora de Comunicação da ANA – Aeroportos), Eduardo Cabrita (director-geral da MSC Cruzeiros em Portugal), Francisco Paixão (Regional Marketing Representative Turkish Airlines), Gilda Luís (Marketing, CRM & Loyalty director Pestana Hotel Group), Luís Araújo (presidente do Turismo de Portugal), Paulo Monge (director de Vendas da Sana Hotels), Pedro Costa Ferreira (presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo) e Susana Varela (Head of Marketing Portugal do Grupo Ávoris). Com a finalidade de se alcançar um debate mais aprofundado por parte de todos, foi decidido que nenhuma das intervenções seria atribuída directamente no texto.

Desafios para 2019

Olhando para 2018 podemos concluir que foi um bom ano, com números de crescimento em quase todos os intervenientes no sector do turismo. Mas, olhando para a frente, como será 2019? Curiosamente, em 2018, 40% das empresas que abriram em Portugal estavam relacionadas com o turismo, o que significa que o sector continua a ser uma grande alavanca da economia nacional. Mas será que vai continuar a manter esta posição, atendendo a que as exportações estão a passar por uma fase menos boa?

Que os resultados de 2018 foram menos bons que os de 2017 já todos sabemos, mas como será 2019? «Levando em linha de conta que destinos concorrentes de Portugal estão a voltar a crescer, será que temos de ir buscar outros destinos emissores de turistas para manter o nível de crescimento que temos vivido até agora?» De facto, o sector tem algumas preocupações que vão alavancar a actuação de todos os players durante 2019. «Acredita-se que os números para o Verão de 2019 comparados, com os do Verão de 2018, ainda têm margem para crescer, cerca de 2%, mas são algumas as preocupações que nos acompanham, como a capacidade aérea e o funcionamento das companhias aéreas que vêm para Portugal, tentando perceber se há o risco de assistirmos a mais falência, a preocupação de gerir os destinos emergentes com as expectativas de quem já nos visita de uma forma regular, tendo em conta o facto de Portugal ter vindo a subir consideravelmente na expectativa de quem nos visita, sendo que muitos visitantes tradicionais referem que, apesar de estarmos mais caros, isso não se reflecte nem na oferta nem no serviço, ou seja, não tem havido uma evolução ao nível da qualidade que acompanhe o aumento de preços, e não tanto pelo Brexit em si, mas pela desvalorização da libra e por outros problemas reais que têm de ser acautelados.»

Esta última preocupação tem acompanhado já os players nos últimos meses, pois não só a libra desvalorizou, como o fez perante moedas de destinos emergentes, como o caso da Turquia. «Se olharmos para o Algarve conseguimos perceber um cenário onde já se concretizou a conjugação dessas três preocupações e, de facto, as consequências são preocupantes», refere um dos participantes, relembrando que o mesmo aconteceu com a Madeira, «com a agravante dos problemas todos do clima que afectam e muito o funcionamento regular do aeroporto». Estes foram dois destinos nacionais que já sentiram a diminuição de resultados em 2018, revelando uma situação algo preocupante para 2019.

Ora, se estes dois mercados continuarem a cair, a situação vai ficar muito complicada», ouviu-se em jeito de alerta, e aqui percebe-se a importância do renascer de alguns destinos, como é o caso da Turquia, destino preferido de muitos milhares de turistas alemães. «Talvez fosse importante vender Portugal de outra forma, juntando, por exemplo, Lisboa e Porto, tentando vender a primeira como um destino de praia.» Mas a Turquia é hoje um destino muito apetecível até para os portugueses, «com as ligações aéreas entre os dois países sempre cheias, tendo 2018 sido o melhor ano da companhia de bandeira turca em Portugal, sobretudo devido à excelente oferta combinada cidade/praia e à descoberta de Portugal por parte de cidadãos turcos de classe média/alta, que nos procuram para, não só passar férias, mas viver e investir.»

Portugal não é só Lisboa

Olhando para as duas principais cidades do País, percebe-se a grande dificuldade que existe relativamente ao Porto, no que diz respeito ao número de camas, «é sempre um problema quando se organizam eventos na Invicta, pois o número de camas nas unidades hoteleiras nunca é suficiente, uma vez que o crescimento da oferta das companhias aéreas não foi acompanhado por igual desenvolvimento de unidades hoteleiras». Talvez por isso mesmo a cidade esteja na calha para receber mais de uma dezena de novas unidades.

Com quase 12 milhões de passageiros, o aeroporto do Porto foi o que cresceu mais, logo é mais do que evidente a necessidade de mais camas na cidade. Isto levanta a questão que regularmente muitos colocam “será que há hotéis a mais?”. «Pelos vistos no Porto não, mas a verdade é que só há a quantidade de hotéis que há porque o negócio corre bem, se assim não fosse já não seriam hotéis, mas sim outra coisa qualquer.» A verdade é que em Lisboa houve um ajustamento entre oferta hoteleira e crescimento das companhias aéreas, e no Porto todos concordam que, claramente, esse ajustamento não existiu, «houve um desenvolvimento muito grande do tráfego aéreo causado, entre outros motivos, pela presença do mercado norte-americano, e que foi muito fruto “de Lisboa estar cheia”, mas o Porto quase que se devia apresentar como um hub para o resto do país, pois não podemos esquecer que Portugal é um país pequeno e disso devíamos tirar um maior partido.

Claro que unanimidade de opiniões não se espera existir num tema como este, assim «parece-me a mim que falamos em momentos e em picos de ocupação da cidade, não numa situação que se mantém durante o ano. Não nos podemos esquecer que os hoteleiros não decidem o valor dos quartos com base em picos de ocupação, mas mediante a taxa de ocupação média», segundo um dos presentes.

Turismo interno

Sabendo que o número de portugueses a viajar dentro do país aumentou, que o peso das agências de viagem é enorme, «equivalente a umas 12 Auto-Europa», por que nos preocupamos tanto com os turistas que escolhem não nos visitar? Por que não nos focamos em fazer crescer o número de turistas nacionais? «Ninguém dá muita atenção ao turismo interno, porque é um dado adquirido, sendo que o maior crescimento está a acontecer em áreas que não eram tradicionais, o que revela um interesse crescente do turista nacional por zonas que anteriormente não estavam na lista de prioridades». Isto ao lado de destinos tradicionalmente muito procurados, como a Madeira ou os Açores. «Aliás, o turista nacional nos aeroportos é dos que tem crescido mais, o que um facto deveras interessante.» Por outro lado, importa questionar o motivo pelo qual os nossos aeroportos crescem, e a resposta é simples, «porque o nosso sistema ferroviário é muito deficiente», realidade que todos concordam devia ser rapidamente alterada, devendo acontecer um forte investimento na requalificação da ferrovia nacional. «Olhando para o turismo nacional, podemos fazer a maior campanha de divulgação, mas se não tivermos como levar até lá as pessoas de nada serve. É preciso ter uma rede bem estruturada e que efectivamente funcione, para que todo o investimento em divulgação e captação de turistas surta o efeito pretendido.» Mas esta atenção ao turismo nacional não pode implicar o “esquecimento” do turismo externo, «antes pelo contrário, é preciso incrementar ambos para fortalecer resultados». «Falamos da importância do aeroporto para o mercado externo, devíamos falar da ferrovia para o mercado interno», foi algo que mereceu, quase, a total concordância.

Mercados emissores

Relativamente a outros mercados emissores onde importa apostar, o continente norte-americano surge em primeiro lugar. «Assistimos a um crescimento enorme do mercado norte-americano, mas também do Brasil, o que nos leva a acreditar que todo o continente americano tem um tremendo potencial de crescimento, e a Ásia, que também tem demonstrado um potencial enorme». Para que essa expectativa se concretize, será preciso incrementar o funcionamento dos aeroportos, «pois a colaboração entre organismos públicos e entidades privadas é essencial». Todos concordam que os bons resultados de 2019 estão alavancados no mercado americano, «porque os voos são muito importantes, e neste momento começamos a formar uma rede aérea com alguma importância para o mercado americano. A realidade é que o mercado chinês, que a médio/longo prazo terá uma importância crescente, teve uma descontinuidade na ligação aérea, o que torna ainda mais óbvia a relevância da oportunidade de chegarmos ao mercado americano».

Nas reservas das agências de viagens houve um crescimento durante 2018, sendo expectável que a situação continue em 2019. «Nesta área, as primeiras semanas do ano revelam um crescimento de 48% em relação ao ano passado, e nas agências corporativas um crescimento de 12%, o que significa que a dinâmica do mercado está boa e a mexer. Isto no outgoing.» No incoming as coisas não parecem tão optimistas, havendo quem aconselhe prudência, pois «o ano de 2019 não será certamente parecido com a média dos últimos anos, isto porque vai ser pior. Estaremos a discutir não se crescemos muito ou muitíssimo, mas se crescemos ou não». Esta realidade, não sendo encarada como um drama, deve ser tomada em linha de conta por todos os players do sector.

Artigo publicado na edição n.º 271 de Fevereiro de 2019.

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