Costuma usar estas expressões? Campanha alerta para “racismo inconsciente”

Pedro Almeida, designer gráfico na Bang Bang Agency, e João Elias, copywriter na FCB Lisboa, juntaram-se para dar vida a um projecto de sensibilização que tem como pilar um dos assuntos na ordem do dia: o racismo. «Sem dúvida que o assassinato de George Floyd nos motivou, mas a vontade de combater o racismo já estava latente», contam os dois criativos à Marketeer.

O projecto consiste num conjunto de imagens que recordam expressões idiomáticas que fazem parte da língua portuguesa e que têm por base o conceito de raça e a ideia de que os negros são inferiores. Tendo em conta que, muitas vezes, podemos nem ter noção daquilo que dizemos – não atribuindo esse significado ou peso às expressões -, Pedro Almeida e João Elias pretendem consciencilizar a população, fazendo com que prestem atenção àquilo que dizem.

A ideia é partilhar as imagens sob a forma de campanha nas redes sociais, nomeadamente através do Instagram. Recorrendo ao formato carrossel, o utilizador vai deslizando pelas imagens até que é desvendada a mensagem final.

«Cada vez que alguém diz ‘Em Portugal não há racismo’, ficamos sempre indecisos entre rir, chorar ou atirar-lhe um livro de História à cara», afirmam os responsáveis pelo projecto. «Basta ler um bocadinho para perceber que em Portugal sempre houve, há, e dificilmente deixará de haver, racismo. Em muitas ocasiões ao longo da História, o nosso País manteve-se afastado das grandes guerras e conflitos mundiais, mas desta vez não podemos ficar indiferentes ao que se passa nos Estados Unidos da América. Temos de começar a mudar», apelam Pedro Almeida e João Elias, acrescentando que as ligações históricas racistas entre Portugal e os EUA são muito profundas.

Segundo lembram os dois criativos, os portugueses foram os primeiros a levar escravos de África para as Américas e também os primeiros a usar o termo “negros”. Terá sido assim que a palavra surgiu na língua inglesa, no século XVI: porque os portugueses usavam-na especificamente para denominar escravos. «Resumindo, a pior palavra da língua inglesa teve origem numa palavra portuguesa.»

Cientes disto, Pedro Almeida e João Elias começaram a pensar noutras palavras e expressões racistas que a língua de Camões e Pessoa tem. «Não tivemos de procurar muito, na verdade. As expressões que escolhemos para o projecto são todas relevantes e usadas por muita gente numa base diária», contam.

Os responsáveis pela iniciativa sublinham ainda que se trata de um projecto pessoal e que não querem associá-lo a nenhuma marca ou instituição. «É a nossa maneira de ver o problema e simplesmente usámos as nossas skills profissionais para entregar a mensagem da melhor maneira.»

A aposta foi para imagens simples, com fundo preto, sem qualquer tipo de movimento ou outro elemento que pudesse distrair. O foco é a mensagem, vincam.

«Ao ler as frases incompletas, as pessoas vão preenchê-las automaticamente com as palavras “preto/preta” e “negro/negra”. No final, qualquer pessoa chegará à conclusão de que usa ou já usou essas expressões e de que foi racista sem ter noção disso», explicam ainda, referindo-se ao chamado “racismo inconsciente”.

«Com este projecto queremos mostrar às pessoas que o racismo está impregnado na nossa cultura há muito, muito tempo, e que basta estarmos atentos para mudar o mundo para melhor. É também uma forma eficaz de incentivar os portugueses a pesquisar mais sobre estas expressões e a conhecer a sua origem», acrescentam.

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