Opinião de Marlene Gaspar, diretora geral da LLYC
As minhas filhas dizem-me para não as comparar. E têm razão. Não há nada pior do que uma mãe dizer: “A tua irmã faz isto ou aquilo…”. A comparação é uma coisa tramada. Mesmo quando começa com boas intenções, acaba quase sempre por criar uma competição que ninguém pediu.
No MEO Kalorama, Mr. Entertainment, a.k.a. Robbie Williams, ao apresentar os seus filhos, ironizou com a ideia de ter um favorito. A piada funcionou porque todos percebemos o absurdo da comparação e, ao mesmo tempo, reconhecemos uma coisa muito humana: podemos relacionar-nos de formas diferentes com pessoas de quem gostamos da mesma forma.
E dei por mim a pensar nos meus LLMs. O meu “mai velho”, o ChatGPT, chegou primeiro. Foi com ele que fui mãe de primeira viagem nestas andanças. Experimentei, expliquei, corrigi, insisti. Fui-lhe dando contexto, exemplos e instruções. Fui dizendo o que gosto, o que não gosto, o que quero que questione e o que prefiro que não faça. Já conhece algumas das minhas manhas e manias. E isso nota-se. Há coisas que lhe digo de determinada maneira porque já sei que vai perceber. Noutras, nem preciso de explicar tanto. Há uma linguagem que fomos construindo.
Depois chegou o outro. E tive uma sensação estranhamente familiar: é preciso começar quase tudo outra vez. Explicar o que quero, como quero, o que não quero. Dar contexto, corrigir, voltar atrás, mostrar exemplos. Não é pior. É diferente.
E esta distinção interessa-me porque percebi que não tenho propriamente um LLM preferido. Tenho um com quem falo melhor sobre umas coisas e outro com quem me entendo melhor noutras.
Uso um mais no meu campo pessoal, onde há espaço para dúvidas, contradições e vulnerabilidades. Com o outro, a relação é mais profissional. Conhece melhor determinadas dimensões do meu trabalho, a forma como penso e aquilo que procuro quando estou a tomar uma decisão.
E isto, afinal, também acontece com as pessoas. Há pessoas com quem tudo flui. Outras com quem precisamos de parar, explicar melhor, mudar a linguagem ou dar mais contexto. Não significa necessariamente que uma seja melhor do que a outra. Pode significar apenas que encontrámos mais depressa uma forma de comunicar.
E talvez confundamos demasiadas vezes compatibilidade com competência.
Nas equipas, isto é particularmente evidente. Se uma pessoa responde bem à nossa forma de liderar, comunicar ou decidir, é fácil concluirmos que é mais alinhada, mais competente ou simplesmente “mais fácil”. E, quando isso não acontece, podemos cair na tentação de pensar o contrário. Mas talvez nem sempre seja assim.
A mesma forma de liderança pode funcionar muito bem com uma pessoa e precisar de ser ajustada com outra. Há quem precise de mais contexto, quem responda melhor a maior autonomia, quem pense melhor quando é desafiado e quem precise de tempo para organizar uma resposta.
O problema começa quando transformamos aquilo que funciona com algumas pessoas numa fórmula para todas as outras.
Porque menos fricção não significa necessariamente melhor resultado. Às vezes, alguém que nos obriga a explicar melhor uma ideia também nos obriga a pensá-la melhor.
A Inteligência Artificial está a tornar isto particularmente evidente. Quando trabalhamos com um LLM, percebemos rapidamente uma coisa que já devíamos saber há muito sobre os humanos: não basta ter informação. É preciso haver comunicação. Podemos ter duas pessoas brilhantes numa sala e uma ideia extraordinária morrer porque ninguém conseguiu explicá-la bem.
Má comunicação acaba com muita coisa boa. Até com uma boa tecnologia.
Quando “ensinamos” um LLM a trabalhar connosco, damos exemplos, corrigimos, explicamos contexto, dizemos “não é isto, é aquilo”, mostramos o que valorizamos e ajustamos a linguagem. E, pouco a pouco, a interação muda. Não porque a máquina se tenha tornado nossa amiga, mas porque aprendemos a comunicar melhor com ela.
E talvez seja precisamente aqui que pessoas, liderança e Inteligência Artificial se cruzem: a qualidade da relação não depende apenas de quem está do outro lado. Depende também da nossa capacidade de perceber como comunicar, dar contexto e adaptar a forma como trabalhamos.
Não falamos da mesma forma com um filho, um colega, um cliente ou um amigo. E também não comunicamos exatamente da mesma forma com diferentes LLMs.
Ainda não pus os meus LLMs em competição. Quanto mais trabalho com eles, menos me interessa saber qual é o melhor. Interessa-me mais perceber com qual consigo fazer melhor determinada coisa — e porquê.
Um dá-me uma resposta que encaixa imediatamente. Outro obriga-me a explicar melhor a pergunta. E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais humana desta história.
Não estamos apenas a escolher máquinas. Estamos a aprender a relacionar-nos com elas. E, pelo caminho, talvez estejamos também a perceber melhor a forma como nos relacionamos uns com os outros.
As minhas filhas continuam a dizer-me para não as comparar e talvez tenham razão.
A pergunta, afinal, talvez não seja “Qual é o teu LLM preferido?” mas sim “Com quem consegues falar melhor para aquilo de que precisas?”












