Opinião de Francisco Morgado Véstia, global director of strategic communications & business development da Samy
Não sei se todo o LinkedIn já se transformou no Facebook, de gravata. Mas parece, não parece?
Cada vez que o desígnio profissional me empurra a clicar por lá, sinto que me falta uma tradução portuguesa de tumbleweed. Será que um GIF resolve? E o facto de eu ainda precisar de GIFs não será também uma indicação bastante precisa do meu lugar geracional?
Estou velho. As letras do James Murphy têm batido de maneira diferente. Estava lá quando era preciso escrever a/s/l para perceber quem estava do outro lado. Estava lá quando The Internet Is for Porn, ainda nos punha um sorriso na cara.
Há três tipos de links em que hesito clicar quando me chegam através daquela message app que é outro antro de self-righteous desencaixados a quem parece que o mundo ainda deve a meritocracia que lhes foi prometida. facebook.com. x.com. linkedin.com. Mas o último é talvez o que mais me incomoda.
Andaram por ali (e, em verdade, ainda andam) pessoas que respeito profissionalmente, cuja opinião e voz considerava um privilégio poder acompanhar em primeira mão.
Agora tenho de as procurar no meio de uma segunda linha de tipos que montaram automatismos no Claude para parecerem uma espécie de Eça de Queirós de pacotilha das vendas B2B. Que descobriram, subitamente, o que o nascimento dos filhos lhes ensinou sobre marketing direto. O que o fim do casamento lhes revelou sobre liderança. O que uma ida ao supermercado lhes explicou sobre o funil de conversão.
Tudo, naturalmente, apresentado em três pontos. Rematado com a inevitável revelação de que não é isto. É aquilo.
Em julho de 2026, a Pangram Labs publicou uma análise de 1.002.627 conteúdos recolhidos entre o final de abril e junho desse ano no LinkedIn, Reddit, X, Medium e Substack. Mais de 40% dos posts longos do LinkedIn (aqueles com mais de 250 palavras) foram classificados como integralmente gerados por IA. A plataforma representava cerca de um terço dos conteúdos analisados, mas concentrava 62% de tudo o que foi identificado como texto produzido por inteligência artificial.
O LinkedIn não diz que recompensa engagement bait. Diz que recompensa conversações significativas.
O engagement farming nasce apenas da tentativa de imitar, produzir ou automatizar os sinais observáveis dessa suposta conversa significativa. Comentários. Reações. Partilhas. Tempo de permanência. A aparência de que está a acontecer qualquer coisa relevante.
Chegamos assim a um feed alimentado por ressentimento geracional, moralismo laboral, culto do esforço, nostalgia hierárquica e certezas absolutas sobre a forma como os outros deveriam trabalhar, vestir-se, comportar-se e gerir as suas carreiras.
Boomer-coded content, escrito por resultados de prompts, para malta que um dia sonhou estudar no Colégio da Barra.
A distância começa a encurtar entre isto e um feed carregado de imagens de Jesus construído com latas de sardinha por uma criança orfã, ou de um velho de 123 anos, sozinho, a soprar as velas do próprio bolo.
Só que, no LinkedIn, há sempre uma oportunidade para saber mais sobre lead optimization. Trekkie Monster, por favor: volta e explica-nos para que é que a internet serve, agora.












