Eles são os novos artesãos: Laboratório d’Estórias

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Maria João Vieira Pinto
01/08/2026
16:36
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Eles são os novos artesãos: Laboratório d’Estórias

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Num mundo de tendências globais, linhas igualitárias ou projectos idênticos, o que esta casa entende é que o conhecimento da herança cultural local constitui a principal matéria-prima da criatividade. É este, por isso, o maior princípio a partir do qual se foi construindo e crescendo o Laboratório d’Estórias, um espaço que começou por ser experimental e que hoje é uma marca em afirmação e conquista, atribuindo ao designer um papel de responsabilidade social enquanto criador e transmissor de cultura.

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Por aqui, há abelhas que voam, pássaros que chilreiam, numa integração das características históricas e identitárias na prática do design e numa contribuição para a valorização do património cultural, apontando-se uma linguagem inovadora no design português contemporâneo.

No Laboratório d’Estórias, o cruzamento de técnicas manuais com as digitais está cada vez mais presente. «Procuramos incorporar, na nossa prática de design, uma articulação da tecnologia digital com os processos de fabrico tradicionais, numa lógica de complementaridade e estudo de protótipos funcionais durante o processo criativo, potenciando novas possibilidades cerâmicas, onde a tecnologia não apaga a mão do artesão, mas amplifica-a», explicam os fundadores e responsáveis de tudo isto, Rute Rosa e Sérgio Vieira. A ideia, essa nasceu em jeito de paixão, de um fascínio profundo pela cerâmica, que, dizem, os continua a surpreender pelas suas vastas possibilidades técnicas, plásticas e visuais. «Vemo-la cada vez mais como um material intemporal e orgulhamo-nos de a honrar há quase 13 anos. Na verdade, o design e a cerâmica fazem parte do nosso quotidiano profissional há mais de três décadas.» Sim, porque foi já em 2013 que vários factores convergiram para a criação deste Laboratório d’Estórias. «Surgiu como um espaço experimental de design, onde a cerâmica nasce de um olhar autoral, alimentado por um conjunto alargado e diverso de criativos e especialistas. Deste cruzamento de saberes procurámos gerar encantamento, materializado em colecções de peças que reflectem tanto a sua história como o seu presente e o seu futuro.»

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Rosa e Sérgio começaram por se cruzar nos anos 90, nas Caldas da Rainha. Depois, foram sonhando e alimentando a paixão pela arte. Em 2013, avançam no sentido de dar forma a uma marca que dignificasse o legado histórico que tanto os encanta, ao mesmo tempo que explorasse novas linguagens. «Assim nasceu o Laboratório d’Estórias, pelas mãos e pelo coração, assumindo-nos como narradores desta história.»

Pelas mãos e o coração de Rute Rosa, nascida no Barreiro em 1976, com o curso profissional da Escola António Arroio, na área de Técnico de Cerâmica, e licenciatura em Design, ramo Design de Cerâmica, pela ESAD.CR. Rosa iniciou a sua carreira em 1998 como designer na empresa A. Santos. Após a licenciatura, em 2000, integrou a SECLA faianças, onde exerceu funções de designer e coordenadora do gabinete de criatividade até ao seu encerramento, em 2008. Durante este período, desenvolveu e acompanhou diversos projectos para marcas mais globais, entre uma Wedgwood, Harrod’s, Debenhams, John Lewis, Crate & Barrel, Williams Sonoma, Conran Shop, Anthropologie, Printemps, Marimekko e IKEA.

Com o encerramento da SECLA, entre 2008 e 2013, enveredou por um novo desafio ligado a uma tecnologia distinta, a cutelaria.

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Já Sérgio nasceu em França, em 1976, frequentou o curso de Artes Visuais no ensino secundário, em Viana do Castelo, e prosseguiu os estudos na ESAD.CR, onde se licenciou em Design, ramo Design Industrial, em 2000. Iniciou a sua actividade docente em 1999, no ensino das artes, leccionando no 3.º ciclo e no ensino secundário. Após a conclusão da licenciatura, dividiu a sua carreira entre o ensino e o design industrial, tendo sido designer para vários grupos empresariais, onde projectou produtos de marca própria para clientes nacionais e internacionais. E desde 2009 que lecciona no ensino superior, na ESAD.CR, unidades curriculares ligadas ao projecto e à modelação e impressão 3D.

De casa para o mundo

Foi no escritório de casa, dos dois, e com cinco mil euros de investimento (mas total dedicação e maior emoção), que o Laboratório d’Estórias se começou a estruturar. Mais tarde, haveria de se expandir para um espaço cedido pela Associação Industrial da Região do Oeste (AIRO), sendo que, aos dias de hoje, já desenvolve toda a sua actividade num atelier-loja situado no centro da cidade das Caldas da Rainha.

Olhando para trás, confirmam que o trajecto não foi simples, continuando antes a ser um percurso gradual e desafiador, com muitas aprendizagens, marcado por uma forte experimentação e adaptação constante. Sendo que, garantem em jeito de satisfação, «tem existido uma boa receptividade, tanto a nível nacional como internacional, sobretudo por parte de públicos que procuram produtos com identidade».

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E por falar em produto, o primeiro a chegar ao mercado teria o nome de “A Medusa e o Manjerico”, com o portefólio actual a ser de 23, divididos em três colecções, Laboratório de naturezas vegetais, Laboratório de naturezas animais e Laboratório de naturezas humanizadas. Entre todos, um dos best-sellers é a “A Esperança na Vida das Borboletas”, que nasce de uma prolongada admiração pela elegância das borboletas. «Evocam memórias de infância, de as perseguir e guardar entre as páginas dos livros, eternizando a sua beleza efémera. Anos mais tarde, a visita a um borboletário em Portugal reforçou esse fascínio, que foi transposto para o Laboratório d’Estórias», dizem, enquanto explicam: «Nesta peça, o desenho, a escrita de uma beleza depurada de Elvira Santiago e a ilustração de Pedro Soromenho prolongam essa admiração de longa data. Trata-se da representação de uma borboleta enquanto objecto decorativo: as asas são produzidas em faiança e coloridas com diferentes vidrados aplicados manualmente, enquanto o corpo, patas e antenas são em latão natural ou oxidado, fundido manualmente em moldes de areia.»

É por tudo isto que se afirmam contadores de histórias através da cerâmica, até porque o saber-fazer manual colocado em cada peça constitui um repositório de conhecimento, identidade social e cultural.

Segundo os dois fundadores, o conceito tem tido uma resposta positiva por parte de um público que valoriza aquilo que quiseram precisamente incutir em cada peça: autenticidade, identidade cultural e processos artesanais. No entanto, também adiantam terem encontrado particular receptividade junto de mercados que procuram peças com significado, produzidas em pequena escala e com uma forte ligação ao território e à narrativa que lhes dá origem. Um posicionamento que almejam consolidar, aprofundando a relação entre design contemporâneo e património cultural. «Pretendemos continuar a explorar novas linguagens e colaborações, reforçar a presença a nível nacional e internacional, sem perder o ADN da marca.»

Até porque remonta já a Janeiro de 2015 o início do processo de internacionalização da marca de forma empírica, com uma participação autónoma na feira Maison & Objet. «A resposta positiva do mercado internacional levou-nos a repetir e a expandir essa experiência a outras participações, num total de 11, até Janeiro de 2020, aquando do início da pandemia.» À data de hoje, ponderam o regresso às feiras internacionais, tendo em conta a exigência de recursos financeiros e humanos que este tipo de presença implica. «Ainda assim, estas participações permitem-nos conhecer de perto os gostos e hábitos de outras culturas, através de interacções directas e informais, criando ligações emocionais entre quem desenha e quem adquire as peças. Ao longo desses cinco anos, esta experiência revelou-se uma das maiores fontes de aprendizagem e motivação para continuar a evoluir. No início, questionávamo-nos se a expressão da herança cultural de uma localidade portuguesa poderia constituir um factor de diferenciação e aceitação num contexto global. Hoje, acreditamos que sim. Verifica-se uma crescente valorização, por parte de diferentes mercados internacionais, de peças exclusivas, produzidas em pequena escala, que incorporam identidades culturais e sociais distintas», destacam.

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Agora, o que pretendem é expandir a presença deste Laboratório no mercado europeu e na América Latina, onde estão já identificadas oportunidades de crescimento e afinidade com a abordagem que conferem. Tudo para afirmarem mais ainda uma marca que se assume como uma verdadeira narrativa, onde cada peça criada conta simultaneamente estórias de um passado e de um futuro que compõem a tradição cerâmica das Caldas da Rainha e a reinterpretam à luz de novos cruzamentos de técnicas e de contemporâneos códigos visuais.

Este artigo faz parte da edição de maio (n.º 358) da Marketeer






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