A guerra no Médio Oriente e a crise do jet fuel têm um impacto profundo no Turismo e adensam as dúvidas em relação ao Verão. Ainda assim, Portugal poderá beneficiar deste contexto, ou não fosse um dos destinos mais seguros do mundo
O contexto geopolítico actual poderá ter repercussões significativas para o Turismo e, neste momento, o sentimento que reina entre os operadores do sector é de incerteza para o Verão. A guerra no Irão e o bloqueio do Estreito de Ormuz têm tido implicações no preço e no abastecimento de querosene de aviação – também conhecido como jet fuel –, estimando-se que cerca de 40% do combustível consumido pelas transportadoras aéreas na Europa dependa dessa rota marítima. Nesse sentido, o futuro a breve prazo do Turismo à escala global estará, em grande medida, de mãos dadas com o desenvolvimento do conflito. Porém, nem tudo são más notícias para a indústria nacional: sendo Portugal considerado um dos destinos mais seguros do mundo, poderá vir a beneficiar deste contexto face a outros destinos concorrentes.
Esta foi uma das principais conclusões do mais recente almoço-debate do Turismo promovido pela Marketeer, onde foram discutidos alguns dos temas quentes do sector. «A vantagem de sermos periféricos é que, por muitos erros que possamos cometer no aeroporto [de Lisboa], as pessoas acabam por vir para cá porque somos dos países mais seguros da Europa. Já beneficiámos com todas as questões que aconteceram no Médio Oriente – como durante a Primavera Árabe – e vamos continuar a beneficiar», afirmam os participantes. De resto, de acordo com o Índice Global da Paz 2025, Portugal ocupa o 7.º lugar entre os países mais seguros do mundo e o 5.º da Europa, a seguir à Islândia, Irlanda, Áustria e Suíça.
O Turismo de Portugal tem estado a monitorizar os fluxos turísticos e os problemas de abastecimento da aviação, em conjunto com os organismos europeus. E o último estudo divulgado pela Comissão Europeia de Viagens (ETC, na sigla original) mostra que os consumidores europeus nunca tiveram tanta vontade de viajar como hoje, sendo este um índice que está muito acima do que estava na pré-pandemia. Porém, os comportamentos são diferentes: a imprevisibilidade do mercado e a situação financeira têm impacto no bolso dos consumidores, e, portanto, o que se antevê é que os europeus vão viajar menos vezes, em períodos mais curtos, e vão fazer as suas reservas cada vez mais last minute. E isso é algo que terá impacto no planeamento das empresas de turismo.
«Estamos, de facto, num momento de muita imprevisibilidade e, provavelmente, dos momentos mais instáveis relativamente à procura turística. Mas há um dado relevante: Portugal e o Sul da Europa beneficiarão dessa vontade de viajar – se houver aviões. O que se vê, neste momento, nas reservas projectadas a três meses, é que o crescimento para Portugal é significativo», salientam os participantes no debate.
Assim, o sentimento geral à volta da mesa é misto. Por um lado, parece claro que o turismo nacional vai beneficiar neste Verão em relação a outras geografias em crise. Por outro, o aeroporto de Lisboa está a operar no limite da sua capacidade, o que coloca um travão, e a crise dos combustíveis na aviação também contribui para adensar as dúvidas. «O agudizar da crise [da aviação] é devastador para o sector à escala global. Tipicamente, o que as companhias aéreas vão fazer é redefinir o número de frequências e pôr aviões maiores no ar. Mas é um ambiente profundamente instável, não esquecendo o impacto da inflação via diminuição do rendimento disponível. As pessoas vão ter de fazer opções, com implicações para o sector», explanam os responsáveis.
Álvaro Covões (Everything is New), André Araújo e Sá (Leading), Andrea Granja (Minor Hotels), Bernardo Corrêa de Barros (Turismo de Cascais), Bernardo Trindade (PortoBay Hotels & Resorts), Catarina Pestana (Visabeira Turismo), Cristina Borges (Sublime Hotels), Diana Gonçalves (Agência Abreu), Gonçalo Bernardes (The Editory Collection Hotels), João Pinto Coelho (Onyria Group), Jorge Costa (Visabeira Turismo), Lídia Monteiro (Turismo de Portugal), Nuno Costa (Timeless), Paulo Monge (SANA), Paulo Pinto (Imppacto Catering & Eventos), Paulo Ramada (AP Hotels & Resorts), Pedro Quintela (Agência Abreu), Pedro Rodrigues (Desafio Global), Rita Bernardo (Turismo de Cascais) e Solange Moreira (Ukino Hotels) foram os responsáveis que estiveram presentes no almoço-debate de Turismo, que decorreu no espaço Villa Atlântico do InterContinental Cascais-Estoril, a convite do Turismo de Cascais.
Algarve e Madeira no bom caminho
Apesar do sentimento geral de incerteza, há outros bons indicadores que podem contribuir para animar o sector – e a economia nacional. Desde logo, o destino Portugal está a crescer na América Latina e é expectável que mantenha essa tendência no resto do ano, desde que os problemas com o jet fuel não sejam impeditivos nesse sentido. De resto, o Brasil cresceu, enquanto mercado emissor, nos primeiros dois meses do ano face a 2019, recuperando finalmente desde a pandemia de Covid-19. Comprovando o bom momento, haverá reforço de conectividade entre os dois lados do Atlântico: a companhia aérea brasileira Gol anunciou que vai estrear uma rota directa entre o Rio de Janeiro (aeroporto do Galeão) e Lisboa, a partir de Setembro. Será a primeira rota da companhia na Europa.
Além disso, há outros mercados da América Latina a crescer para Portugal, muito devido ao trabalho de promoção que o Turismo de Portugal tem feito nesta região do globo. Ainda recentemente, o organismo esteve presente na Feira do Livro de Buenos Aires, na Argentina, com um stand que juntou várias regiões do País e que recebeu cerca de um milhão de pessoas em poucas semanas. Na parte Norte do continente, Portugal também continua a crescer nos EUA e Canadá – não ao mesmo ritmo dos anos anteriores, mas ainda assim com tendência positiva.
No segmento da hotelaria, o que os responsáveis ouvidos pela Marketeer esperam é que as unidades que estão localizadas em destinos resort – ou seja, o Algarve e a Madeira, mas também a Comporta, por exemplo – sejam as que mais irão beneficiar do contexto geopolítico actual neste Verão que se aproxima, no sentido de poderem atrair turistas que não querem viajar para outros destinos menos seguros. Não obstante, devido a toda a incerteza que transpira do sector da aviação, as reservas, particularmente no canal online, tendem a ser muito em cima da hora, pelo que é difícil ter certezas absolutas neste momento. «Em relação a outros conflitos mundiais que aconteceram no passado, agora há a questão dos combustíveis, que dita tudo. Há muitas incertezas, porque dependemos de algo que não dominamos», reiteram os participantes.
Por outro lado, os destinos de cidade, nomeadamente Lisboa e Porto, estão a sentir mais dificuldades este ano, sobretudo no segmento MICE. Na capital, em particular, o aeroporto continua a ser um tema em cima da mesa, não apenas pelos constrangimentos relacionados com os voos, mas também pelos tempos de espera no controlo de passaportes, que se mantêm elevados. A entrada em vigor do novo sistema de entradas e saídas, com recolha de dados biométricos, tem ficado marcada pelas longas filas de espera, com consequências negativas para a percepção do destino nos mercados internacionais. «É uma realidade com a qual vamos ter de viver, porque não vamos ter o novo aeroporto nos próximos 10-15 anos. Os fluxos e os slots da manhã causam os constrangimentos que causam e há optimizações que devem ser feitas» na infra-estrutura, frisam os participantes no debate promovido pela Marketeer.
Além disso, apontam o dedo à «desorganização» no aeroporto, faltando, por exemplo, sinalética que ajude as pessoas a saberem para que fila se devem dirigir para o controlo de passaportes. «Para os portugueses é mais rápido, porque há uma fila específica. Não há grandes soluções à vista, a menos que se passe para a verificação manual – mas aí tem de ser a Polícia a fazer.»
A par das limitações no Aeroporto Humberto Delgado, o aumento da oferta hoteleira na cidade de Lisboa tem contribuído para colocar pressão sobre o preço dos quartos. «O preço neste momento em Lisboa está claramente abaixo do ano passado e isso tem a ver com o aumento da oferta. Com os constrangimentos no aeroporto, ao licenciarmos mais projectos hoteleiros estamos a pegar nos mesmos turistas e a distribuí-los por mais hotéis», referem os responsáveis.
Em suma, a incerteza é, neste momento, o factor que está a condicionar o sector como um todo. «O primeiro trimestre não correu mal e as perspectivas para o primeiro semestre também são boas. O segundo semestre é que é mais difícil de prever neste momento. Mas há esperança de que o Algarve e Madeira nos ajudem a ter um bom ano», salientam.
MICE e a escassez de venues
O segmento MICE (reuniões, incentivos, conferências e exposições) é muito relevante para alguns dos players representados à volta da mesa. Mas será que, neste segmento, o País também poderá beneficiar do contexto geopolítico no Médio Oriente, atraindo eventos e clientes que, nos últimos anos, se fixaram em destinos como os Emirados Árabes Unidos?
De acordo com os participantes no almoço-debate promovido pela Marketeer, é pouco provável que isso aconteça, pelo menos a uma grande escala. É que, na última década, esta região do globo investiu fortemente nos eventos. E investiu de tal forma que é quase impossível para outros destinos concorrerem, por não terem a mesma capacidade financeira. Dando o exemplo de Cascais, onde decorreu o almoço da Marketeer, a região perdeu nos últimos anos dois eventos relevantes, nas áreas do hipismo (Global Champions Tour) e do golfe (World Corporate Golf Challenge), para Abu Dhabi e o Dubai, respectivamente. E perdeu-os porque o investimento foi incomensuravelmente superior ao montante que Cascais podia alocar. «É verdade que não há dinheiro que pague a segurança. Mas os Emirados não estão a desistir de nenhum dos eventos. Nalguns casos estão a adiar datas, mas ninguém pode concorrer, porque eles têm os contratos», frisam os participantes no almoço.
À volta da mesa, há ainda quem assuma não estar optimista «pela primeira vez» desde que integra o sector do Turismo, especialmente pela situação em Lisboa. «Neste momento, não fazemos a mínima ideia de como vai ser o segundo semestre, principalmente no segmento MICE. As equipas passam mais tempo a discutir contratos do que propriamente a negociar. O pagamento de um depósito para o segundo semestre é quase um milagre, porque está toda a gente com medo do preço da aviação e de saber se pode ou não viajar», relatam os responsáveis. Dois dos principais mercados emissores para o segmento MICE em Lisboa, o Reino Unido e os EUA, estão em «retracção», o que não augura nada de bom. Assim, apesar de o ano, de uma forma geral, não estar a correr «de forma pior do que o ano passado», a verdade é que as perspectivas «não são, por enquanto, positivas».
Já do lado das empresas de organização de eventos, o contexto é muito particular. Depois de um verdadeiro boom de eventos no pós-pandemia, o sector está agora a «regressar à velocidade normal», com a grande maioria dos eventos a decorrer em formato puramente físico («quando os clientes perceberam os custos dos eventos híbridos, deixaram de fazer»). Do ponto de vista do incoming, algumas empresas que actuam nesta área relatam que estão a conquistar grandes eventos que decorriam noutros países, nomeadamente em Espanha, porque Portugal apresenta preços mais competitivos neste segmento.
Não obstante, este sector apresenta alguns problemas estruturais, há já alguns anos, que colocam barreiras ao desenvolvimento do segmento MICE. Desde logo, há um problema associativo: a associação que representa o sector, a APECATE – Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos, tem «outras preocupações» além dos eventos. Depois, não há nenhuma formação em eventos em Portugal. E, em terceiro, e a principal dificuldade, é que há uma gritante escassez de venues. Há muitas unidades hoteleiras para alojar os clientes, mas não há locais para realizar os eventos.
Os venues clássicos que existem em Lisboa, como o Pavilhão Carlos Lopes, o Convento do Beato ou o Pátio da Galé, estão, por norma, ocupados. E a FIL – Feira Internacional de Lisboa – que «só existe porque houve a Expo 98» – está muito desactualizada e degradada, sobretudo em comparação com venues concorrentes aqui ao lado, em cidades espanholas como Bilbao, Valência, Madrid ou Barcelona, lamentam os participantes no debate. A solução, muitas das vezes, tem passado por adaptar locais que, na sua génese, não são venues, mas está longe ser a ideal.
Apesar de tudo, os responsáveis do sector lembram que há projectos que estão na gaveta há largos anos para a criação de novos venues na capital, mas que estão presos por questões burocráticas ou ambientais. E recordam ainda que, quando a taxa turística passou de um para dois euros em Lisboa, a premissa é que seria canalizada para investir em novos centros de congressos. Entretanto, em Setembro de 2024, a taxa passou de dois para quatro euros. Só no ano passado, a Câmara Municipal de Lisboa arrecadou 83,2 milhões de euros com a taxa turística. «E onde estão os projectos para centros de congressos? O tema dos venues não está na agenda política», criticam os responsáveis.
A privatização da TAP
Durante o almoço no Villa Atlântico, debateu-se ainda outro tema que será estrutural para o sector nos próximos anos: o processo de privatização da TAP, que entrou na sua fase final com dois concorrentes, a Air France-KLM e a Lufthansa. A reprivatização da companhia aérea prevê a venda de até 49,9% do capital, sendo que as duas proponentes têm até Julho para apresentarem as suas propostas.
À volta da mesa, há quem se oponha à venda parcial da companhia de bandeira portuguesa. «Vamos cometer mais um erro estratégico, porque Portugal é um país periférico, em que mais de 90% dos turistas chegam de avião. E deixarmos de ter uma companhia bandeira gerida por nós será um erro, como muitos outros que cometemos no passado. Além de que a TAP é o maior exportador nacional.»
Mas há também quem seja favorável ao processo de privatização, desde que sejam garantidas algumas premissas, nomeadamente as rotas estratégicas no mundo lusófono e nos EUA. «O modelo de gestão salvaguarda o interesse nacional, por um lado, e melhora o balanço, por outro», defendem. Há ainda quem vá mais longe e defenda que este «é o negócio mais interessante que existe neste momento no sector da aviação. Porquê? Porque se junta território», com os candidatos à compra da companhia a querem aproveitar a presença da TAP no Brasil e em África.
«O encaixe financeiro pode ser relevante para o País. Perdemos esta nossa marca tão querida para nós, mas há vários exemplos [de privatizações] a nível mundial que geraram optimizações gigantes», concluem.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Turismo”, publicado na edição de Maio (n.º 358) da Marketeer.












