10 dicas para ter uma alimentação mais sustentável

Num mundo em emergência climática, como vamos produzir, de forma sustentável, alimentos para mais de sete mil milhões de pessoas? A Deco Proteste dá conselhos para uma alimentação mais amiga do ambiente.

Há muito que vivemos em estado de emergência climática. Entre muitos outros “culpados”, a agricultura intensiva ocupa um lugar de destaque na degradação ambiental e contribui activamente para as alterações do clima. Os números, sozinhos, demonstram-no: cerca de 25% do total das emissões de gases de estufa são directamente causadas pela agricultura, produção animal e a desflorestação. É preciso mudarmos os nossos comportamentos. A Deco Proteste deixa algumas recomendações sustentáveis para ajudar.

1. Reduza a pegada da alimentação

O impacto ambiental da produção de alimentos pode ser traduzido em números: a agricultura, a pecuária e a indústria são responsáveis por 26% da emissão de gases com efeito de estufa no nosso planeta. Além disso, 70% da extracção de água doce no Mundo destina-se à agricultura e 51 milhões de quilómetros quadrados de solo são usados para a produção de alimentos. Tonto com os números? O transporte é outro factor de risco ambiental, e o de avião é o pior.

É possível repensar o modo como consumimos produtos alimentares. Se conseguir comprar local, sazonal (de acordo com a época) e evitar os alimentos que nos chegam por transporte aéreo. Tente prescindir também de alimentos da moda, como o abacate, cujo cultivo é muito exigente em termos de água. Não quer dizer que os risque de vez da mesa: basta guardar a compra para ocasiões esporádicas e especiais.

2. Mais frutas, legumes, cereais e leguminosas

E se respeitássemos as proporções das diferentes fatias da roda dos alimentos? Privilegie o consumo de produtos de origem vegetal na alimentação diária, que contabilizam cerca de 75% dos alimentos da roda, face aos 25% dos produtos de origem animal. Assim, poderíamos reduzir o peso do impacto que a produção de carne e a indústria das pescas têm sobre os solos, a água e a biodiversidade marinha. Tentemos, em fases. Para ter uma noção mais próxima dos nossos hábitos: um esparguete com carne de porco ou de vaca para quatro pessoas representa 17,09 kg de emissões (expresso em kg de equivalente de CO2). O mesmo esparguete, mas com lentilhas, traduz-se em apenas 4,09 kg/CO2.

Na sua alimentação diária, inclua leguminosas, por exemplo, na sopa, e componha o prato de forma a que os legumes ocupem metade; a carne, o pescado ou ovos um quarto; e o acompanhamento outro quarto. Ingira três a cinco porções de fruta e de legumes por dia. Prefira a fruta, por exemplo, à sobremesa, e nos lanches ao longo do dia.

3. Limite o consumo de carne vermelha

Na Europa, comemos carne, pelo menos, quatro vezes mais face às nossas necessidades. A produção requer grandes áreas de terra para a criação e a alimentação do gado, além de enormes quantidades de água e de energia. Acrescente-se os gases com efeito de estufa libertados pelo estrume e a digestão do gado e percebe-se o motivo da enorme pegada ecológica da carne de vaca. Quanto maior o animal, maior o seu impacto no ecossistema. Mas esse impacto varia de acordo com o modo de criação. Se for intensivo, usa menos espaço, mas consome muita água, energia e alimentação, vindos frequentemente de longe. Os animais em pastoreio requerem menos água, menos energia e a maior parte da sua alimentação está no local, mas emitem mais metano. Coma menos carne em geral. Substitua a de vaca pela de aves e, no talho, pergunte pela proveniência e pelo modo de produção.

4. Pondere a dieta vegetariana

Neste caso, consegue cortar o problema do consumo de carne pela raiz, devido ao que ele representa para o ambiente. Mas uma alimentação variada e equilibrada não é fácil de conseguir sem incluir nenhum produto de origem animal. As alternativas vegetarianas às refeições de carne podem não ser a solução. Muitas vezes, são produtos demasiado processados, ricos em sal, importados de longe e, com frequência, tão caros quanto a carne. Por isso, deve pensar se vale mesmo a pena.

Se a sua decisão é convicta e definitiva, deve consultar um nutricionista, para estabelecer um plano que compense a falta de proteínas de origem animal e salvaguarde o aporte vitamínico, fundamental na alimentação. Provavelmente, outra solução que também contemple carne, mas em menor quantidade, poderá ser mais adequada.

5. Coma ao sabor da estação

Lembra-se de lhe dizerem, num passado recente, que determinado mês era a época da laranja e outro o das maçãs? Na verdade, ainda se fala das épocas da fruta e legumes, que correspondem à produção de acordo com um ritmo mais amigo dos solos e da água.

Comer sazonal significa prescindir daquilo que é produzido para garantir uma oferta todo o ano e que decorre de uma exploração mais intensiva. E, por isso, lesiva para o planeta. Consulte o calendário de fruta e legumes.

6. Compre local, pelo bem global

A compra de produtos locais evita, desde logo, o transporte demorado – e muitas vezes inútil – de alimentos de outras partes do globo. E não são só de frutos exóticos, ou afins. Para quê comprar, por exemplo, laranjas ou uvas importadas? Ao evitá-lo, está ainda a contribuir para a manutenção do emprego dos produtores nacionais. Mas deve ter em conta se a “época” da sua compra corresponde à das frutas e dos legumes que está a comprar, para garantir a sustentabilidade em várias faces. Se escolher um produto local que não seja da época, proveniente, por exemplo, de estufas aquecidas e iluminadas artificialmente, opção que envolve um consumo significativo de energia, de pouco valerá o seu esforço.

Mas é verdade que lhe pode apetecer algo fora da estação. Nesse caso, faça uma excepção à regra: compre um produto importado, de um país onde ele esteja na época. Tente ser simples nesta opção: não haverá muita volta a dar à regra de ouro, de comprar o máximo possível sazonal e local.

7. Opte pelos biológicos, pelo ambiente

À partida, é um conceito para correr na perfeição. A agricultura biológica não recorre a fertilização química, faz uma gestão dos solos mais adequada, tanto para manter a sua qualidade, quanto respeitando a biodiversidade. Mas há alguns senãos a ter em conta: ainda é menos produtiva do que a convencional – portanto, podemos dizer, a qualquer momento, um singelo “não chega”, na hora de comprar e consumir -, e exige mais extensões de terra para compensar essa insuficiência. O bio tem vantagens, mas deve ser encarado na perspectiva do local e sazonal. Senão, estragamos tudo.

8. Evite os alimentos processados

Estes produtos são pouco recomendados, por poderem conter mais aditivos, sal, açúcar e gordura. É verdade que aquela pizza congelada que praticamente atiramos para dentro de um forno, e que não dá trabalho nenhum, é tentadora para dias mais cansativos, ou para a preguiça gastronómica militante. Ou então, pedimo-la por take away, acompanhada de um refrigerante também processado. Estes alimentos têm impacto, por sofrerem muitas manipulações, devido ao consumo energético e de água que exigem, e também é necessário o transporte… Nem sempre compensa o que podem poupar em tempo, gás e água para cozinhar em casa.

Evite-os ou limite o seu consumo a produtos o menos transformados possível, como conservas ou legumes congelados, se não tiver alternativas viáveis e práticas.

9. Prefira os frescos, como alfaces

Não é só pelo argumento da saúde que os alimentos frescos são melhores. Da produção à distribuição, há todo um caminho com impacto sobre o ambiente, que poderia ser suficientemente persuasivo para evitarmos alimentos que não são frescos. Por exemplo, os produtos congelados exigem gastos de energia para se manterem conservados até chegarem em segurança ao consumidor. O mesmo vale para os alimentos importados de outros continentes, que requerem, lá está, transporte a longa distância e formas de conservação mais pressionantes para o ambiente.

É simples. Prefira confeccionar em casa produtos tão naturais quanto possível e limite o consumo de ultracongelados a mínimos olímpicos.

10. Evite o desperdício e compre a granel

Se há aliada mais útil (e barata) do consumidor ambientalmente consciente, essa é, com certeza, a redução do desperdício. Aliás, 76% dos portugueses está de acordo em reduzir as perdas. Para evitar o desperdício, logo à partida, pode também comprar a granel: acerta melhor nas quantidades de que realmente necessita e faz um segundo favor ao ambiente, rejeitando a compra de alimentos em embalagens de plástico. Quando for às compras, leve um saco para os produtos a granel – por exemplo, para fruta e legumes.

Números que preocupam

O efeito parece ser de bola de neve – se precisamos de mais solos aráveis, desflorestamos. Ao desflorestar, desprotegemos o planeta: a conversão de ecossistemas naturais para a agricultura causa a perda de carbono orgânico dos solos, que acaba por escapar para a atmosfera. E ainda atacamos os habitats das florestas, ameaçando a biodiversidade. A exigência de água doce na agricultura intensiva, além de mais 2% de emissões provenientes da produção de fertilizantes, herbicidas, pesticidas e do consumo energético para a lavoura, irrigação, fertilização e colheita, são as notas que completam este requiem pelo planeta.

Um último número para fixar: em 2050, seremos 9,3 mil milhões de almas na Terra. Ou seja, mais coisa, menos coisa, mais dois mil milhões de seres humanos do que os que povoam actualmente o planeta. Isto significa a necessidade de aumentar em 60% a produção de alimentos para satisfazer esta procura. Os números que aqui reproduzimos são todos da FAO, a Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas. Esta entidade define uma alimentação sustentável de forma sucinta: é aquela em que os alimentos são nutritivos e acessíveis a todos e os recursos naturais são geridos de forma a manter as funções dos ecossistemas para garantir a satisfação das necessidades humanas, actuais e futuras. A sustentabilidade é, por isso, mais do que assegurar a protecção dos recursos naturais.

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