Vidas de afectos

M.ª João Vieira Pinto
Directora de Redacção Marketeer

Tive a sorte imensa de crescer entre afectos. De me sentar ao colo do meu pai enquanto ele me recordava histórias. De abraçar tios e primos, amigos e namorados (que na adolescência se escrevia no plural…). De partilhar bicicletas e berlindes. De, com a idade da minha filha (17), me sentar com amigos na rua, depois de jantar, para trocarmos momentos do dia, músicas, gargalhadas sem fim e sonoridade elevada!

Tive a sorte de fazer o meu percurso de escola com uma mão-cheia de colegas (alguns) que ficaram para a vida. De entrar na Universidade sabendo mais ou menos ao que ia, mas com a certeza, porém, de que seria pelos corredores da Faculdade de Letras de Coimbra que se haveria de ditar o futuro – com mais amigos, lá está, que de tantas horas de estudo, festa e muitos abraços, continuariam até hoje.

Depois, tive a sorte ainda de ir fazer o que sempre havia sonhado, ser jornalista. Em jornal diário, com direito a reportagens de crimes passionais ou acompanhamento intenso de políticos. Nas conferências, viagens e redacções, trocávamos notas e canetas, encostávamos o ouvido a gravadores de outros para confirmar declarações, “passeávamos” disquetes – pois, sou do tempo delas… – e emprestávamos jornais ou algumas páginas dos mesmos.

Sim, sempre vivi rodeada de afectos. Mas dos que chegam também em forma de abraço, de presença.

A pandemia apanhou a minha filha e a geração dela em fase de mudança, do secundário para a faculdade. Passaram meses a “conversar” por Zoom e outras plataformas virtuais, tiveram as férias de Verão possíveis, estão – alguns deles, eu sei – apenas com quem podem estar em grupos reduzidos, as aulas foram à distância, os exames feitos com máscara, não vão ter a entrada dita normal no ensino superior e conhecer os corredores das escolas, para as quais se candidataram, será como que uma pequena névoa.

Já para não falar das festas universitárias, das viagens de curso, dos momentos que até parecem fúteis mas nos ficam para a vida.

Hoje, dia em que escrevo este Editorial, aconteceu a 14.ª conferência da Marketeer. Conseguimos que fosse presencial, se bem que também virtual, mas não houve troca de abraços, claro. Numa das mesas-redondas, alguém defendia que “o novo social será à distância”! Ou virtual. Sem toque, sem partilha total.

Claro que a geração dos nossos filhos tem afectos. Mas aquilo que já lhes roubaram foi a possibilidade de materializar esses mesmos afectos, todos os dias.

Não sei se vai ser uma geração melhor ou pior. Mais ou menos mecânica, ou mais ou menos carente. Agora, o que sei é que o nosso maior pilar de felicidade é construído com base e em torno das relações que temos. E, esse, no caso deles, está a ser atingido em toda a linha!

Editorial publicado na revista Marketeer n.º 290 de Setembro de 2020

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