Uma palavra: sustentabilidade

O Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, recebeu o primeiro pequeno-almoço debate do ano dedicado ao sector do turismo.

Texto de Sandra M. Pinto

Fotos de Paulo Alexandrino

Depois da atribuição de vários prémios e reconhecimentos internacionais, Portugal recebeu o galardão de Melhor Destino Turístico do Mundo, pelos World Travel Awards, tornando-se o primeiro país europeu a conquistar esta distinção. Depois de um 2017 de grande crescimento no sector do turismo, a questão que se impõe colocar é: será que 2018 vai ser o ano da consagração do turismo em Portugal como um todo, para lá de Lisboa, Porto, Algarve, Madeira e Açores? Mas com que estratégia e em que alicerces se pode alavancar esse desenvolvimento é algo que urge perceber. Simultaneamente, o presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, Raul Martins, defende que «depois do sucesso a palavra de ordem para o turismo nacional nos próximos tempos é sustentabilidade». Haverá acordo entre todos os players relativamente a esta matéria? Os prémios continuam a chegar, assim como os turistas, mas a verdade é que a sustentabilidade do turismo é indispensável para o futuro da economia de Portugal. Ou seja, é imprescindível planear e levar a cabo a implementação das medidas essenciais e necessárias que alavanquem a sustentabilidade da procura.

Este e outros temas serviram de base ao pequeno-almoço que teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, e onde estiveram presentes: Eduardo Cabrita (director-geral da MSC Cruzeiros em Portugal), Diamantino Pereira (director-geral de operações para Portugal da Barceló Viajes), João Pinto Coelho (director de Vendas e Marketing do Grupo Onyria Golf Resorts), Frederico Costa (administrador do Grupo Pestana Hotels & Resorts para área das Pousadas), António Seiça Gonçalves (administrador do Grupo Hotéis Real), Álvaro Covões (director da Everything is New), Maria Gomes (Senior Marketing Manager Minor Hotels), Isabel Barata (administradora do Grupo SATA), Paulo Monge (director- -geral de Vendas da Sana Hotels) e Gonçalo Rebelo de Almeida (administrador do Grupo Vila Galé). Com a finalidade de se alcançar um debate mais aprofundado por parte de todos, foi decidido que nenhuma das intervenções seria atribuída directamente no texto.

2017 em resultados

O ano de 2017 foi fantástico em quase todos os sectores, sendo que o do turismo se destacou pelos números bastante positivos. O culminar aconteceu com a atribuição do galardão de Melhor Destino Turístico do Mundo, pelos World Travel Awards. Urge perceber como é que este reconhecimento poderá ser aproveitado tanto pelas autoridades governamentais responsáveis pelo sector, como pelos players. A situação que vivemos agora no sector é uma conjugação de variados factores, ultrapassando mesmo o factor tão linear da qualidade da nossa hotelaria, pois passa pelos recursos naturais, pela hospitalidade e simpatia das gentes, pela excelência do clima, pela variada oferta cultural, pela segurança, pelas novas rotas operadas pelas companhias aéreas, entre tantos outros. «Para os players instalados, o ano de 2017 já foi mais um ano de crescimento em receita e em preço do que propriamente em volume, com cadeias hoteleiras a crescer 2% na ocupação e 13% na receita.» Há um período onde é gerada uma maior procura, essencialmente entre Abril e Outubro, e durante o qual as unidades hoteleiras já não têm capacidade para crescer mais em ocupação, «surge desta forma um constrangimento à entrada de novos players, apesar de o país em si poder continuar a crescer, porque vai sendo introduzida maior capacidade para receber pessoas, mas até aqui existem alguns constrangimentos, como a capacidade do aeroporto de Lisboa, não sendo expectável que consiga crescer muito mais».

Para alguns, Portugal teve alguns indicadores de que nem tudo está bem, apesar dos bons resultados alcançados, como a falência de companhias aéreas que vinham de mercados muito importantes, como o Reino Unido. Um dos participantes afirma que «o ano vai ser bom, mas vai manter-se em linha com o que aconteceu em 2017, não me parece que se vá crescer novamente a dois dígitos, até porque há uma parte dos bons indicadores que não significam mais do que a recuperação de resultados obtidos há vários anos (2000 e 2007) e entretanto perdidos». Alguém chama a atenção de que este crescimento dos preços também traz consigo uma barreira, a qual reside no facto de «existir um valor a partir do qual surgem problemas na manutenção da relação preço/qualidade e de satisfação dos clientes». Havendo algumas margens a realidade é que não dá para crescer ilimitadamente.

A expectativa demonstrada pelos players é ela própria bastante divergente, com outros participantes a afirmarem crescimento de receitas também «na base dos 13%, mas com boas expectativas de crescimento para 2018, estando já este primeiro trimestre bastante acima do ano passado o que vem reflectir a tendência de que é nos meses de Inverno que se consegue subir em preço e ocupação».

Os ciclos

Antes de avançarmos no debate houve quem sentisse necessidade de enquadrar a situação, afirmando que, «se olharmos para trás, percebemos que tudo funciona por ciclos e em 20 anos o turismo nacional já passou por muitos altos e baixos, sendo que aquilo que estamos a viver hoje em Portugal é uma quantidade de visitantes como nunca tivemos antes». Por outro lado, «temos em Portugal uma oferta como até agora nunca tivemos, o que se percebe bem quando compararmos, por exemplo, 2004, quando o Campeonato da Europa de Futebol se realizou cá, com 2017, mas a rentabilidade foi basicamente a mesma apesar de hoje termos muitos mais visitantes e existirem muitos mais players».

O que temos hoje é um maior foco e um maior volume, comparativamente com o que tínhamos há uns anos. Ao olharmos para Portugal percebemos que o País depende 50% da capacidade aérea, pois é por lá que chegam os turistas e essa não tem crescimento significativo, logo de que forma é que o mercado pode crescer 10 ou 20%, se a capacidade aérea crescer apenas 5%? «Só pelo preço», foi a resposta imediata, «uma vez que Lisboa tem ainda capacidade para crescer em preço», afirmação com a qual todos concordaram, mas que levou à constatação de que, com tantos players no mercado, vai ser mais difícil conseguir fazer subir o preço. «Por exemplo, é mais fácil fazer subir preços no Algarve, onde não apareceram tantos players como em Lisboa.» Depois, rapidamente conseguimos perceber que o País não vai crescer como um todo, «há regiões que se vão destacar, caso do Porto, onde há capacidade para um crescimento gigantesco e muita procura, com a abertura de novas rotas», mas no reverso da medalha há regiões onde esse crescimento vai ser efectivamente difícil, «e são essas que merecem uma atenção e uma estratégia diferenciadora».

Chegamos ao cerne da questão, tudo são óptimas notícias? «Claramente que não!», ouve-se na mesa, «estas pequenas coisas são pequenos sinais de que vamos continuar a crescer e bem é um facto, mas vamos começar a desacelerar nesse crescimento».

No meio deste ciclo surgiu um dado novo, há cerca de quatro anos e que dá pelo nome de alojamento local, «e que ainda está fora das mais recentes estatísticas, por exemplo o Turismo de Lisboa na sua análise ainda não faz grandes referências ao alojamento local», o que trouxe outra achega para a discussão, uma vez que o crescimento também aconteceu pelo aumento do número de camas, «não só de hotéis mas de tudo, alojamento local incluído». Claro que os turistas que chegam pelo Porto podem fazer da cidade ponto de partida para conhecer o país, o qual tem pequena dimensão, mas na verdade o que verdadeiramente preocupa os participantes no debate é a falta de um plano estratégico para Portugal no que diz respeito ao turismo. «Continuamos a viver num país onde quando um empreendedor tenta levar para a frente um projecto, a primeira expressão que ouve é “não, isso não é possível fazer”, o que, de facto, nos dificulta muito a vida, este excesso de proteccionismo impede o País de crescer.»

Uma das opiniões ouvidas defende que «para mantermos o número de turistas temos de nos renovar todos os anos ao nível da oferta e dos conteúdos», algo que já é feito por muitos outros destinos nossos concorrentes. «O Estado continua o senhor absoluto de muitos espaços culturais, demonstrando- -se inábil para os dinamizar e comercializar, mantendo-se fechado a parcerias.» Tudo isto está assente na falta de estratégia para o turismo, «sem ela o país não vai para a frente», sendo um dos exemplos o facto de nas câmaras municipais, as duas maiores incluídas, ninguém gerir o turismo, «o que de facto é muito revelador».

Mas será que esta falta de estratégia se estende a outros subsectores do turismo? «No mar temos conseguido aumentar o número de turistas, mas há também aqui uma falta de estratégia, pois vejamos o exemplo do porto de Portimão, que assim que se fala em alargar a bacia ou efectuar a dragagem são sempre colocadas muitas questões e as coisas acabam por não acontecer.» Há algo de similar entre esta situação e a do aeroporto de Lisboa, «os armadores continuam a pensar só em Lisboa e, eventualmente, Madeira, mas a verdade é que Portimão tem muito para dar em termos da possibilidade de “turnaround” e de poderem incluir Portugal em termos do itinerário Mediterrâneo». No universo dos cruzeiros, os números continuam não só a ser muito positivos, «como estão sempre a crescer seja a 7 ou 8%, sendo que a expectativa para 2018 é de 27 ou 28 milhões de passageiros a viajar em cruzeiro no mundo inteiro».

E a sustentabilidade?

«Há hoje uma enorme oportunidade de fidelizar quem nos visita e assim garantir a sustentabilidade do crescimento do turismo », sendo que importa perceber o que podemos fazer para o conseguir. Mas a sustentabilidade vai além do crescimento, «e aqui falamos da carga pesada que recai sobre os destinos e as cidades com o número elevado de turistas que regularmente vão chegando», sendo que, no caso de Lisboa, «havendo ainda espaço para crescer, o que acontece é uma sobrecarga em determinadas zonas». Porquê? A resposta foi imediata, «isto só acontece porque o Estado acha que é omnipresente e que pode pensar em todas as estratégias sozinho e não é assim que funciona». Aqui entra a importância das parcerias com os privados, «nem que seja só para a área comercial».

Lugar ao talento

Uma das questões que tem vindo a ganhar preponderância nos últimos tempos é a importância das pessoas e do talento nas organizações. «Esta, digamos, “guerra” vai fazer com que disparem salários, dando origem a uma maior mobilidade das pessoas dentro do sector.» O turismo tem vindo a revelar-se um sector onde a formação adquire uma importância fulcral, o que tem trazido à luz do dia as dificuldades sentidas ao nível do recrutamento, «aqui voltamos a usar a palavra estratégia, pois aumentando a capacidade turística do destino, a verdade é que não tem acontecido a necessária estratégia com vista a fortalecer os recursos humanos». Todos concordam que é necessário melhorar a formação, «por que não aumentando o número de escolas de hotelaria? Seria a forma de conseguirmos ter pessoas mais e melhor qualificadas e, muito importante, em maior número».

Um ponto essencial é a necessidade que existe em determinadas categorias profissionais de perspectivação de carreira, «algo que as empresas e as organizações do sector têm de começar a colocar em cima da mesa. Para cativar e reter as suas pessoas é preciso dar-lhes perspectivas de carreira, isso é essencial ». Depois é necessária uma alteração legislativa, porque as carreias profissionais já não são encaradas como há 20 ou 30 anos.

Artigo publicado na edição n.º 259 de Fevereiro de 2018.

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