Turismo: balanço e estratégias

Casos & EstratégiasTurismo
Marketeer
01/05/2015
10:32
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Teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace o primeiro pequeno-almoço debate da Marketeer de 2015 dedicado ao turismo. Com o fim do primeiro trimestre importa avaliar resultados e implementar estratégias para o resto do ano. Simultaneamente, foi delineado o primeiro Fórum do Turismo a realizar no mês de Junho.

Considerado pela Lonely Planet como um dos “Best Value Destinations for 2015”, Portugal demonstrou um bom desempenho no sector do turismo relativamente ao primeiro trimestre do ano. Ainda que a Páscoa antecipada tenha ajudado nos resultados, a realidade é que as dormidas continuam a subir, em especial as realizadas em unidades hoteleiras.

Com o Verão à porta, as expectativas dos players estão em alta. Se em 2014 se bateram todos os recordes, o desafio é manter não apenas os números, mas, acima de tudo e mais importante, o interesse dos turistas em visitar Portugal. Para tal, alinham-se estratégias, tomam-se decisões e implementam- -se medidas. A realização do Fórum do Turismo Marketeer tem como finalidade ser um contributo na discussão com vista a encontrar soluções válidas que possibilitem o alavancar do turismo de uma forma cada vez mais séria e segura como um dos sectores basilares da economia nacional.

Neste pequeno-almoço, que teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, estiveram presentes: Pedro Ribeiro, director de Marketing e Comercial do grupo Dom Pedro Hotels, Nuno Ferreira Pires, administrador do grupo Pestana, e Margarida Blattmann, directora de Marketing da Springwater Tourism. Com a finalidade de se alcançar um debate mais aprofundado por parte de todos, foi decidido que nenhuma das intervenções seria atribuída directamente no texto.

Turismo: o papel principal

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A importância do turismo é ponto assente. Mas será que é dado ao sector o devido valor? Aqui reside a grande dúvida e a questão a que urge responder. Para os intervenientes, não tem sido dada ao turismo a importância que ele efectivamente tem, pois «não é dado ao turismo o papel primordial ou um dos principais no desenvolvimento da actividade económica, o que vem dificultar a acção dos diferentes players». Quanto vale o turismo no cômputo geral da economia portuguesa e qual a importância efectiva do turismo na vida e desenvolvimento de outros sectores que com ele vivem e interagem? Foi referido que a ausência de um sector do turismo forte e bem alicerçado é gerador do aparecimento de dificuldades em todos os sectores satélite, os quais podem inclusive passar por problemas de sobrevivência, e aqui falamos da restauração, da cultura, do aluguer de automóveis, entre tantos outros.

Outro aspecto de imediato referido incidiu sobre a importância de se perceber até que ponto a variação e as oscilações do sector do turismo se podem reflectir e influenciar a actividade e os resultados de grandes empresas que, não operando directamente com ele, podem de alguma forma ter a sua actividade aliada ao turismo, tendo sido relembrado que «um quarto do PIB nacional está relacionado directamente com o turismo». Aceite como concreta e inegável, essa influência e importância é ela própria geradora de receitas imprescindíveis à vida normal das empresas, pelo que variações acentuadas ao nível da actividade do turismo se reflectem obrigatoriamente aqui. Uma ressalva importante foi a referência de que, por exemplo, do lado do grande consumo não existem planos de marketing que tenham em linha de conta as variações do turismo, «os planos são levados a cabo apenas para o mercado doméstico e depois para o internacional, mas não são nunca levados em atenção os fluxos internacionais que regularmente chegam ao mercado doméstico», algo que todos concordam devia acontecer.

As grandes empresas ligadas a sectores fundamentais da economia deviam realmente pensar neste tema, na forte ligação dos seus resultados às diferentes oscilações do turismo, «se o turismo sobe X, o fluxo humano sobe Y, pelo que, e apesar de os resultados da empresa não serem brilhantes na quota de mercado doméstico, o fluxo de turistas vai acabar por compensar isso». Era importante a existência de uma métrica concreta que esclarecesse que, através do turismo, se conseguem recapturar resultados, os quais fazem com que o balanço final das empresas seja positivo. Simultaneamente, foi referenciada a importância que o turismo tem para uma certa economia paralela emergente, cujo melhor exemplo são as inúmeras startups que vão surgindo ligadas ao sector. Na vida destas micro ou pequenas empresas a oscilação do turismo é um factor preponderante, não apenas no alcançar de bons resultados, mas na própria sobrevivência da empresa.

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Portugal não é só Lisboa

Como um país geograficamente pequeno, Portugal consegue oferecer aos visitantes um leque variado de opções turísticas. De norte a sul, muitas têm sido as acções e as campanhas levadas a efeito pelos turismos regionais, com o intuito claro de chamar a si mais atenção e, por consequência, um maior número de turistas. Quando lemos em publicações estrangeiras que Portugal está na moda, percebemos que, apesar de grande parte das referências serem feitas a Lisboa, o País não se limita à capital, ou limita?

Efectivamente, o Porto tem vindo a sobressair como um destino bastante requisitado, sobretudo para quem chega da Europa. Mas será que tal é suficiente para tornar a segunda mais importante cidade portuguesa num pólo aglutinador de investimentos na área do turismo? Será que hoje o Porto é já uma marca turística?

Nos últimos tempos a Invicta foi a cidade que maior índice de crescimento evidenciou, mas será que existe no Porto potencial para um crescimento ainda maior? Se sim, onde ficará ele alavancado? Ouve-se falar muito do turismo do Douro, mas será esta a única base de fortalecimento do sector do turismo na cidade nortenha? Em redor concordou-se que sim, que o Porto tem bastante potencial para crescer, «pois a cidade ainda é um microdestino dentro dos muitos e variados que Portugal oferece, pelo que tem ainda margem para um crescimento». Mas foi levantada a questão pertinente de saber qual o papel que tem no âmbito dos destinos por excelência mais fortes dentro de Portugal, ou seja, Algarve e Madeira. Do lado dos grandes grupos hoteleiros nacionais foi referido que a importância do Porto é refreada, «não só pela presença destes dois destinos, como pelo enorme potencial pouco explorado que inequivocamente Lisboa continua a ter comparativamente ao Porto». Se esse potencial começar a funcionar bem «a capacidade de Lisboa de absorver ainda mais turismo vai crescer de uma forma efectiva, nem que seja devido ao acesso aéreo, uma vez que o número de rotas que chegam a Lisboa não tem nada que ver com o número das que chegam ao Porto. «Acontece não poucas vezes que quem vai visitar o Porto acaba por ter de passar por Lisboa», foi referido e reforçado com a afirmação de priority setting «de o facto de Lisboa estar na moda ser ainda tão recente e tão pouco bem trabalhada pelos players, que não faz muito sentido estar a focar agora no Porto».

Havendo investimentos no Porto por parte de alguns grupos, a verdade é que esta cidade «não é ainda uma prioridade». Noutra vertente, foi referido que uma estratégia de investimento em comunicação na Invicta faz algum sentido, já que «o Porto em si tem potencial mas nunca se vai conseguir que operadores hoteleiros que tenham a capacidade de fazer ainda mais investimento o equacionem como prioridade para a sua realização». Todos concordaram que esta vai ser a grande dicotomia, pois, «para quem já está bem no Algarve ou na Madeira e noutros turismos sazonais de peso, para uma decisão de investimento primeiro vem Lisboa e só depois o Porto».

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A importância das ligações aéreas representa nesta temática um papel preponderante, «uma vez que, com as companhias low cost, há muitos turistas que viajam directamente para o Porto, sem necessidade de parar em Lisboa», sendo referenciados, como exemplo, os turistas oriundos do Norte de Espanha. Foi contraposto o fraco número destes visitantes, o qual não entra nas agendas dos grandes decisores nem dos conselhos de administração de um grupo hoteleiro grande com potencial de investimento. No fundo, o problema é que «“meritocraticamente” o Porto ainda não conseguiu ter um factor de aceleração de retorno autónomo que faça despertar mais o interesse dos players e dos visitantes. Há a necessidade de a Invicta se afirmar sozinha, autonomamente, sem o apoio de Lisboa».

Situação que até poderá sofrer uma alteração com a implementação de projectos como a City of Wine, que em Vila Nova de Gaia vai agregar os produtores de vinho, com natural enfoque no Vinho do Porto, ou os cruzeiros no Douro. A estes acresce o natural interesse pela zona histórica da cidade e a cada vez maior qualidade da vida nocturna e restauração, concluindo que «o Porto evoluiu muito, pois há uns anos não havia estrutura de apoio ao turismo, algo que de facto hoje já é uma realidade».

Primeiro trimestre: que balanço?

Terminado que está o primeiro trimestre, importa questionar qual o balanço de forma a se conseguir perspectivar o futuro. Da parte da hotelaria o balanço não podia ser mais positivo, com os participantes a referirem que começaram muito bem o ano, «com crescimentos a duplo dígito».

Relativamente aos resultados finais do ano virem a ser bons ou não, tal «vai depender dos resultados obtidos durante o Verão que se aproxima», havendo mesmo quem fizesse referência ao ano de 2014 para afirmar que «basta que os resultados sejam iguais para o ano estar ganho».

Os dois dígitos de crescimento aplicam-se igualmente a operações concentradas em Lisboa, pois «há a real expectativa de uns meses de Verão de evidente crescimento, algo que já se tem vindo a verificar desde o início do ano». A mesma certeza não se estende à região algarvia por parte de alguns intervenientes, «onde qualquer oscilação em Julho e Agosto é fatal para os seus bons resultados».

Esta perspectiva de crescimento só vem dar base de sustentação à realidade de que nos últimos 10 ou 15 anos o turismo tem sido o único sector que tem vindo a crescer, «em termos macroeconómicos terá havido um ano em que tenha estagnado ou com um ligeiro decréscimo, mas é o único sector que tem efectivamente vindo a registar um crescimento».

No que diz respeito ao universo das agências de viagens, a dúvida reside em qual será o comportamento relativamente à área das exportações, «mas se tudo se verificar como até agora, este será um ano altamente positivo para a recepção dos turistas e para o valor do “incoming”». Já pela parte de “outgoing” é, até ver, uma incógnita, pois «há indícios de crescimento, a própria operação turística de charters tem crescido bastante, o que também poderá constituir um risco, pois significa que os preços poderão baixar, mas não será por falta de oferta que os resultados não serão positivos». Importa referir que o pequeno-almoço foi realizado antes do anúncio da greve da TAP, acontecimento que poderá ter algum impacto quer em termos de “incoming”, quer de “out-going”.

Simultaneamente, o espírito mais positivo que se tem vindo a sentir por parte dos consumidores está a gerar procura adicional, pelo que as perspectivas relativamente aos próximos meses de 2015 são também nesta área bastante positivas.

Artigo publicado na edição n.º 226 de Maio de 2015.






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