Trocas e dádivas em tempo de pandemia

Por Marina Pechlivanis, sócia-fundadora da Umbigo do Mundo

A Economia das Trocas, das Dádivas ou, na versão original, Gift Economy, apesar de ser a mais primitiva de todas as formas de troca, é um assunto extremamente contemporâneo e relevante. O conceito foi implementado há milénios, de forma natural, em sociedades arcaicas e nunca foi extinto, tanto que permanece vivo em vários “gift circles” virtuais actuais. Foi teorizado há pouco mais um século por antropólogos, sociólogos e filósofos, ganhando ares de erudição académica. Foi deixado de lado por economistas e financistas nas últimas décadas por não ornar com as intermediações e monetizações do sistema puramente financeiro. E agora está mais em alta do que nunca; basta ler as notícias dos actos de muitos líderes e de muitas empresas para ajudar a sociedade, as comunidades, o sistema de saúde… Não necessariamente porque estava planeado agir assim neste 1.º semestre de 2020, mas especialmente por pressão das circunstâncias. O que, frente a tantos desafios e mudanças que todos enfrentaremos, tem algo de evolução pela percepção sobre a interdependência que cada relacionamento com cada diferente público propõe.

Mais que um modelo económico, esta é uma forma actualizada de fazer negócios buscando alguns valores humanos que ficaram esquecidos por conta da primazia de outros valores, os monetários. E que tem tudo a ver com este momento de pandemia COVID-19, durante o qual todas as relações de troca serão revisitadas, quer o mercado queira ou não.

«A Gift Economy é um conceito que tem relevância tanto para o comportamento individual como para as empresas. Está sendo conduzida por poderosas tendências macroeconómicas e por um novo ethos, preocupado com a justiça e com a igualdade. Não é algo que se destina a beneficiar os menos favorecidos por si só, mas uma ideia que vai ajudar as empresas a tornarem-se mais inovadoras. Peter Drucker observou que as inovações que transformam indústrias tendem a vir de fora daquela indústria em particular. Essa é uma das razões mais poderosas para a partilha — na medida e amplamente possível. Com tanta pressão e tantos problemas globais em larga escala para as empresas e os países enfrentarem, é difícil saber por onde começar. Mas os mesmos gifts que fazem uma enorme diferença na vida dos indivíduos — ouvir, apoiar e compartilhar experiências — exercem também um forte impacto na sociedade em geral. São o melhor lugar para começar a lidar com grandes problemas», ensina Deepa Prahalad, inovadora social e estratega do Thinkers 50 India.

Estamos passando por uma forte reviravolta. Muitas certezas inquestionáveis e sagradas do mercado perderão sua força e sua credibilidade. Exemplos rápidos, para contextualizar:

• Os velhos rankings classificatórios serão revisitados, muitos radicalmente, com novos referenciais. Afinal, em tempos de isolamento social, o que é “ser a melhor empresa para se trabalhar”? E quais os atributos para “ser a marca de melhor reputação”?

• As clássicas formatações sobre “perfil de consumidor” e sua respectiva “jornada de compra” serão remodeladas. Como lidar com as novas e inesperadas exigências, que já estão modificando os “hábitos de consumo” e estarão impactando toda a cadeia de produção e de distribuição de forma nunca vista?

• A tradicional publicidade e a velha e boa promoção precisarão urgentemente renovar o sentido de sua existência. Qual o propósito de uma campanha, seja online ou offline? Qual o poder transformacional de um evento? A era de só divulgar para vender já era.

Isso é apenas o começo da transformação pela qual o mercado global passará. Hoje, o que é lucro? O que é valor? O que é economia? É tempo de rever os verbetes e reavaliar o que significam, especialmente porque com toda esta reviravolta na sociedade e no mundo dos negócios, as pessoas esperarão das empresas e das marcas nas quais confiam condutas, posturas e atitudes que, mesmo em um cenário altamente adverso, continuem surpreendendo e encantando.

Sim, estamos numa era de questionamento de valores, com limites confusos pela falta de parâmetros de certo ou errado, de bom ou ruim, de justo ou injusto: todo mundo, cada qual em seu sistema de crenças, quer saber “aonde iremos parar e por que estamos indo assim”. Nesta instabilidade, como é comum em todos os ambientes de tensão, está sendo gerado um novo panorama onde princípios humanitários como respeito ao próximo, gentileza, reciprocidade, doação e generosidade, entre outros, podem ser soluções viáveis para um mundo melhor, descentralizando a autoridade pública como geradora única do bem-estar social e transferindo para o indivíduo, como pessoa física ou pessoa corporativa, o papel de agente transformador de um novo ambiente, com novas relações de troca, novos laços de reciprocidade e novas metas de qualidade de vida.

Num artigo para o jornal brasileiro Estadão, Sergio Rial, presidente do Santander, pontua: «O grande desafio deste século é garantir a todos o direito de uma vida mais digna, com trabalho adequado e tendo em mente a consciência de que tudo está mudando mais rápido do que somos capazes de compreender. Maior riqueza se dá com crescimento e para isso teremos que repensar vários modelos de negócios existentes e a forma como vamos interagir com os povos.»

Finalizando a conversa mas não a reflexão, mais que uma questão económica, trata-se de uma questão existencial, de consciencialização, de remodelagem das formas como os negócios e todas as trocas que esses representam, materiais ou simbólicas, foram estabelecidos. São outros tempos, outros desafios, outras condições de planeta. Faz sentido trazer à tona uma nova forma de entender qual é a razão de consumir, vender, comprar, acumular, ganhar, trocar e compartilhar.

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