Sabe como nasceu o código de barras? A identificação dos produtos que compra está a evoluir

O Global Trade Item Number (GTIN) faz 50 anos e, embora, o seu nome possa não ser reconhecido à primeira é a ele que se deve o código de barras. Trata-se de uma sequência numérica que identifica, de forma única, cada produto, sendo a matriz para as barras que encontramos todos os dias em todo o tipo de artigos à venda.

Actualmente, o GTIN é lido mais de seis mil milhões de vezes por dia, estando registado em 100 milhões de produtos. De acordo com a GS1 Portugal, empresa responsável pelo código de barras no mercado nacional, é um dos identificadores mais confiáveis do Mundo – razão pela qual é utilizado por dois milhões de empresas.

Cinco décadas volvidas desde a sua criação, o GTIN serve agora de base para outros códigos mais modernos, que tiram partido da evolução da tecnologia. É o caso dos QR codes, bidimensionais, que oferecem mais informações do que somente o preço: basta ler este código para saber se determinado alimento é orgânico ou qual o seu impacto ambiental, por exemplo. Isto se a empresa que desenvolve o produto tiver interesse em disponibilizar dados adicionais aos seus clientes.

«Está a mudar – e mudou de modo decisivo com a pandemia – a constatação dos benefícios da disponibilização de informação de produto, rastreável e fiável, assente em dados de qualidade, e disponível em plataformas a que os vários elos da cadeia de valor têm acesso», afirma João de Castro Guimarães, director executivo da GS1 Portugal.

Em entrevista à Marketeer, o responsável adianta ainda que soluções estão a ser desenvolvidas e implementadas em Portugal neste âmbito e qual o principal entrave ao progresso: «Uma efectiva transição digital, transversal a toda a sociedade.» O líder da GS1 faz ainda um balanço dos 50 anos do GTIN e da sua importância para a actividade económica.

Qual é a diferença entre o GTIN e o código de barras?

O GTIN é a origem do código de barras que conhecemos na actualidade, que está também na génese da distribuição moderna. O código de barras, como vemos impresso em qualquer produto, de qualquer categoria, e que pode ser lido nos scanners de qualquer ponto de venda, integra, necessariamente, um GTIN.

No código de barras, o GTIN não é mais do que uma sequência numérica de 13 ou 8 dígitos (para produtos de pequenas dimensões) que as barras verticais, quase sempre a preto e branco, representam. O GTIN identifica um produto de forma única e universal através dessa sequência numérica. Serve para identificar qualquer produto, em qualquer ponto da cadeia de abastecimento – do produtor ao consumidor, garantindo a rastreabilidade do processo de produção e distribuição.

O código de barras, na sua forma mais conhecida, com um GTIN com 13 dígitos – a esta “fórmula mágica” chamamos European Article Number-13 ou EAN-13 –, deu origem a um sistema de identificação – único e inequívoco – capaz de responder às necessidades e especificidades de todos os elementos da cadeia de valor. É esse sistema de identificação que a GS1 Portugal representa desde 1985, em Portugal, e que tem permitido a produtores, distribuidores e retalhistas aumentar a eficiência do seu negócio.

O GTIN e o código de barras permitem integrar informação sobre produtos, ou seja, dados, num símbolo com elementos gráficos e numéricos, tendo levado, há 50 anos a uma verdadeira revolução do retalho e das economias, a nível global. Ao assegurarem a leitura automatizada permitem identificar produtos em ambiente logístico, durante o transporte ou no ponto de venda, integrando a referência ao país da entidade emissora e à empresa responsável pela comercialização do produto, identificando-o de forma única e inequívoca.

Quando, há 50 anos, a 31 de Março de 1971, líderes de algumas das maiores empresas produtoras internacionais, nomeadamente, Heinz, General Mills, Kroger e Bristol Meyer, se reuniram em Nova Iorque e criaram a sequência numérica que transformaria a economia global para sempre, as cadeias de valor ganharam uma eficiência e visibilidade sem precedentes com um potencial futuro que ainda estamos a explorar e não se esgotou.

Continua a ser o GTIN a chave de identificação na base das formas mais inovadoras de codificação – como a codificação bidimensional, de que são exemplo o GS1 Data Matriz e os QR codes. Para além disso, o GTIN continua a ser salvaguarda na verificação dos dados de produtos quando se consideram soluções de partilha de informação fundamentais a plataformas de comércio online, estruturantes, por exemplo, para o e-commerce. O GTIN marca a história da distribuição moderna e da economia por ter dado origem ao código de barras, mas marcará certamente também a economia mundial nas suas expressões futuras.

Há quanto tempo existe código de barras em Portugal?

Há 35 anos, precisamente, quando a CODIPOR, associação na génese da GS1 Portugal, é criada e introduz em Portugal o sistema de codificação EAN.UCC – European Article Numbering – Uniform Code Council (hoje o sistema GS1), que integra o código de barras, cuja aplicação resultaria em transformações verdadeiramente disruptivas na cadeia de abastecimento e logística, nos sectores do retalho e bens de consumo.

Na altura, a sociedade portuguesa registava alterações profundas e aceleradas, sobretudo com a assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, mais tarde União Europeia. Os fundos comunitários começariam, assim, a permitir o investimento na construção e modernização de infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento do país. Em paralelo, socialmente, registava-se a explosão do consumo e da distribuição moderna, com a inserção do Sistema de Codificação EAN.UCC (hoje Sistema GS1). Esta disponibilização do código de barras e do sistema subjacente representou uma verdadeira revolução na produção e distribuição, permitindo a introdução de meios de controlo e funcionalidades que, de outra forma, sem este sistema, não seriam possíveis.

Como se fazia para identificar um produto antes do GTIN? Qual foi o impacto desta inovação?

Sobretudo manualmente, por incrível que pareça! A gestão de stocks, de entradas e saídas, no ponto de venda, em armazém, ao longo de toda a cadeia de valor, fazia-se com fluxos revistos à unidade, de modo manual, quase exclusivamente com recurso a intervenção humana, com tudo o que isso significava, à data, em termos de agilidade, rigor, margem de erro…

Note-se que os anos 50 e 60 marcaram o início de uma era em que as inovações tecnológicas desenvolvidas na Segunda Guerra Mundial e nos primórdios da Guerra Fria para fins geopolíticos e geoestratégicos são adaptadas para fins civis, sócio-económicos, contribuindo para o desenvolvimento das sociedades em recuperação. Por exemplo, é apresentado nessa época o protótipo de um primeiro leitor de ondas de luz, o laser (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation) que viria a ajudar a alavancar o processo de leitura dos códigos de barras.

Com o início do crescimento económico e a recuperação das economias, começava a ser evidente a necessidade de um substancial aumento da eficiência das cadeias de valor. Esta assunção de necessidade norteou o que viria a ser a concertação dos principais operadores – produtores e retalhistas – quanto ao standard, o identificador chave, que estaria na base desse processo. Assim, em 1968, a Grocery Manufacturers of America e a National Association of Food Chains reúnem-se precisamente para discutir a criação de um código de produto, com potencial para servir toda a indústria e que daria origem, em 1971, à adopção do GTIN e, em 1973, ao código de barras que o integra.

Todos os tipos de produtos podem ter um GTIN/código de barras?

Em princípio, sim, todos os tipos de produtos podem conter um código de barras e um GTIN, que será ajustado à dimensão e categoria do produto. Foi, aliás, esta capacidade de adaptação que deu origem à codificação bidimensional aplicada em medicamentos e dispositivos médicos, por exemplo, com o GS1 Data Matrix, em espaços de embalagem exíguos e, se necessário, em dispositivos e unidoses de tamanho milimétrico.

O potencial desta sequência numérica é infindável. Quando aliado à inovação tecnológica, as soluções possíveis e os benefícios em rastreabilidade e sustentabilidade são inimagináveis. Veja-se, por exemplo, o resultado recente da colaboração da GS1, a nível global, com a Aanika Biosciences, tendo resultado na possibilidade de colocação de etiquetas biomoleculares naturais, garantindo a melhoria da rastreabilidade ao longo de toda a cadeia de valor dos vegetais de folha verde, frágeis e altamente perecíveis. Estas etiquetas são de dimensão microscópica, virtuais e indestrutíveis, permitindo a aplicação de standards GS1, de que o GTIN é exemplo.

Este sistema está a evoluir para novos tipos de códigos. O que está a mudar?

Está a mudar – e mudou de modo decisivo com a pandemia – a constatação dos benefícios da disponibilização de informação de produto, rastreável e fiável, assente em dados de qualidade, e disponível em plataformas a que os vários elos da cadeia de valor têm acesso. O GTIN e, de modo mais geral, a codificação, são condições fundamentais a essa disponibilização e à evolução para novas formas de codificação como as referidas anteriormente – a codificação bidimensional mas também a codificação com recurso a suportes biomoleculares ou outros.

O GTIN é também o bastião último e o garante de sistemas de partilha de dados em blockchain, como o que temos actualmente em curso, em parceria com a Deloitte (entidade parceira no desenho do conceito), com dois distribuidores (Jerónimo Martins e  Sonae), quatro produtores dos sectores alimentar e de bebidas (Gelpeixe, Unilever, CentralCer e Delta Cafés), um operador logístico (Grupo Luís Simões) e um parceiro tecnológico (TE-Food). Com estes parceiros estamos a testar uma solução de identificação que permita a rastreabilidade de produtos, deste a produção da matéria-prima, passando pela eventual transformação e distribuição, até à entrada em loja, cumprindo os mais rigorosos critérios de segurança e confidencialidade. O projecto em curso servirá de prova de conceito que se espera possa vir a evoluir para uma solução de mercado, oferecendo às empresas participantes uma resposta válida e segura de identificação e rastreabilidade de produtos ao longo da sua cadeia de abastecimento, culminando com o ambiente de loja.  Esta amplitude alargada do projecto, prevendo a integração da rastreabilidade em loja, constitui um elemento extremamente diferenciador.

Para além disso, o reconhecimento da importância da codificação e do respectivo potencial evoluiu também para a procura de soluções de verificação da qualidade desses dados, que a codificação, cada vez mais robusta, interconectada e acessível, permite. É exemplo disso a solução de que dispomos, designada Verified by GS1.

A GS1 Portugal dispõe de uma plataforma, certificada por entidade independente internacional, que permite registar e partilhar os dados que integram o “bilhete de identidade do produto”, um conceito adoptado pela GS1, a nível global, para facilitar a respectiva comunicação e que designa um conjunto de até sete atributos que consubstanciam a respectiva identidade: GTIN, marca, descrição, URL de acesso a imagem do produto, categoria, peso líquido e país de venda.

Essa certificação garante também que, com autorização dos brand owners, esses dados podem ser integrados numa plataforma global e harmonizada, que lhes dá visibilidade internacional e que, se necessário, podem ter verificados a sua identidade e a validade dos atributos registados com a solução Verified by GS1.

A GS1 Portugal foi convidada a ser uma das dezanove organizações-membro da GS1 participantes da segunda vaga de implementação do Verified by GS1, em 2020. Temos esta solução disponível desde final do ano passado, com benefícios a nível da eficiência dos negócios e garantia de qualidade e capacidade de rastreabilidade ao longo de toda a cadeia de valor.

Os QR codes são outra solução que espelha a evolução da codificação. Como avaliam a relação das empresas portuguesas com os mesmos?

A codificação bidimensional, de que são exemplo os QR Codes e o GS1 Data Matrix, no que aos standards GS1 diz respeito, têm um muito elevado potencial de agregação de informação – diferenciada em termos da sua tipologia e volume.

As empresas portuguesas, como as demais empresas, a nível internacional, cada vez mais reconhecem a importância da disponibilização e acesso a informação que por vezes exige suportes mais abrangentes, de que estes são exemplo.

Existem circunstâncias em que essa adopção é necessária, como seja no caso dos medicamentos e dispositivos médicos, em que legislação europeia, nacionalmente transposta, impõem essa adopção. No que aos restantes sectores se refere, constata-se claramente um crescente reconhecimento dos benefícios dessa codificação pela quantidade e complexidade de dados de produto que permite disponibilizar num espaço relativamente reduzido.

E os consumidores? Estão receptivos?

Cada vez mais. Segundo o estudo “A resposta da Cadeia de Valor às exigências do Consumidor” divulgado por Ana Paula Barbosa, Retail Services director da Nielsen Portugal, no nosso 9.º Seminário GS1 Portugal de Supply Chain, a pandemia teve necessariamente impacto no comportamento do consumidor, sendo os principais factores que poderão ditar essas alterações o revenge spending, a crise económica, a continuidade do teletrabalho e a experiência em e-commerce. Agora, como destacou, a manutenção dessas tendências num contexto de “novo normal” dependerá “da experiência e nível de satisfação dos consumidores no momento de compra” e, nesse sentido, a afirmação do propósito das marcas, a componente ética e o acesso a evidências – informação, dados – que o confirmem é fundamental. A codificação bidimensional é suporte para essas narrativas e corresponde certamente às expectativas dos consumidores.

Quais são os principais entraves à expansão dos QR codes?

Uma efectiva transição digital, transversal a toda a sociedade. Os consumidores, quer do ponto de vista da apetência – pelo interesse, curiosidade no acesso a informação –, quer do ponto de vista dos recursos – com o acesso generalizado a equipamentos móveis com acesso a dados – estão preparados. Importa acelerar a transição digital das empresas, que registou com a crise pandémica uma aceleração sem precedentes, tirar partido do “momentum” e avançar nesse sentido.

Texto de Filipa Almeida

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