Ronaldos da Criatividade – (Não) Somos os melhores do mundo

Por António Fuzeta da Ponte, director de Marca e Comunicação da Worten – Ibéria

Os portugueses adoram recordes. Durante uns tempos, ainda lá para o final do século XX, ficámos viciados nos Guinness, talvez sinónimo de um País pequeno que precisava de marcos e de provas de superação. As marcas perceberam e estenderam a tendência. Estenderam até aos 17 quilómetros de um tabuleiro na Ponte para a maior das Feijoadas.

Depois, inaugurámos a dita Ponte, inaugurámos uma Expo maravilhosa, tivemos o Figo, o Euro 2004, o Ronaldo, o Ronaldo, o Euro 2016, o Ronaldo, o Ricardinho, o Ronaldo, o Madjer, o Centeno (que também é Ronaldo) e o Ronaldo.

Deixámos de precisar do Guinness. E somos campeões. Da Europa e os melhores do Mundo. Na maior parte das vezes, somos os maiores com um pontapé, mas somos.

Vendemos camisolas com as quinas em qualquer parte do mundo e qualquer miúdo do Planeta cresce a ver no Ronaldo um exemplo. E um óptimo exemplo de superação e determinação, já agora.

Corta para… em ideias, não somos assim. Não somos os melhores do mundo.

Escrevo sobre criatividade e ideias porque trabalho em ideias e com ideias. Trabalho em criatividade. Não resolvemos problemas ao chuto, resolvemos com a cabeça, mas não à cabeçada. E, aí, não temos Ronaldos, não temos Euros nem recordes, nem sequer organizamos torneios nem vencemos nada de relevante.

Temos o Hugo, o João, o Fred, a Bruna e outros tantos como pontas de lança emigrados. Emigrados e isolados. Faz lembrar o Portugal futebolístico dos anos 80 que, quando exportava o Futre, já era uma festa. Também temos outros nomes e bons valores, não emigrados. Mas ficam anónimos no campeonato além-fronteiras.

Se não me engano, o último Ouro em Cannes para uma agência portuguesa foi em 2016. Assim não fica fácil. Os prémios em si não devem ser um objectivo, mas são, sem dúvida, um sinónimo da vitalidade do mercado. Continuando a metáfora com o futebol: não fica fácil se não temos reconhecimento internacional, se não jogamos mais vezes contra os melhores. E fica muito mais difícil recrutar. Se não há role models, como podemos apelar e com o que podemos apelar? Fica mais fraco, não é?

Mas, em Novembro, para imensa satisfação da equipa Worten, ganhámos o Ouro no Best Events Awards em conjunto com a Big Fish, a nossa agência de activações, com a melhor activação de marca num evento de gaming. Fomos considerados os melhores do Mundo na categoria Activações de Marca! Um prémio que distingue quem pensou muito bem um projecto e o executou. Abrimos garrafas de champanhe. Festejámos, mas poucos falaram no assunto.

A indústria não está a criar heróis. E precisa de o fazer. Não precisamos de os falsear. Mas precisamos de os dar a conhecer. Uma marca que aposta numa activação toda em cartão e que, com isso e com a sua agência, ganha um prémio de melhor do Mundo, é uma marca e uma equipa de heróis. Assim vale a pena. E assim não vale a pena os marketeers ou criativos emigrarem para Londres ou Madrid ou Paris, à procura de desafios em melhores campeonatos.

Os desafios estão aqui. Os louros também podem estar aqui. Mas temos que fazer por isso. Temos que sempre investir em criatividade, não fazer mais do mesmo. E temos que replicar e dar a conhecer isso. E arriscar, falhar, voltar a arriscar e conseguir.

Em Milão, ganhámos e fomos o Ronaldo da criatividade. Por uma vez. Temos que repetir e divulgar por todos. A bem da indústria das ideias, da sua renovação e da sua continuidade.

Treinemos mais forte, apontemos mais alto, porque ser “melhor do Mundo” deve viciar-nos. A todos.

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