Reutilização é a palavra de ordem

A Águas do Tejo Atlântico é responsável pela gestão e exploração do sistema multimunicipal de saneamento de águas residuais da Grande Lisboa e Oeste. A reutilização é estratégia fundamental para o futuro e os conceitos de fábrica de água e “água+” estão na ordem do dia. Jorge Gomes e Marcos Batista, da Direcção de Desenvolvimento e Comunicação das Águas do Tejo Atlântico, clarificam estes e outros conceitos, destacando a importância da inovação e da digitalização da água.

O que é uma fábrica de água?

Jorge Gomes: As Fábricas de Água são um novo conceito para as Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), instalação onde o efluente tratado gera produtos como a água reciclada, ou as lamas que vão para a agricultura. Para valorizar a água reciclada com controlo de qualidade, a Águas do Tejo Atlântico desenvolveu a marca “água+”, tendo em vista a identificação da água reciclada produzida, com qualidade adequada a cada tipo de utilização não potável.

Estes conceitos enquadram-se na filosofia da economia circular, onde todos os players do sector da água serão parte activa, tendo em conta que, nesta actividade, a reutilização e a reintrodução dos “produtos” reciclados nos novos processos produtivos serão sempre um caminho com vantagens para a sociedade.

A inovação e optimização da utilização dos recursos e o desenvolvimento de produtos e serviços, a partir da matéria-prima existente e dos produtos até agora considerados finais, permitirão dar nova vida à “água usada” através da reciclagem, valorização, reutilização e integração, num novo paradigma de valorização de recursos. Mas da actividade das Fábricas de Água poderão também resultar outros produtos, como bioplásticos, água e biocombustíveis, e recuperação de vários nutrientes, como o fósforo, para serem incorporados em novos processos produtivos.

A digitalização da água é importante para a inovação?

JG: Para suportar a inovação e a eficiência, a digitalização do sector é um processo fundamental. Por isso se considera esta a área base para a Indústria 4.0. Aperfeiçoar processos e procedimentos, suportados por uma informação fidedigna e objectiva, é o garante do sucesso da estratégia definida. Falar do Saneamento 4.0 é falar de eficiência e eficácia do processo de tratamento de águas residuais e da valorização dos subprodutos gerados nas Fábricas de Água. Para isso é necessário abrir o sector ao exterior, algo que a Tejo Atlântico tem feito, e fomentar o empreendedorismo científico e empresarial. A digitalização das empresas do sector da água irá abrir novas dimensões a todos os níveis, nomeadamente, a viabilização de novos modelos de gestão ambiental, com actividade operacional sustentável e economicamente viável, através de processo de automatização e robotização de várias tarefas do sector.

De que forma é que têm vindo a comunicar as Águas do Tejo Atlântico este ano?

Marcos Batista: Há uma aposta grande na educação ambiental, temos muitas visitas, estamos ligados à Ciência Viva e, em breve, vamos ter um centro de educação ambiental em Beirolas. Também vamos a muitas escolas, e temos acções nas praias. Há também uma aposta nas redes sociais.

Parte da comunicação é feita com os municípios, clientes das Águas do Tejo Atlântico, porque sem eles não é possível pôr a estratégia em prática. Tentamos ser disruptivos e usar muitas palavras que não podiam ser usadas há 10 anos, como a campanha com a Rádio Comercial “Save water, take a shower with a friend”. Houve uma mudança na comunicação tradicional, porque sabemos que a comunicação é diferente hoje em dia.

JG: Outra coisa importante são os parceiros mais institucionais. Nos fóruns temáticos, a opinião da Águas do Tejo Atlântico é seguida com alguma atenção, o que nos tem levado a trabalhar a vários níveis, seja na educação ambiental, junto dos parceiros e também com estes stakeholders, que, no fundo, são decisores.

E no âmbito do programa de educação ambiental, quais é que são as principais acções que têm sido postas em prática?

MB: Essencialmante, a apresentação da actividade e o seu contributo para a qualidade ambiental e de vida das pessoas. Houve uma altura, há uns anos, que queríamos mostrar o investimento, as infra-estuturas, actualmente focamos a nossa comunicação nos resultados. Ou seja há golfinhos no Tejo, podemos tomar banho na linha de Cascais, porque nós tratamos a água. Portugal tem uma reserva mundial de surf na Ericeira, que só é possível porque tem um tratamento terciário de uma fábrica de água. São também desenvolvidas acções nas praias, já que temos uma parceria com a bandeira azul.

Quem são os principais visitantes da fábrica de água?

MB: Temos dois tipos de visitantes, as escolas e universidades e as visitas institucionais. Por exemplo, esta ETAR/fábrica só recebe visitas do ensino superior e institucionais, porque é uma ETAR muito tecnológica. Temos também um projecto com as universidades, onde temos monitores, que são estudan tes de Engenharia do Ambiente e, quando há visitas de ciclo ou de secundário, solicitamos esses monitores para acompanhar essa visita. O sector é fechado, pelo que esta parceria é importante para abrir portas ao exterior, nomeadamente a Academia.

Em relação às visitas institucionais, todas as semanas temos pelo menos duas. Temos muitas visitas de vários países, como o Japão, a China ou os Estados Unidos. A recuperação da Costa do Estoril é um case study, portanto os outros países sabem e querem visitar.

Estão abrangidos conselhos tão diferentes nas Águas do Tejo Atlântico como Lisboa, Nazaré, como é que conseguem fazer a gestão dessas diferenças, sem desvirtuar as mensagens que querem passar?

MB: As eficiências têm de ser geridas pelas necessidades ou pelas capacidades territoriais, ou seja, a eficiência hidrológica está relacionada com as escorrências das águas. Numa cidade como Lisboa há três fábricas de água, para onde escorrem todas as águas residuais graviticamente e chegam ao rio Tejo, o que permite captar toda a água antes de tocar no rio ou no mar e levá-la para a fábrica de água e tratá-la. Consegue-se ter uma eficiência muito boa.

Há outras situações em Portugal que não são assim, mas têm que ser servidas na mesma. É preciso adequar a tecnologia existente à fábrica de água e ao tipo de caudal que nos vai chegar. Temos 103 fábricas de água, cerca de 20 de grande dimensão e outras 20 de pequena dimensão. As restantes são intermédias.

A mudança é constante e é preciso adaptar as ETAR a novas realidades. Daí a informação da gestão das ETAR ser tão importante e esta Indústria 4.0 ser relevante. Por exemplo, sabemos quando pôr a água num determinado estuário, de forma a que essa mesma água vá, porque gerimos as marés com a nossa capacidade de acumulação de água. Pode-se prever quando vai chover, de acordo com a informação meteorológica. Todos estes dados de gestão da água são fundamentais numa cidade verde, para evitar as cheias, as secas prolongadas e, portanto, isso também é o que se trabalha muito na inovação, ou seja, a digitalização da água. Hoje regista-se 1,5% de água reutilizada, mas é necessário atingir 10%, que é o objectivo actual.

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