Para que serve um escritório?

Não sei se vos acontece, mas cá em casa as notificações tocam em estéreo. É difícil gerir a sinfonia dos grupos de WhatsApp, Skype, correntes de email, grupos de Instagram e chats de Facebook, enquanto procuro o link do próximo Zoom. A pandemia fez dos portugueses máquinas produtivas pontuais, disso não há dúvida. Neste momento, 5 minutos de atraso no Teams são um abuso.

A verdade é que conseguimos produzir à distância, provavelmente até mais do que quando convivíamos no escritório. Falo por mim. Sou tão produtiva em casa, que me esqueço de acabar o dia. Não há uma porta para fechar, ninguém grita “até amanhã” para lembrar que já são horas, não se fecham as janelas, por isso vou ficando.

Um dos meus grupos de WhatsApp mais recente chama-se “bar de praia”. Mérito total para a dupla que o criou. É um grupo onde falamos dos projectos em curso. Resolve-se ali muita coisa, mas falta a cerveja gelada. Sou uma máquina a produzir em casa, por isso tenho saudades de tudo o que não é produzir: do bar de praia e da esplanada do café, de caminhar pelo jardim, de entrar numa livraria à hora de almoço, ou de ter efectivamente uma hora de almoço.

Sabendo isto tudo, para que serve um escritório agora? Porquê voltar, quando é possível produzir em casa, e bem?

A minha agência mudou de instalações nestes dias. Aproveitámos para repensar o espaço e o papel que ele terá no trabalho. Por coincidência, cruzei-me com o estúdio de um arquitecto americano, o Clive Wilkinson. Ele tem uma visão interessante do que pode ser o escritório pós-pandemia. Inspirados nele, estamos a desenhar a nova Uzina.

Trabalharemos em modo híbrido, isso já é certo. O plano é ter um par de dias para nos encontrarmos todos fisicamente, e no resto da semana teremos liberdade para trabalhar onde quisermos, incluindo no escritório.

No novo espaço, tentaremos oferecer às pessoas o que elas não têm em casa: um lugar onde se podem encontrar e aprender umas com as outras. Em vez de criarmos departamentos separados e postos de trabalho fixos, circularemos numa espécie de casa, onde podemos escolher em que divisão nos queremos sentar cada dia, em função do trabalho que temos para fazer.

Teremos duas salas Biblioteca, grandes, silenciosas, destinadas ao trabalho individual, seja qual for o nosso departamento: escrever um guião, desenvolver um layout, escrever código, um orçamento ou um briefing. Esse trabalho individual pode ser feito em casa, é verdade, mas tentaremos que estas salas também tenham boas condições para ele acontecer.

Todas as outras divisões serão pensadas para as pessoas se encontrarem e trabalharem juntas. Teremos um Salão de Estar, com diferentes espaços para se sentarem pequenos grupos, seja para discutir um briefing ou pensar um projecto a dois ou a três.

Teremos duas Salas Cofre, em homenagem à antiga Uzina onde existia um grande cofre de verdade. Serão usadas para projectos de equipas maiores, para juntarmos seis ou sete pessoas, o que costumamos fazer quando temos projectos grandes.

Teremos uma cozinha tech free, para que as pessoas se possam encontrar fora do Zoom, conversar e tomar um café ou preparar o almoço juntas.

Teremos uma sala para desligar, receber uma massagem ou simplesmente esticarmo-nos alguns minutos.

Teremos a sala dos sócios, os únicos lugares fixos na agência além da arte-final, e a sala de reuniões, onde faremos as apresentações aos clientes. Espero que consigamos encaixar um barbecue no mini-quintal, para desenjoar de vez em quando da cozinha libanesa, que é nossa vizinha. E, com jeito, talvez ali caiba o nosso bar de praia fora do WhatsApp, com imperial gelada e conversa boa. Preciso urgentemente de me lembrar que não sou apenas uma máquina de produzir.

 

Susana Albuquerque
Directora criativa da Uzina
Susana.albuquerque@uzina.com

Artigo publicado na edição n.º 298 de Maio de 2021

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