Organização Nariz Vermelho: «O nosso sonho é estar em todas as pediatrias do País»

O Dia da Criança aproxima-se a passos largos e, este ano, a Operação Nariz Vermelho (ONV) não poderá celebrar a data junto dos mais novos. Devido à pandemia de COVID-19, esta organização viu-se obrigada a ajustar a sua comunicação, num processo que teve início logo em Abril com o lançamento de um canal no YouTube.

Agora, este mesmo canal, apelidado de TV ONV, vai ser a casa de uma emissão especial com a participação de convidados como a cozinheira Filipa Gomes, o jornalista João Moleira ou a fadista Cuca Roseta. Pelo meio, haverá ainda um vox pop sobre a infância de algumas figuras públicas e uma rubrica especial sob o mote “Deixa-me rir”: humoristas como Nilton, Eduardo Madeira e Ana Garcia Martins (“A Pipoca Mais Doce”) aceitaram o desafio de fazer rir as crianças.

Esta emissão especial está marcada para o próximo domingo, dia 31, tanto no canal de YouTube da Operação Nariz Vermelho como na IGTV (Instagram). Carlota Mascarenhas, directora de Comunicação e Angariação de Fundos da Operação Nariz Vermelho, conta à Marketeer como está a ser adaptar a actuação da organização em virtude do novo coronavírus e como nasceu esta espécie de festival digital para crianças. Tudo isto às portas da celebração do 18.º aniversário da Operação Nariz Vermelho, data que se assinala já no dia 2 de Junho.

Mesmo sem poder visitar os hospitais, a Operação Nariz Vermelho não parou. De que forma tiveram de adaptar a actividade?

Era essencial continuarmos a chegar às crianças que nesta altura precisam tanto ou mais de apoio e de quem lhes leve alegria e sorrisos. Por isso, e uma vez que, por enquanto, não podemos estar cara a cara com elas, criámos a TV ONV, canal onde todos os dias há dois novos vídeos dos nossos Doutores Palhaços, que podem ser vistos no YouTube e no IGTV oficiais da Operação Nariz Vermelho. A melhor parte é que, através desta plataforma, chegamos não só às crianças que já acompanhávamos nos 18 hospitais públicos que visitamos, como também a todas as que, através da Internet, nos vêem a partir de casa.

Qual o feedback recebido relativamente ao canal no YouTube?

O feedback tem sido muito positivo, tanto da parte de particulares que nos contactam directamente como de escolas, equipas hospitalares e outras instituições que têm mostrado os nossos conteúdos às crianças com que trabalham e que têm recebido delas muito entusiasmo. Este feedback mostra que esta abordagem foi uma aposta certa neste momento atípico porque nos permite chegar a um público mais vasto e partilhar assim o nosso trabalho.

Porque escolheram este canal para continuar a comunicar?

Depois de termos parado as visitas a todos os hospitais, já com a nossa equipa em teletrabalho, quisemos criar em tempo recorde um formato que nos permitisse chegar facilmente às crianças hospitalizadas.

Estando a trabalhar apenas com recursos “caseiros”, apurámos a capacidade de “produção” da equipa e decidimos que este era um formato que conseguiríamos concretizar de forma diária, mantendo a ligação às crianças. Sabendo que as redes sociais estão hoje acessíveis, literalmente, a partir da palma da nossa mão, optámos pelo YouTube e pelo Instagram por serem canais de fácil acesso a partir do telefone ou de um tablet (recursos que vemos muitas vezes serem utilizados para entreter e distrair as crianças que estão internadas).

Esta é, sem dúvida, a forma mais abrangente e democrática de chegar a um público muito vasto e as duas plataformas, sendo gratuitas e completamente abertas, não colocam entraves a quem queira aceder aos conteúdos e partilhá-los.

Quantos conteúdos criaram durante a quarentena?

Até ao momento já estão disponíveis 83 vídeos no canal, que arrancou oficialmente no dia 30 de Março. No entanto, nos bastidores, o nosso director artístico recebeu mais de 300 vídeos gravados pela nossa equipa e que são depois analisados e editados consoante os objectivos temáticos e a linguagem pretendida. Há muito trabalho “invisível” por detrás dos dois episódios diários que publicamos.

Este será um projecto para continuar mesmo no pós-pandemia?

O nosso maior desejo é poder voltar a trabalhar como sempre e retomar as nossas visitas diárias aos hospitais. Este projecto digital nasceu da impossibilidade temporária de o poder fazer. Aliás, neste momento, este projecto só é possível nestes moldes porque temos toda a equipa artística alocada às ideias para os conteúdos, gravações, edição e montagem. Mas quem sabe? É um cenário que ainda está em avaliação, mas talvez possamos vir a criar uma equipa técnica e criativa que possa dar-lhe continuidade. É cedo para dizer. Para já, o que podemos garantir é que vai continuar enquanto não podermos voltar a estar no hospital.

Estão a preparar uma emissão especial para o Dia da Criança. Qual é a ideia?

A nossa ideia foi criar um grande momento de celebração das crianças, nesta data tão especial que nem mesmo a pandemia da Covid-19 tem direito a “cancelar”. Quisemos celebrar com elas e com as suas famílias e, para tal, convidámos uma série de amigos e também caras muito conhecidas do público, dos miúdos aos graúdos, para celebrarem connosco. Durante o dia 31 de Maio (domingo, véspera do Dia da Criança, uma escolha que reflecte a nossa ideia de que a família se possa reunir para assistir aos conteúdos), a TV ONV vai ter uma programação especial. Momentos de humor, de ginástica, de música, de culinária, uma hora do conto, dois episódios ainda mais especiais com os nossos Doutores Palhaços e até uma ida ao telejornal.

Tudo isto só foi possível graças à ajuda preciosa dos amigos e parceiros que meteram o nariz por esta causa e nos deram um bocadinho do seu tempo e da sua imaginação. E a quem deixamos um enorme obrigado.

A Operação Nariz Vermelho assinala no dia 2 de Junho 18 anos de história. De que forma tem evoluído a associação deste então?

A Operação Nariz Vermelho nasceu do sonho de Beatriz Quintella, a nossa fundadora, de levar sorrisos e alegria a quem mais precisa deles – as crianças que se encontram hospitalizadas, longe das suas casas, das suas famílias, daquilo que consideram o seu espaço natural, num ambiente muitas vezes assustador como é um hospital. A inspiração da Beatriz surgiu após ler um artigo sobre o trabalho dos Doutores Palhaços que visitavam crianças hospitalizadas nos Estados Unidos da América.

Na altura, ainda não havia nada de semelhante em Portugal e a Beatriz dirigiu-se ao Hospital D. Estefânia e propôs implementar lá o mesmo registo: levar a sua personagem, uma Doutora Palhaça (a Doutora da Graça), até junto das crianças, para as ajudar a perder o medo e ansiedade que tantas vezes as “batas brancas” destes profissionais inspiram nela. Durante os primeiros oito anos, a Beatriz trabalhou sozinha e como voluntária, mas, à medida que o projecto se foi expandindo a outras pediatrias, tornou-se necessário aumentar a equipa.

Em Setembro de 2001, convidou dois amigos, a Bárbara e o Mark, para se juntarem a ela, e graças a uma contribuição generosa da Glaxo SmithKline, o projecto assumiu um carácter profissional, estabelecendo-se nos hospitais de Santa Maria, D. Estefânia e Instituto Português de Oncologia, em Lisboa.

Hoje, 18 anos depois, a Operação Nariz Vermelho conta com 32 Doutores Palhaços a trabalhar semanalmente em 18 hospitais de todo o País. Além disso, a equipa estendeu-se para lá dos Doutores Palhaços e conta com 16 colaboradores nos bastidores que trabalham ininterruptamente para assegurar que se conseguem, ano após ano, angariar os fundos necessários para poder oferecer este trabalho aos hospitais que a ONV visita regularmente.

A ONV não tem apoios do Estado, vive de donativos, pelo que é vital ter uma equipa que trabalha as áreas da Comunicação, dos Eventos, das Redes Sociais, da Angariação de Fundos junto de particulares e de empresas, da nossa loja online e que sensibiliza a sociedade civil para inúmeras formas de apoio possíveis, como por exemplo, a Consignação do IRS (uma das principais fontes de angariação de fundos da associação e que não custa nada, literalmente, ao contribuinte). Todos os anos se começa a construir o orçamento do zero, já que não há apoios garantidos de um ano para o outro.

Tem sido com o empenho e dedicação da equipa artística e da equipa de backoffice que a ONV tem chegado a mais hospitais e conseguiu, nestes 18 anos, nunca sair de nenhum hospital onde entrou.

Que outras mudanças se perspectivam?

O nosso sonho é poder, um dia, estar em todas as pediatrias dos hospitais públicos do País. E havemos de conseguir, com perseverança e muito profissionalismo, chegar aos hospitais onde haja crianças que precisem de nós. Não estamos ainda no Alentejo, nem no Algarve, nem nas ilhas, por exemplo.

Para que tal seja possível, temos de criar outros núcleos e aumentar a equipa e isto só é possível angariando mais fundos. É por esta razão que temos crescido de forma prudente e sustentada. Temos vários hospitais no que chamamos “lista de espera”, com pedidos reiterados para passarmos a visitar regularmente os seus serviços de pediatria. A escolha é feita tendo em conta alguns critérios, como seja o número de leitos e a localização. Mas sentimos que há um reconhecimento e confiança face ao nosso trabalho que poderá permitir-nos tornar este sonho uma realidade. Não será amanhã, mas caminhamos para lá chegar.

Depois, há outras ideias e sonhos que podem vir a acontecer no curto prazo (quem sabe se no 20.º aniversário não temos uma surpresa!) e ainda projectos mais a médio-longo prazo, mas que só fazem sentido uma vez cumprido o objectivo de estar em todas as pediatrias do País.

Se os portugueses continuarem a apoiar-nos, trabalho não nos faltará por mais 18 anos! Temos muitas crianças para fazer sorrir!

Texto de Filipa Almeida

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