Optimistas do fazer

Num destes dias, perguntaram-me como é que eu fazia para me manter criativa durante a pandemia. Demorei algum tempo para encontrar a resposta. A pandemia não tinha sido muito criativa para mim, pelo menos no início. A meados de Março, o meu cérebro recusava-se a fazer outra coisa além de ler notícias e ter medo. Só ultrapassei o bloqueio quando recuperei algum optimismo, e só aí voltou a capacidade de fazer. Então cheguei a uma possível resposta.

Sem optimismo não há ideias.

Quando começo um projecto, tenho que acreditar que vou fazer bem, mesmo que no fim o resultado não seja tão bom. O que acontece algumas vezes, claro. Mas começo sempre por imaginar que, no mínimo, vamos fazer algo incrível. Para mim, o processo criativo começa no optimismo.

Este optimismo criativo é muito diferente do optimismo de Pangloss, que, depois de passar por guerras, doenças, terramotos, tsunamis e os piores desamores, acreditava que vivíamos no melhor dos mundos possíveis. Voltaire usou a ironia para escrever “Cândido”, no séc XVIII, e criticar a filosofia cor-de-rosa de Leibniz. Mas deixou um conselho digno de um criativo optimista nas últimas linhas, quando disse que é preciso cuidar do seu jardim. Voltaire pode não estar de acordo, mas esta é uma boa definição do optimismo que interessa. Quando arrancas as ervas daninhas, quando plantas um canteiro, quando regas, podas e limpas as folhas velhas, sabes que tens de o fazer para que o jardim cresça, mesmo que depois venha uma chuvada e destrua tudo.

Para quem trabalha em criatividade todos os dias, ser um optimista é acreditar que o que fazemos, cada um, faz diferença no resultado, apesar das inevitáveis tempestades. Ser criativo é o contrário de ficar à espera que as soluções nos caiam em cima do canteiro.

Quando pensei nesta definição do criativo como um optimista do fazer, lembrei-me de um blog antigo da Wieden+Kennedy, “Welcome to optimism”. Num dos primeiros posts, eles explicam que o nome do blog tinha sido apresentado como conceito num pitch que a agência tinha feito para a Honda, no tempo do “the power of dreams”. O cliente não comprou o conceito, mas a agência aproveitou-o. Nessa mesma apresentação da Honda, eles definiam o optimismo e o poder dos sonhos por oposição ao seu pior inimigo, a complacência. Essa atitude tão antiga de encolher os ombros e dizer “é assim, que remédio, enfim…”.

Ser optimista, e criativo, também é o contrário da complacência. O optimista criativo questiona o fado e vai contra ele. Mesmo sabendo que não controla nada, ele está disposto a dar o seu melhor para aquele 1% que depende dele.

Este optimismo criativo inclui uma certa dose de pessimismo, claro. Todos sabemos que as coisas mais cedo ou mais tarde correm mal, nem que seja porque no fim morremos todos. Mas entretanto, enquanto isso não acontece, é melhor pôr o motor do optimismo a trabalhar e fazermos o que pudermos, cada um, para evitar o pior rumo das coisas. Algo me diz que vamos precisar de muito optimismo criativo nos próximos tempos.

Susana Albuquerque
Directora criativa da Uzina
Susana.albuquerque@uzina.com

Artigo publicado na edição n.º 288 de Julho de 2020

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