O e-commerce já é tema junto das farmacêuticas

Apesar de ainda não ser uma realidade no sector farmacêutico, o e-commerce é já um tema em discussão, que  representa um conjunto de oportunidades e desafios. Vivendo-se uma fase de incerteza, a chegada de um player como a Amazon poderá ditar a implementação deste novo canal de vendas.

Texto de Rafael Paiva Reis

Fotos de Paulo Alexandrino

O e-commerce já começa a ser visível em várias áreas em Portugal, representando oportunidades, mas também ameaças. No caso do sector farmacêutico, apesar de já se verificarem alguns desenvolvimentos, é uma realidade com pouca expressão.

Este foi um dos temas em destaque no pequeno-almoço de debate do sector farmacêutico. À conversa, no Vila Galé Ópera, estiveram Mariana Caraça (Pierre Fabre), Patrícia Gouveia (Janssen-Cilag), Rui Rijo Ferreira (Jaba Recordati) e Sofia Freire (Angelini). Os responsáveis referem que o e-commerce no sector ainda está numa fase pouco desenvolvida, devido ao facto de não haver um operador de grandes dimensões a actuar nesta área em Portugal, à semelhança da Amazon, por exemplo.

Actualmente, já se prevê a chegada da gigante norte-americana ao País, que já está em conversações com algumas farmácias. Se compararmos com o que aconteceu nos Estados Unidos da América, vários players criaram sites de e-commerce para venderem directamente aos clientes mas, com a chegada da Amazon, não tiveram capacidade de concorrência. «Mais vale aguardar a sua chegada e, depois, traçar a melhor estratégia. À semelhança do que fazemos com as parafarmácias da grande distribuição, também teremos de negociar com um player desses», explicam os profissionais.

Existem já categorias onde o e-commerce tem algum peso, como a dermocosmética ou suplementos, apesar de não serem propriamente produtos da indústria farmacêutica. Mas já existem alguns grupos de farmácias que têm o seu e-commerce, através de entregas nas zonas das suas farmácias. No entanto, nem todos os operadores têm a capacidade para poder entregar medicamentos em casa dos consumidores.

Apesar de não se tratar de um mercado, não deixa de ser um tema relevante. E, nalguns casos, pode ser visto como uma ameaça, nomeadamente nos medicamentos sujeitos a receita médica para algumas áreas específicas, como aqueles para a disfunção eréctil. «Nestas categorias já existe e-commerce, não por parte das empresas, mas sim de distribuidores, principalmente internacionais. No entanto, trata-se de uma ameaça, pois são produtos que chegam a Portugal por via ilegal, não havendo controlo de qualidade do produto. E, em alguns casos, os produtos são contrafeitos», salientam os presentes.

No lado das oportunidades, o e-commerce permitirá às farmacêuticas ter todo o ciclo de compra e venda do produto. «No que respeita ao Marketing digital, procuramos contactar directamente o consumidor. Mas, uma vez que não temos a componente de e-commerce, não conseguimos vender-lhe o produto de forma directa», explicam. A alternativa pode passar por fazer parcerias com farmácias que já fazem algum e-commerce. Mas ainda não é uma realidade e não é fácil delinear uma estratégia neste âmbito.

Para os medicamentos de prescrição, o cenário não é tão simples, pois há mais nuances. «É complicado, em termos de logística, no que respeita às receitas, credenciação e o tempo profissional de saúde exigido para efectuar este processo», vincam.

Em países como Inglaterra, que têm outra legislação, o e-commerce é já uma realidade, sendo possível comprar produtos online com recurso a uma receita médica electrónica.

No entanto, será possível evoluir num curto espaço de tempo, nomeadamente no que respeita aos OTC. Os grupos estão a organizar- se para terem os seus próprios sites, mas há limitações em termos de recursos. «Exige muita manutenção, fiscalização e é necessário realizar uma série de investimentos necessários, principalmente na entrega ao domicílio», referem os participantes.

As bases já estão criadas, com a Associação Nacional de Farmácias a já disponibilizar uma aplicação que permite fazer vendas de medicamentos através de prescrição. Mas os participantes referem que Portugal já está a perder uma grande oportunidade, principalmente na área da cosmética.

Um leque de oportunidades

Apesar de ainda se discutir as bases necessárias para a proliferação do e-commerce no sector, há também que ter em conta a perspectiva do consumidor, percebendo se já está preparado ou interessado em efectuar a compra de medicamentos por via digital. «Depende das categorias de produto e dos consumidores. Hoje compramos cada vez mais produtos pela internet, com menos receios. O e-commerce será um veículo complementar, que aumenta o cabaz de compras e facilita a vida do consumidor. O consumidor quer segurança e garantia, mas acredito que esteja predisposto para a compra online. Cabe aos fabricantes e distribuidores assegurarem esse nível de confiança», explicam.

No futuro, as pessoas deverão utilizar o e-commerce à semelhança do que fazem noutras áreas: procuram informação online, mas utilizarão os pontos de venda físicos para finalizarem a compra. Ou, em oposição, algumas pessoas preferirão obter essa informação nas farmácias e depois preferem efectuar a compra online.

O e-commerce é, também, mais propício para a compra de produtos de áreas mais sensíveis, como a disfunção eréctil, pois o paciente não precisa de expor o seu problema numa farmácia.

Os responsáveis afirmam que há ainda um longo trabalho a fazer no e-retail, a fim de assegurar que as farmácias e os parceiros tenham um bom canal online. «Isto acontece porque o e-commerce implica ter um backoffice enorme, de forma a poder assegurar o correcto funcionamento do comércio electrónico », explicam.

Os desafios dos genéricos

A quota média de venda de medicamentos genéricos caiu de 48,5%, em Dezembro de 2018, para 48,2%, em Janeiro de 2019. Foi a primeira quebra dos genéricos no espaço de dois anos, segundo dados do Centro de Estudos e Avaliação em Saúde (CEFAR).

Este decréscimo, em valor, acaba por ser normal, devido à redução do preço médio dos genéricos. «É um ciclo. Este ano o preço voltará a subir, visto que vários medicamentos com um custo elevado passaram para genéricos e o preço destes fará aumentar o preço médio dos genéricos», explicam.

A tendência, no genérico, é atingir o seu pico e, depois, perder a sua quota de mercado, em valor. Os presentes no pequeno-almoço estão convictos de que estabilizará, caso contrário, não haverá rentabilidade possível nesta área. «O genérico tem a sua importância e o seu espaço, mas não conseguirá resolver os problemas do Sistema Nacional de Saúde. Convém não esquecer que os genéricos são o resultado da inovação de há 10 anos. Tem de haver um equilíbrio, não podemos viver apenas de genéricos», defendem.

Assiste-se ainda a uma maior competitividade de preços de medicamentos de marca, o que leva a uma desvalorização dos genéricos. E, atingido um determinado patamar, não será possível baixar mais o preço. «Quando um determinado medicamento passa a genérico, a marca decide baixar o preço de forma a equipará-lo ao genérico. No entanto, a nível de comparticipação, há uma discriminação: se for genérico, o paciente não terá de pagar, mas se for de marca, terá de o fazer», referem.

Em ano de eleições…

O ano de 2019 é sinónimo de eleições, que traz incertezas e gera dificuldades nas abordagens das empresas, a médio prazo.

No início do ano, todas as administrações dos grandes hospitais foram renovadas, o que tem um grande impacto no negócio, pois as nomeações começaram a surgir apenas agora, o que é um mau prenúncio. Nestas primeiras nomeações, a indicações são de corte, o que antevê restrições orçamentais, principalmente nas despesas de medicamento, gerando alguma incerteza no sector.

«Vamos ver se assistiremos a uma descida administrativa de preços de medicamentos, algo já anunciado pelo secretário de Estado. Esperemos que não, pois isso iria afectar todo o circuito do negócio, não só as empresas, como distribuidores e farmácias», alertam os presentes no pequeno-almoço.

Referem também que o preço médio em Portugal é de tal forma baixo, que a principal consequência é a exportação paralela. «Julgo que não haverá nova redução administrativa de preços, existe, sim, uma pressão para aumentar o preço de alguns produtos», explicam, referindo que essa seria uma medida que poderia ameaçar a indústria em Portugal.

Quanto a perspectivas para este ano, a volatilidade do mercado torna difícil fazer previsões, mas os responsáveis partilharam algum optimismo em torno de um ano de 2019 positivo, com crescimento.

Foi ainda mencionado que, antigamente, o marketing era totalmente veiculado, o que permitia saber, quase a 100%, o que se iria vender, pela forma como se comunicava e se colocava em prática as estratégias. «Há 10 anos era possível fazer planos a 10 anos. Hoje, fazê-lo a dois anos é relativamente incerto. Hoje, há um fenómeno de informação global e digital que faz com que um produto lançado para colmatar uma necessidade e com boas perspectivas de vendas, caso não tenha a visibilidade prevista, gera uma maior insegurança», vincam os responsáveis.

Artigo publicado na edição n.º 274 de Maio de 2019.

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