Novos anos 20: o perigo da Amazon, a ascensão da IA e o voz first

São oito as tendências identificadas pela Elife para a década que agora se inicia. Jairson Vitorino, co-fundador e CTO do Grupo Elife, explica à Marketeer que casas inteligentes, automação e entretenimento 100% digital estão entre os temas a ter em atenção ao longo dos próximos anos.

A inteligência artificial (IA) e a automação são transversais à generalidade das tendências, mas de acordo com o responsável, ainda há muito caminho para percorrer: «O que nós conseguimos até agora foi tratar das funções básicas do cérebro humano, como reproduzir parte do reconhecimento de voz e de imagem.» Falta conquistar áreas como a linguagem, movimento ou visão.

Jairson Vitorino sublinha ainda que o maior desafio para as marcas é trabalhar a inovação dentro das próprias organizações e que, por outro lado, aprender a sobreviver será a grande mais-valia. Será importante, por exemplo, que se saibam adaptar à aproximação da Amazon a Portugal e que consigam navegar num mundo que muda progressivamente de “mobile first” para “voz first”.

1 – Quais são as oito tendências que a Elife traçou para a década de 2020?

Primeiro, podemos falar de uma das tendências que se vai desenvolver só no final da década, como os chips entre computadores e cérebro que vão possibilitar interfaces mais orgânicas entre pessoas e máquinas, assim como o tratamento e, eventualmente, a cura de doenças. Temos como exemplos o tratamento da falta de locomoção e expressão facial, causados por acidentes vasculares cerebrais, ou a depressão, entre outros.

Depois, podemos falar do Espaço. Empresas como a SpaceX, de Elon Musk, ou a Blue Origin, da Amazon, estão a lançar satélites de baixo custo para gerar internet de banda larga a nível global.

A comercialização de materiais raros é também uma das tendências para o final da década, uma vez que podem criar alternativas para o fornecimento de energia, como é o caso do Hélio 3, o isótopo do hélio.

Em quarto lugar, falamos da automação e da robótica, como são exemplos os carros autónomos – que vão ter um impacto muito grande ao nível do trânsito e da pegada ecológica –, a criação de casas a partir de braços robóticos e os mecanismos de impressoras 3D, sendo que até a agricultura vertical (que será umas grandes apostas nas grandes cidades) será completamente automatizada.

Em seguida, discutimos a realidade virtual, cuja grande aplicação vai ser na educação, através da criação de salas de aula verdadeiramente imersivas e experiências tão completas e ricas quanto a sala de aula tradicional.

Seguidamente, temos o caso do smartliving (com a IKEA na liderança com quase mil milhões de clientes) em que toda a casa está conectada internamente e externamente a serviços como a Uber, supermercados, teatros, concertos, entretenimento, ginásios e em tudo que se baseia na voz.

Depois, ainda sobre a voz. O nosso mote este ano é: “Voz é a nova app”, no sentido em que queremos criar e implementar nos nossos clientes uma estratégia de “voz first” (primeiro a voz). Tal como há 15 anos se dizia mobile first, hoje levantamos a bandeira de “voz first”.

Por fim, a longevidade é a tendência que resume o facto da nossa existência se tornar cada vez mais longa, com a expectativa de que no final deste século XXI, o ser humano consiga atingir uma idade média entre os 100 e os 130 anos, de acordo com os cientistas mais optimistas.

 

2 – O digital e a automação/robótica são transversais à generalidade das tendências apontadas. Estamos, finalmente, como há muito vem sendo anunciado, perante a ascensão das máquinas?

Ainda não, ainda estamos na infância da inteligência artificial. O que nós conseguimos até agora foi tratar das funções básicas do cérebro humano, como reproduzir parte do reconhecimento de voz e de imagem. No entanto, elementos como a linguagem, os movimentos ou a visão, nunca vão responder exactamente à realidade.

Por exemplo, no caso da visão, esta não será tão boa quanto a visão humana no que diz respeito ao reconhecimento de objectos e pessoas, sendo que ainda vai demorar umas boas décadas para atingi-lo. As funções básicas já estão muito desenvolvidas e vão, de facto, trazer uma enorme produtividade para todos os segmentos da sociedade e da economia.

3 – Identificadas as oito tendências, quais são os maiores desafios para as marcas e negócios?

Acredito que o maior desafio é trabalhar a inovação dentro das empresas, uma vez que exige uma mudança na sua cultura organizacional. Efectivamente, a grande dificuldade que reconhecemos ao dialogar com as marcas é o desfasamento que existe entre as empresas – ou melhor, entre as pessoas que são os activos destas – e o digital.

Não por falta de exemplos, mas porque o dia-a-dia consome muito os profissionais, que acabam por se ver sem tempo para digerir as novidades. Assim, o que sugerimos sempre é incorporar profissionais que trabalhem somente com o digital e que fiquem responsáveis por contratar consultoras, como a Elife, para trabalhar na visão de futuro dessas empresas. Desta forma, é possível ter algo independente da rotina, do quotidiano das empresas, que garanta a adaptação dessas marcas ao futuro.

4 – E quais os principais benefícios?

O benefício de olhar para o futuro é o da sobrevivência. E nós temos inúmeros exemplos de empresas que ficaram para trás e que acabaram por fechar as portas. Actualmente, o exemplo mais clássico é o da Amazon. A empresa que surgiu em 1996 está a dominar o mercado norte-americano, sendo que já se fala do apocalipse do retalho.

Na verdade, mais de 40 grandes cadeias declararam falência dada a revolução no e-commerce da Amazon. Mas porque é que isto aconteceu? O problema foi que, no passado, estas empresas não perceberam que o digital ia tomar conta dos canais de comércio, especialmente nos Estados Unidos, mas agora a nível mundial.

No caso de Portugal, a Amazon aproxima-se perigosamente, já estando presente no mercado espanhol. Por isso mesmo, o retalho precisa de uma estratégia, de se adaptar a estas transformações. Este é apenas um exemplo. Qualquer tipo de inovação vai ter impacto nos negócios tradicionais e vai permitir o surgimento de novas empresas que vão ser mais ágeis e velozes e que vão sempre ameaçar as grandes marcas.

5 – De que forma poderão tirar o melhor partido possível?

Cada segmento vai ter uma determinada estratégia. Por exemplo, o segmento de atendimento ao consumidor pode ser melhorado através do reconhecimento de que o digital é o canal mais barato e mais produtivo para aperfeiçoar o relacionamento entre a marca e o consumidor. Assim, o consumidor vai poder aceder à internet ou os próprios assistentes da Apple, Google ou Amazon vão poder conversar com as marcas e automatizar esse diálogo.

Este vai ser um dos principais drivers de inovação. Outros segmentos podem usar a inteligência artificial, como por exemplo a saúde, para fazer diagnósticos de doenças como cancro, pneumonia ou outros problemas mais rapidamente.

Também a educação vai poder ser mais democratizada e “vendida” a preços menores. A título de exemplo, no caso dos professores portugueses, estes vão poder dar aulas a alunos em Angola através de ambientes de realidade aumentada. Desta forma, é possível perceber que cada segmento tem miríades de formas de beneficiar com as novas tecnologias que se aproximam.

6 – Destas tendências, quais deverão cumprir-se primeiro?

As plataformas de entendimento de linguagem e de voz já foram lançadas há dois anos nos Estados Unidos da América e começam agora a chegar a outros países, nomeadamente ao Brasil, à Alemanha e a Portugal (ainda com o português do Brasil, mas até ao final do ano, muito provavelmente, com o português luso).

Estas novas plataformas, na minha opinião, representam um momento parecido com aquele que tivemos com o lançamento do primeiro iPhone. Ou seja, a abertura de todo um outro mercado para novos empreendedores e para empresas já estabelecidas que vão poder criar aplicações baseadas em voz.

Texto de Filipa Almeida

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