O jornalismo entra em 2026 pressionado por duas forças convergentes: a consolidação da inteligência artificial generativa e o colapso progressivo do modelo de distribuição assente no tráfego proveniente de motores de busca e redes sociais. Esta é a principal conclusão do mais recente relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism, que recolheu as respostas de 280 líderes de meios de comunicação de 51 países.
Segundo o estudo, apenas um pouco mais de um terço (38%) da amostra de editores e CEO dizem estar confiantes quanto às perspectivas para o jornalismo no próximo ano, o que traduz uma queda de 22 pontos percentuais em comparação com 2022.
Os líderes de empresas do setor acreditam também que a chamada “era do tráfego” está a chegar ao fim, com ferramentas de pesquisa baseadas em IA, resumos automáticos e chatbots a reduzirem de forma drástica o número de cliques que encaminham os leitores para os sites de notícias. As previsões apontam para uma queda acumulada de cerca de 43% no tráfego proveniente de motores de busca nos próximos três anos, um cenário que ameaça a sustentabilidade económica de muitos órgãos de comunicação social.
O relatório identifica assim uma mudança estrutural na forma como o público acede à informação, sendo que, cada vez mais, as notícias chegam aos cidadãos através de sistemas de inteligência artificial, seja através de assistentes digitais, agregadores inteligentes ou respostas diretas em plataformas de pesquisa. Embora esta mediação possa aumentar a conveniência para o utilizador, levanta preocupações profundas sobre a visibilidade das marcas jornalísticas, transparência das fontes e controlo editorial.
Para muitos, o risco não é apenas a perda de tráfego, mas também a diluição da relação direta com as audiências, com o relatório a sublinhar que, em muitos casos, os sistemas de IA fornecem respostas baseadas em conteúdos jornalísticos sem gerar retorno financeiro ou reconhecimento para os produtores originais da informação.
Em resposta, os líderes de media afirmam que será importante focar em mais investigações originais e reportagens in loco (+91 pontos percentuais), análises e explicações contextuais (+82) e histórias humanas (+72). Por outro lado, planeiam reduzir o jornalismo de serviço (-42), o conteúdo perene (-32) e as notícias gerais (-38). Ao mesmo tempo, acreditam que será importante investir em mais vídeos (+79) e mais formatos de áudio (+71), como podcasts.
Mas, embora os media estejam ansiosos para demonstrar a sua vertente humana, estão também ao mesmo tempo a adotar a IA nas suas redações para aumentar a eficiência e melhorar a qualidade jornalística, naquele que é um “equilíbrio delicado”, principalmente tendo em conta que diversas organizações criticaram publicamente a precisão das notícias geradas por chatbots.
Apesar dessas reservas, o estudo da Reuters constata todos os anos que os líderes de empresas de comunicação social classificam a IA como “muito importantes” para os seus negócios. Tarefas de automação, como transcrição, assistência na revisão de textos e metadados automatizados, continuam a ser o caso de uso mais citado (64%), mas a importância para codificação e desenvolvimento de produtos (44%), fins comerciais (33%) e recolha de notícias (29%) também aumentou consideravelmente.
No panorama geral, porém, também é detectada uma certa desilusão com o progresso da IA nas redações. Quando questionados sobre quais adjetivos melhor descrevem o impacto das iniciativas atuais, apenas cerca de um em cada dez (13%) respondeu “transformador”. Pouco mais de quatro em cada dez (44%) disseram “promissor” e uma proporção semelhante (42%) disse “limitado”.
Já outra tendência destacada no relatório é a aproximação entre jornalismo e economia dos criadores, com muitos líderes de media a considerarem que os jornalistas terão, cada vez mais, de assumir um papel híbrido, combinando o seu papel tradicional com a presença ativa em plataformas como YouTube, TikTok ou newsletters personalizadas, com o objetivo de construir relações diretas com o público.
Em termos de plataformas as principais prioridades em 2026 para os líderes de media passam pelo YouTube (num aumento de 74 pontos percentuais), plataformas de IA (+61 pontos percentuais) e TikTok (+56 pontos).
Por outro lado, os media planeiam dedicar menos recursos ao X (-52 pontos percentuais), pesquisa tradicional através do Google (-25) e Facebook (-23). Já o Instagram (+41) e o LinkedIn (+40) contrariam a tendência, apresentando-se como importantes fonte de tráfego.














