Já foi traído? E gostou?

M.ª João Vieira Pinto
Directora de Redacção Marketeer

Por norma, feitio, educação ou cultura não gostamos de traições. Nos amigos, no trabalho, no amor, na família, na vida. Não gostamos da mentira, da história pela metade, da meia-verdade. De sermos enganados, trocados, de ficarmos para trás. Da desilusão que fica!

Claro que há traições e traições. Mágoas de vida e das que se perdoam. Intencionais e sem o ser. E é ténue a linha que por vezes separa a mentira do “não contar”, o respeito do desvio de valores. Quem nunca lá esteve que atire a primeira pedra.

Só que não, não gostamos. Somos de abraços, partilhas, gargalhadas e mimos. E por isso, claro, lidamos mal – ou não lidamos de todo – com mudanças de caminho. Damos e gostamos de receber, com os mesmos valores e em igual valor.

Vem isto tudo a propósito de um estudo fresquinho, realizado este mês no Reino Unido, mas que é espelho para o Mundo, e que só vem confirmar o que já desconfiávamos: são poucos os consumidores que estão disponíveis a dar uma segunda oportunidade a marcas com as quais tenham tido uma má experiência. Além de que 90% não mostra clemência após duas a cinco más experiências. Honestidade!

Um outro estudo também já tinha confirmado que um terço dos inquiridos deixarão de comprar os seus produtos de eleição se perderem a confiança na marca. Confiança!

E o “Global Consumer Pulse” da Accenture Strategy reforçava, logo no início do ano, que os CEO têm que conseguir garantir, em torno do seu propósito, uma fidelidade que seja tangível. Fidelidade! Porque, assim como desistimos de “amores”, deixamos de lado marcas e empresas que não cumpram, que traiam as suas crenças, os seus propósitos.

Nesta edição da Marketeer damos capa à nossa mais recente conferência, resumindo, numa mão-cheia de páginas, o que de mais relevante se debateu e apresentou por ali. Claro que Propósito – uma das buzzwords do ano – foi falada e repetida, defendida e analisada, sendo que praticamente não houve marca que não a tivesse assumido como pilar de casa. Mas aquilo que nenhuma marca se pode esquecer é que Propósito é como amizade, amor, carinho. Não se descarta. Não se constrói com base no assim-assim. Pode haver afinações, ajustes, encaixes, que a vida também é feita de cedências e aprendizagens. Mas a base, os valores reais, esses têm que estar lá. E, acredite que não se compram em meros estudos de mercado!

Editorial publicado na revista Marketeer n.º 291 de Outubro de 2020

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