IA, política e incerteza: Os desafios das empresas de media em 2025
As empresas de media enfrentam este ano desafios como novos ataques de políticos hostis e batalhas para proteger propriedade intelectual na inteligência artificial (IA), com 41% dos editores a manifestarem-se otimistas, segundo um estudo do Reuters Institute.
Esta é uma das principais conclusões do relatório sobre as tendências e previsões para o jornalismo e tecnologia em 2025 (‘Journalism and Technology Trends and Predictions 2025’, nome do documento na versão inglesa), elaborado por Nic Newman e Federica Cherubini, do Reuters Institute/University of Oxford, divulgado este mês.
“As organizações de notícias estão preparadas para múltiplos desafios em 2025 que provavelmente incluirão novos ataques de políticos hostis, a continuação de constrangimentos económicos e as batalhas para proteger a propriedade intelectual” contra a voracidade das plataformas assentes em IA, lê-se no documento resultante de um inquérito à industria, feito a partir de uma amostra estratégica de 326 líderes do setor de 51 países e territórios.
Por exemplo, as alterações no sistema de pesquisa, em particular, “tornar-se-ão a grande queixa para uma indústria de notícias que já perdeu tráfego social e teme um declínio maior na visibilidade, à medida que os interfaces de IA começam a gerar” respostas ‘tipo histórias’ para consultas de notícias, acrescenta o estudo.
Por sua vez, as eleições norte-americanas realçaram o poder crescente de um ecossistema de notícias alternativo que inclui personalidades partidárias e criadores que muitas vezes operam fora das normas jornalísticas, e alguns afirmam que já eclipsaram os principais media “em termos de influência e confiança”.
Apesar das dificuldades, acrescenta o relatório, muitas empresas de media tradicionais “permanecem otimistas” face a 2025. “Tempos de incerteza tendem a ser bons para o negócio e a perspetiva de ‘Trump à solta’ poderá levar a um aumento no tráfego da Internet e até mesmo nas assinaturas”, referem os autores do estudo, embora isso não possa ser garantido.
“Um dos principais desafios será voltar a envolver o público que perdeu o hábito de consumir notícias nos últimos anos e encontrar formas de atrair a próxima geração. Muitos editores procurarão melhorar drasticamente a qualidade dos seus próprios ‘websites’, criar experiências de notícias mais personalizadas e investir ainda mais em áudio e vídeo”.
Até porque, “com as expectativas dos consumidores a evoluir a um ritmo rápido, abraçar a mudança e ao mesmo tempo permanecer fiel aos valores jornalísticos fundamentais será o principal truque de equilíbrio” para este ano.
Quatro em cada 10 (41%) da amostra de editores, presidentes executivos (CEO) e executivos afirmam “estar confiantes sobre as perspetivas do jornalismo” este ano, “com um em cada seis (17%) a expressar baixa confiança”.
“As preocupações declaradas relacionam-se com a polarização política, o aumento dos ataques à imprensa e a captura dos meios de comunicação social – todos estes fatores combinados são vistos como ameaças significativas à capacidade do jornalismo de operar livremente”, aponta o estudo.
Mais de metade (56%) afirma estar “confiante sobre as suas próprias perspetivas de negócio”, o que representa um “salto significativo em relação aos números do ano passado, com “muitos ‘publishers’ [editores]” com expectativas de aumento de tráfego “no meio do caos esperado de uma segunda presidência de Trump”, enquanto uns destacam crescimento contínuo nas subscrições ‘online’, enquanto outros ainda pensam que o rápido crescimento de conteúdo não fiável gerado pela IA poderia trazer o público de volta aos media de confiança.
A utilização de tecnologias de IA pelos media continua a aumentar em todas as categorias, ‘sendo a automatização de ‘back-end’ (60%) considerada muito importante pelos editores entrevistados, muitos dos quais lançaram ‘kits’ de ferramentas de IA para apoiar novos fluxos de trabalho este ano”.
A “vasta maioria (87%)” afirma que as redações estão a ser total ou parcialmente transformadas pela Gen AI [IA generativa].
A utilização de IA orientada para as audiências deverá proliferar este ano, com a maioria dos inquiridos a apostar na personalização do formato como forma de aumentar o envolvimento, nomeadamente os recursos que transformam texto em áudio (75%), resumos das notícias principais (70%) ou tradução de artigos noticiosos para diferentes idiomas (65%).
Mais de metade (56%) dos inquiridos disseram que iriam apostar nos ‘chatbots’ de IA e interfaces de pesquisa
Em termos gerais, prevê-se que as plataformas tecnológicas desenvolvam e promovam os seus agentes de IA este ano – “muitos deles com interfaces de conversação melhoradas”, por exemplo, “o ChatGPT, da OpenAI, vem agora com recursos de voz avançados, e tanto a Siri como a Alexa estão a ser atualizadas.
Por último, “os editores estão na dúvida se as tendências em relação aos influenciadores e criadores são boas ou más para o jornalismo”.
Mais de um quarto (27%) “tem uma visão negativa”, enquanto 28% são “mais positivos, sentindo que há muito que as organizações noticiosas podem aprender em termos da criatividade na narrativa e na construção de comunidades”.
Mas a preocupação maior é atrair e reter talento em produtos e ‘design’ (38%), ciência de dados (52%) e engenharia (55%) numa altura em que o desenvolvimento de novos produtos se torna mais importante do que nunca, aponta o estudo.