Há vida depois do automóvel?

A emergência dos veículos autónomos poderá levar as marcas a venderem os automóveis com seguros integrados, o que representa uma ameaça para o sector. Tendo em conta que o seguro automóvel é a porta de entrada de muitos clientes, as seguradoras precisam de criar novos produtos, ou formas de chamar e fidelizar os clientes.

Texto de Rafael Paiva Reis

Fotos de Paulo Alexandrino

Tradicionalmente, as seguradoras portuguesas têm na vertente automóvel um dos seus pontos fortes, com peso substancial nas carteiras de clientes. Todavia, este segmento poderá ser alvo de ameaça, fruto de uma maior preponderância das viaturas de condução autónoma.

Têm vindo a surgir várias notícias que dão conta que a construtora automóvel Tesla planeia vender os seus veículos com seguro incluído, o que poderá ser um repto ao mercado e afigurar-se como uma ameaça para o sector segurador, que poderá ver o papel do automóvel perder importância no negócio. «Essa será a realidade e todos seremos confrontados com ela. Temos consciência desta configuração», referiram os responsáveis presentes no pequeno-almoço de Seguros, no Hotel Dom Pedro. A debater o rumo do sector estiveram António Carlos Carvalho (Lusitania), Inês Simões (Ageas), Maria Rodrigues (Allianz), Mariana Monteiro (Eurovida/Popular Seguros) e Rodrigo Esteves (Liberty).

Tendo em conta a possibilidade de as próprias marcas venderem seguros e juntamente com as tendências da condução autónoma e dos carros partilhados, a perda da fatia do seguro automóvel é um cenário possível. «Mas falta uma questão fundamental: as pessoas. Quem assegura os danos pessoais? Penso que seja essa a grande diferença do sector dos seguros e uma das mais-valias em prol desta eventual concorrência», referem os responsáveis. E dão como exemplo um automobilista que, ao abrir a porta do carro, bate numa outra viatura. Aí já não será responsabilidade da marca automóvel, mas sim uma distracção do condutor. «Será que a marca assumirá esses custos? Ou, uma vez que nada tem a ver com condução, a responsabilidade passa a ser do condutor?», questionaram.

Outra das temáticas prende-se com o futuro dos mediadores de seguros. Prevê-se que, no futuro, a sua actividade não passará pelo automóvel, pois se o automobilista conseguir efectuar todos os passos necessários para obter um seguro através da internet, a sua função perderá relevância. Contudo, os presentes no pequeno-almoço de debate não vêem esta situação de forma apreensiva. «As margens do seguro automóvel não são as mais vantajosas, existindo produtos muito mais rentáveis para os mediadores. E falamos de produtos que permitem uma maior aproximação e estreitamento da relação com o cliente. E os mediadores já começam a despertar para esta situação, pois estão cientes de que não podem viver exclusivamente do seguro automóvel», explicam.

Não obstante, ficou ciente de que os mediadores não têm tanta preparação quanto as organizações no que respeita a esta transformação digital, podendo ser os elementos mais prejudicados neste processo. «Tem de haver um maior esforço por parte das organizações, para melhor instruir os seus mediadores, através da criação de uma linguagem mais acessível, que lhes confira mais competências para o negócio», vincam os presentes.

O automóvel é, assim, uma porta de entrada para o cliente, mas esse panorama poderá mudar. Existe já uma maior relação com os clientes, no que respeita a políticas de fidelização, que permitirão, no futuro, chegar ao cliente por outra via que não o automóvel. «Ainda assim, há muito mais dúvidas que certezas, pelo que estamos perante uma temática ainda sem um desfecho previsível. Mas não considero que seja o automóvel que irá mudar o negócio, mas sim a transformação digital que ditará o futuro do mesmo», explicam os responsáveis.

Novos produtos no mercado

A oferta das empresas seguradoras em Portugal é vasta, mas existem produtos que registam uma baixa taxa de penetração no mercado, como os seguros de responsabilidade civil, acidentes pessoais e até o seguro de vida. «Tradicionalmente, o português não vê um seguro como um investimento. Mas a evolução da sociedade trouxe consigo novos riscos, pelo que é necessário criar seguros para os mesmos», salientam os presentes. E fornecem como exemplo os drones, cujo risco associado à sua utilização (ferimentos a outras pessoas, embate noutros drones ou aparelhos aéreos) pode implicar a criação de seguros. Noutros mercados já existem aplicações on-demand, que cobram um valor consoante um período de utilização.

Perante este exemplo, o caminho dos seguros passará pela necessidade. «Se fizer uma viagem, aparecer-me-á uma opção para incluir um seguro na mesma. Se for praticar uma actividade de alto risco, terei uma plataforma online que me disponibiliza um seguro apenas para aquele momento. A transformação dos seguros passará por aí e surgirão muitas novas oportunidades de negócio. Mas enquanto actuar de forma standard, isso não será possível», explicam os presentes, referindo que este é um exemplo de soluções que ainda não são uma realidade em Portugal, muito por culpa da configuração deste mercado.

«O sector dos seguros ainda é muito standard, condicionado por sistemas. E os clientes já pedem soluções mais versáteis, sejam referentes aos seguros automóveis como aos de vida. Estes novos riscos exigem uma maior flexibilidade e preparação das empresas para fazer frente às novas necessidades dos clientes», explicam os convidados.

Pouca receptividade e falta de estratégia

O conceito de risco e a noção de o transferir para uma seguradora (entidades sérias que resolverão problemas que possam surgir) não existe em Portugal. «Tem sido feito muito trabalho nesse sentido, mas ainda não se alcançou a situação desejada. O português é muito conservador, não vê o seguro como um investimento. Em oposição, por exemplo, um consumidor inglês que vem a Portugal jogar golfe, assim que paga para jogar pergunta se o seguro já está incluído no preço. Na plataforma Airbnb, o consumidor francês ao serem-lhe entregues as chaves da casa, perguntará sempre pelo seguro. E estes exemplos acontecem com consumidores um pouco por toda a Europa, menos em Portugal. É impensável que um turista europeu venha a Portugal e não peça um seguro para um qualquer serviço que solicite», referem os presentes no pequeno-almoço de debate.

Quanto aos consumidores portugueses, quando lhes é oferecida a possibilidade de pagar um valor extra para ter um seguro, declinam essa possibilidade. Sobretudo no caso dos smartphones: o cliente é capaz de comprar um topo de gama, mas prescinde de segurar o dispositivo.

O seguro tem de estar incluído no preço final, caso contrário o consumidor irá prescindir do mesmo. No caso dos consumidores mais jovens, se as seguradoras conseguirem associar um seguro à aquisição ou ao consumo, estarão mais predispostos para estes produtos. «Se conseguirmos embutir o seguro associado à utilização, os consumidores entenderão o risco como algo momentâneo, ao invés de um pagamento anual, e mais facilmente aceitarão fazer um seguro», referem. Ora isto fará com que, actuando apenas tendo em conta o risco, o preço médio de cada produto aumentará. Em contrapartida, o prémio anual deverá descer. No entanto, o consumidor dará mais valor ao seguro, pois sente que apenas paga por um seguro quando realmente necessita de estar segurado ou segurar algo.

No caso dos seniores portugueses (de referir que, actualmente, 52% da população tem mais de 50 anos), estamos perante um target mais velho, com poder de compra, que viaja e está predisposto a comprar. E, acima de tudo, tem noção de que se acontecer algum problema, quer estar protegido. Mas ainda não foi traçada a melhor forma de chegar a este consumidor. «Apesar de estarem mais sensibilizados para o risco, os seniores representam um desafio maior, pois temos de pensar em novas soluções para fazer frente às necessidades de uma população cada vez mais envelhecida», finalizam os presentes no pequeno-almoço de debate.

Artigo publicado na edição n.º 256 de Novembro de 2017.

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