Grupo Vila Galé: Sabores e experiências

Cadernos
Marketeer
17/11/2025
15:00
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O Grupo Vila Galé aposta em vinhos, azeites e vivências únicas que aproximam hóspedes do território e da cultura portuguesa.

A estratégia do grupo articula turismo, gastronomia e produção agrícola, garantindo qualidade e autenticidade nos vinhos e azeites servidos nos hotéis. Porfírio Perdigão, director regional de Operações do Grupo Vila Galé, explica como as herdades próprias permitem criar experiências únicas para os hóspedes, desde provas de vinho e show cooking com azeite acabado de extrair, até programas ligados a cavalos lusitanos e produtos locais, sempre com atenção à sustentabilidade e à economia circular.

Como é que a produção de vinhos e azeites do grupo, com destaque para as marcas Santa Vitória, Val Moreira e Paço do Curutelo, se integra na proposta de valor do Vila Galé enquanto grupo hoteleiro?

O grupo hoteleiro conta hoje com 52 unidades e tornou-se evidente que possuir herdades próprias seria um complemento natural. Assim, passámos a produzir integralmente os nossos vinhos e azeites, garantindo o controlo total sobre aquilo que servimos aos clientes.

Do ponto de vista da economia circular, esta integração é também relevante: aproveitamos toda a matéria-prima. No caso do vinho, as grainhas das uvas dão origem a produtos usados em esfoliações corporais, por exemplo, que são utilizados nos spas dos hotéis, reforçando a ligação entre produção e bem-estar. Além disso, nas unidades mais isoladas, como o Paço do Curutelo, Val Moreira ou a Casa de Santa Vitória, as águas sanitárias são reaproveitadas para a rega das vinhas, reforçando esta lógica de economia circular e acrescentando valor ao conjunto.

Que papel desempenha a Casa de Santa Vitória na estratégia global do grupo, tanto na produção como na promoção de experiências vínicas e gastronómicas?

O papel é complementar. Em Beja, para além das provas tradicionais, oferecemos experiências como o “Seja enólogo por um dia”, que permite ao cliente criar os seus próprios lotes de vinho – uma das actividades mais procuradas. Promovemos também dias dedicados à enologia e experiências gastronómicas centradas no vinho.

Dispomos ainda de um lagar de azeite, a mais recente unidade agro-industrial do grupo, onde criámos um espaço de show cooking: os visitantes podem apanhar a azeitona, extrair o azeite e cozinhar de imediato com o produto acabado de fazer. O cliente vive assim uma experiência completa e autêntica, desde a apanha até à degustação.

Como exploram a diversidade de castas alentejanas e do Douro e quais são as mais emblemáticas na vossa produção?

Na herdade do Alentejo privilegiamos as castas mais emblemáticas da região, adaptadas ao clima quente e seco, que exigem produtividade e taninos firmes. Nos tintos destacam-se a Touriga Nacional, o Aragonês, a Trincadeira e o Alicante Bouschet; nos brancos, o Antão Vaz e o Arinto. Estas foram as castas-base, mas temos vindo a introduzir outras, de fora da região, para criar blends distintos, como a Baga, o Syrah, o Verdelho, o Viozinho e o Cercial.

No Douro, trabalhamos sobretudo com vinhas velhas, ricas em diversidade de castas típicas, entre as quais se destacam a Tinta Roriz, a Touriga Franca e a Tinta Amarela. É uma produção de menor escala, com intervenção mínima, que respeita o terroir e privilegia a autenticidade.

De que forma iniciativas como visitas à adega, provas de vinhos e azeites, e experiências nos hotéis, ajudam a criar uma ligação mais próxima entre os hóspedes e a cultura nacional?

Um bom quarto, uma boa televisão, limpeza e serviço de qualidade são hoje o mínimo esperado num hotel. O que realmente distingue é a experiência. Para além das actividades ligadas ao vinho, em Beja oferecemos experiências rurais, como acompanhar a produção de cavalos lusitanos, participar nas podas ou na vindima – momentos que criam emoções e reforçam a ligação ao lugar. Criam emoções – e é isso que prende o cliente.

Para os hóspedes estrangeiros, especialmente dos mercados americano e brasileiro, estas vivências são ainda mais relevantes, porque vêm a Portugal precisamente para saborear a gastronomia e descobrir os vinhos.

Como utilizam os restaurantes do grupo para destacar vinhos e azeites, criando harmonizações e experiências diferenciadoras para os hóspedes?

Nos 52 hotéis do grupo, todos os pratos têm um vinho sugerido pela nossa equipa de enologia. Juntamente com o chefe executivo, criámos cartas que explicam cada harmonização.

Promovemos ainda os nossos vinhos em jantares vínicos, com selecções das regiões do Alentejo, Douro e Vinhos Verdes, sempre com a presença dos enólogos, que explicam os vinhos e reforçam o carácter exclusivo da experiência. Diariamente, em todos os hotéis, realizamos um “farewell” com os clientes, aproveitando para apresentar os vinhos, sempre com o compromisso de oferecer o melhor preço do mercado, igual ao da adega.

Quanto ao azeite, integrámos pratos que o valorizam. A olivicultura está a dar os primeiros passos, mas já há visitantes que se deslocam especificamente às herdades para provar os nossos azeites.

Como é que a produção de vinhos e azeites se integra na operação do grupo, desde a adega e o lagar até aos hotéis, valorizando qualidade, origem e experiência dos hóspedes?

Embora trabalhemos com distribuidores nacionais e exportação, grande parte da comercialização ocorre nos nossos 52 hotéis, onde os clientes já esperam produtos diferenciadores. Garantimos a qualidade ao acompanhar todo o processo de transformação internamente, sem recorrer a compras externas. Com as três adegas, conseguimos cobertura e oferta consistentes a nível nacional e internacional.

Em mercados como Espanha, Cuba e Brasil, onde também temos hotéis, os vinhos funcionam como uma ponte para Portugal, promovendo a experiência das nossas herdades e atraindo clientes às adegas.

Que papel desempenham as certificações e distinções de qualidade na valorização e credibilidade junto dos hóspedes e consumidores?

As certificações são fundamentais para os vinhos, conferindo credibilidade e confiança aos consumidores. Os clientes procuram sempre os selos da CVR das regiões, que garantem autenticidade e fidelidade ao terroir.

Em Beja, a Santa Vitória ainda é um vinho regional alentejano, pois a sub-região DOC do Baixo Alentejo ainda não existe; estamos a trabalhar junto da CVR para a criação desta distinção, que é muito importante. No Douro, todos os nossos vinhos são DOC, com selo do IVDP, na sub-região de Cima Corgo.

Além disso, os nossos vinhos indicam “produzido e engarrafado por”, ao contrário de muitos que apenas mencionam “engarrafado por”, o que poderia esconder blends com vinhos de fora da região. O nosso selo garante autenticidade e transparência.

E em termos do azeite, isso também é valorizado?

É exactamente o mesmo. Já existe uma rota de vinhos, e os olivicultores estão a trabalhar para criar uma rota dos azeites, com lagares onde os clientes possam viver experiências semelhantes às das adegas.

Quais consideram ser as estratégias de comunicação mais eficazes para captar a atenção de públicos interessados em experiências vínicas e gastronómicas, incluindo canais digitais?

É essencial marcar presença nas grandes superfícies, mesmo que apenas para os vinhos de entrada, de forma a consolidar a marca junto do grande público. Depois, trabalhamos garrafeiras e restaurantes, através da nossa equipa de vendas das três adegas, mas o foco principal é nas lojas dos hotéis, onde expomos toda a gama e encontramos clientes já fidelizados – é aí que realizamos a maior parte da divulgação e promoções.

Além disso, existem produtos muito específicos. Na Casa de Santa Vitória lançámos o Nature, com 1200 garrafas, pensado para uma geração jovem que procura vinhos mais leves, frescos e com baixa intervenção, sem sulfitos – é o tal vinho que não dá dor de cabeça.

Criámos também o Nep Bubbles, que começou por ser uma brincadeira, um sumo 100% de uva com gás, engarrafado como espumante, ideal para aniversários infantis. A uva é apanhada à noite, para não fermentar, diminuímos logo a temperatura e o estado de produção é bastante controlado, garantindo que é um produto sem álcool. Já está em garrafeiras como o El Corte Inglés e até adultos têm experimentado, o que é curioso.

Quais são os principais desafios e oportunidades na gestão de vinhos e azeites num grupo hoteleiro, e que lições têm retirado da experiência?

Os azeites enfrentam menos desafios, pois têm sempre valor de mercado – sejam vendidos a granel ou engarrafados. Nós optamos por engarrafar sempre com a marca Santa Vitória, e a venda não apresenta grandes dificuldades.

Nos vinhos, a Casa de Santa Vitória tem um cliente principal, a Vila Galé, que consome mais de 50% da produção. O grande desafio é destacar-se num mercado saturado: novas marcas surgem diariamente nos supermercados, incluindo marcas próprias das superfícies e vinhos a preços baixos, muitas vezes resultantes de compras a granel por grandes empresas, o que permite baixar os custos de produção. No nosso caso, produzimos desde a vinha até ao produto final, assumindo todos os custos de produção. O desafio é gerir esses custos para oferecer vinhos de gama média e média-alta a preço justo, ao mesmo tempo que desenvolvemos produtos que o mercado procura, como vinhos de baixo teor alcoólico e com intervenção mínima. É um sector muito competitivo, completamente diferente do azeite.

Que aprendizagens ou oportunidades esperam obter com a produção de vinhos e azeites no Brasil?

Recentemente, abrimos o Vila Galé Collection Ouro Preto, uma propriedade completa onde adaptámos parte do conceito que temos em Beja. Criámos um centro hípico e um museu dedicado ao cavalo lusitano, e decidimos testar também uma pequena produção de azeite e vinho, uma vez que Ouro Preto tem uma temperatura adequada para isso.

Se conseguirmos produzir localmente a um custo mais baixo, evitaremos ainda as elevadas taxas de importação. Por agora, são apenas alguns hectares e algumas videiras, para avaliar como cada casta se adapta. É um projecto no início, mas promete aprendizagens interessantes ao longo do próximo ano ou dois.

Como acompanham a inovação na produção de vinhos e azeites, em novos formatos ou edições limitadas, conciliando tradição e propostas diferenciadoras?

A Casa de Santa Vitória, com mais de 20 anos e marcas consolidadas, procura dinamizar produtos diferenciadores.

Recentemente, lançámos algumas novidades: o Reserva Rosé da Casa de Santa Vitória. Normalmente, estes vinhos rosés são produzidos para consumo no ano, sendo que este rosé conta com estágio de 33 meses em barrica.

O Reserva Rosé foi lançado como uma homenagem à mulher. O seu lançamento aconteceu no concerto que realizámos recentemente dedicado à mulher e será servido na inauguração do Hotel Vila Galé Amazónia, um hotel dedicado às grandes mulheres de todo o mundo.

No Val Moreira, lançámos ainda um Pét-Nat, espumante natural feito pelo método ancestral, no qual o vinho é engarrafado antes de terminar a fermentação, para a concluir dentro da garrafa, criando naturalmente gás carbónico que gera as bolhas. Tanto o Pét-Nat como o Nature esgotaram rapidamente. Estes exemplos mostram que as adegas acompanham tendências, mantendo rigor e qualidade, e atraem também públicos jovens, frequentemente considerados afastados do consumo de vinho.

Que iniciativas ou projectos podemos esperar nos próximos anos em termos de expansão, novas experiências e reforço da ligação entre turismo e produtos locais?

Dos 52 hotéis do grupo, 18 são edifícios históricos recuperados, e é principalmente nestes que dinamizamos a gastronomia, vinhos e experiências.

Em Beja, por exemplo, transformámos fruta e legumes fora de calibre em compotas vendidas em todos os hotéis, incluindo em Espanha e no Brasil.

Também em Beja, com a criação e acompanhamento diário dos cavalos lusitanos, os clientes podem dar banho e montar. Estamos a lançar um programa para quem quiser trazer o seu próprio cavalo, utilizando boxes no Alentejo Vineyards, Collection Alter Real e Collection de Elvas.

Em Alter, revitalizámos o forno comunitário para workshops de pão e recuperámos a falcoaria, com mais de 10 aves e um berçário para novas gerações de falcões, reforçando o compromisso com a biodiversidade.

Entre os futuros projectos destacam-se o Vila Galé Tejo, na Quinta da Cardiga, perto da Golegã, ligado ao cavalo lusitano, e o Paço Real de Caxias, ambos edifícios históricos. O foco mantém-se na cultura, património e experiências autênticas, prometendo que os dois próximos anos serão repletos de actividade e inovação.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Vinhos, azeites e bebidas espirituosas”, publicado na edição de Outubro (n.º 351) da Marketeer.




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