É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma?

Por Judite Mota, CCO na VMLY&R

“Estamos a aprender a deixar de tentar controlar tudo”.

Hoje li esta frase num jornal online. Não sei qual, quem a disse, onde disse mas isso pouco importa nos dias que correm porque pelo mundo inteiro estamos todos a viver vidas muito semelhantes e, com o passar do tempo e o estender da situação, vidas que se parecerão cada vez mais. Em poucos dias tudo mudou. Não um pouco, não numa área de actividade ou num só aspecto da nossa vida pessoal. Tudo é TUDO! Os nossos planos, as nossas ambições, o nosso desejo de controlo, a nossa relação com os outros, o nosso sentido de liberdade e a nossa relação com o poder.

Submersos em informação, secretamente aterrorizados pelo desconhecido, tentamos todas as formas de distracção e optimismo. É preciso trabalhar em casa? Somos super-eficientes e descobrimos que todas aquelas reuniões podem mesmo ser um e-mail. Deixamos de lado a futilidade e apreciamos ver a colega ou a cliente sem maquilhagem e acabada de acordar. Somos mais proactivos do que alguma vez fomos e os clientes menos demorados e picuinhas nas aprovações mostrando, por uma vez, que afinal confiam em nós.

Descobrimos que podemos ser mais abertos, menos hierárquicos, menos formais e mesmo assim ganhar um projecto. Que a distância, perversamente, nos aproxima. Falamos com colegas com quem nunca falámos no escritório e descobrimos que afinal têm sentido de humor e que podíamos ser amigos.

Descobrimos também que, se calhar, não precisamos de tantas coisas (excepto claro, papel higiénico) e que isso tem efeitos imediatos sobre o clima. Pasmamos com as imagens da poluição antes e depois que a NASA nos mostra e maravilhamo-nos com a transparência nunca vista nos canais de Veneza. Afinal é possível, a Greta tinha razão. Descobrimos que as viagens de trabalho para o outro lado do mundo podem ser um Zoom. Somos mais colaborativos e menos quezilentos, as fronteiras esbatem-se e os muros caem naturalmente como se nunca tivessem lá estado. Somos mais solidários e mais empáticos e os valores que sempre nos disseram que importam vêm à superfície sem resistência.

E porque esta crise não é só uma ameaça ao nosso estilo de vida mas à nossa vida, revelamos o que a criatividade – que é inerente a qualquer ser humano – pode fazer. Não na publicidade ou no marketing, mas na medicina, na logística, na engenharia, na tecnologia, na gestão doméstica dos “pais-professores-executivos-cozinheiros-enterteiners-cuidadores”.

Vemos uma fábrica de componentes automóveis recriar-se para produzir válvulas para ventiladores e sabemos que há sempre maneira de superar as dificuldades. Vemos o rei do fast fashion adaptar toda a sua cadeia de produção para responder às necessidades mais prementes do seu país e percebemos que o sucesso nos negócios não é incompatível com a generosidade da alma.

A criatividade é uma ligação nova que fazemos entre conceitos existentes e não há tempo mais adequado do que o que vivemos para aplicar este princípio. A tudo. Porque tudo mudou. Muito e muito depressa. Agora só nos resta lutar para que quando voltarmos, tudo não tenha mudado para que tudo ficasse na mesma.

 

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