É oficial. Estamos na lama.

Por André Mateus, head of Events and Activation na Faz Mossa

Não porque o momento pelo qual estamos a passar esteja a ser terrível. Antes pelo contrário, esta estadia mais ou menos forçada em nossas casas trouxe um considerável número de pequenos prazeres ao nosso dia-a-dia. Há já três semanas que não grito com ninguém no trânsito, que não ouço comentadores desportivos a tentar falar português, ou que tenho que amanhar uma desculpa para não ir ao jantar de sexta-feira no novo restaurante que não serve comida, mas sim experiências.

É certo que tenho uma vantagem. Ando a praticar o distanciamento social há cerca de 5-6 anos, pelo que me sinto agora apto para a competição.

Mas se isto não tem sido assim tão difícil, de onde vem esta ansiedade toda? De onde vem o medo? Como humanos que somos, a nossa realidade está assente no controlo. Aquilo que mais define a nossa espécie é o controlo que exercemos sobre todos os parâmetros das nossas vidas. Quando sentimos que temos uma situação dominada, ficamos descansados. Por oposição, o descontrolo que vivemos actualmente deixa-nos na mais pura das angústias, sem saber como vai ser daqui para a frente. Vou perder o meu trabalho? Como vou pagar as contas?

Como é que esta situação vai afectar emocionalmente os meus filhos? A minha empresa vai falir? Será que os meus pais vão sobreviver a isto? E eu, devia deixar de fumar?

De um dia para o outro perdemos as rédeas do amanhã. E lavar obsessivamente as mãos ou desinfectar interruptores pode trazer um quick fix e ajudar o nosso cérebro a processar este momento, mas depois bastar ligar as notícias ou receber um WhatsApp para desabar os fracos alicerces deste instável controlo que (não) temos sobre as nossas vidas. Contudo, no meio de toda esta incerteza sobre a situação, surge uma garantia: só unidos é que vamos ultrapassar isto.

E é isso que é espectacular.

Estamos a viver uma experiência social que colocou o planeta como um todo na mesma missão. É a primeira vez na história da humanidade que tal acontece. Nem a Greta Thunberg o conseguiu! Mas nós estamos a conseguir. Estamos neste momento entrincheirados numa Guerra Mundial onde pela primeira vez o inimigo não é nenhum país. E os aliados somos todos nós (excepção feita à Suécia que, historicamente, se mantem neutra e aparte dos conflitos).

Por isso, por estarmos todos juntos e unidos como nunca antes estivemos, é que é uma questão de tempo até ganharmos esta Guerra Mundial. Não tarda começarão a surgir as notícias sobre o achatamento da curva, assim como as notícias de uma vacina contra este inimigo invisível. Não tarda temos o tratado de paz assinado e podemos finalmente dizer adeus ao Covid-19.

Mas, e depois do adeus?

Dizia o filósofo Eclisiastes que não há nada de novo debaixo do sol. Somos humanos, sempre fomos e vamos continuar a ser, por isso uma coisa é garantida: o Mundo vai continuar com o desejo de produzir e fazer dinheiro. E porque esse Mundo acabou de sair de uma guerra, vamos assistir a planos de estímulo on steroids executados pelos Bancos Centrais e Reservas Federais um pouco por todo o planeta. Historicamente, os planos pós-guerra pretendem reconstruir as economias destruídas pelo lado da produção. Mas nesta guerra há uma diferença, não há infra-estruturas destruídas. Porque o combate se fez em casa. A injecção de capital nas economias vai ser estonteante e estou certo que vamos assistir ao maior choque de consumo da história moderna, forçando o mercado a reconstruir o emprego e a aumentar produção.

Depois do adeus virá o olá. E com ele um abraço, e depois outro, e uma cervejinha, um jantar de amigos, uma televisão nova, finalmente aqueles sapatos, aquela viagem a Londres que tivemos de adiar e por aí adiante, numa narrativa de consumo que todos tão bem conhecemos.

Os mais optimistas dirão que o Covid-19 foi um game changer e que terá a capacidade de alterar as preferências do consumidor e as forças de produção, fazendo deste um planeta mais equilibrado. Não duvido que irão existir mudanças, sobretudo no que toca a soluções de teletrabalho e serviços online. Mas, de resto, será business as usual e vamos produzir como sempre e consumir como nunca.

É por isso que tenho uma palavra de esperança para a indústria dos eventos, na qual me insiro.

O nosso público foi abruptamente privado de conviver e de participar na interminável lista de eventos que foram sendo cancelados, detonando assim os seus planos e o nosso cronograma de trabalhos. É natural, portanto, que borbulhe em cada um de nós o desejo de voltar a estar no meio da acção:

– Do nosso lado, temos ideias e vontade de regressar aos recintos fazendo regressar também aquilo que nos entusiasma – o trabalho e a activação das marcas que servimos;

– Do lado das marcas, ficaram orçamentos por aplicar e compromissos com as suas audiências por concretizar, por isso também elas estarão preparadas para arregaçar as mangas e voltar a activar a sua presença junto dos seus targets, e ASAP, como elas tanto gostam de frisar;

– Finalmente, do lado do público, a cada dia de quarentena que passa aumenta a vontade (talvez como nunca antes) de socializar e voltar às festas e eventos.

Resta-nos estar preparados para os receber porque eles vão querer entrar.

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