Das referências

TiagoViegas

Ponto prévio: estou seriamente em crer que não devia ser director criativo há (já?) sete anos, e menos ainda dono de uma agência há um e picos. Entre outras razões, porque não tenho idade (nem experiência, nem tempo de vida) para isso. Ou não devia ter. É a parte do não dever, aliás, que me traz aqui hoje. Mas lá chegaremos.

Sempre que me encontro sem ideias – um infeliz acaso muito mais recorrente do que possam imaginar -, dou por mim a pensar duas coisas: a primeira é que não me devia ter posto a fazer anúncios (ou lá o que quer que seja que eu faço nos dias que correm), quando o que eu gosto é de comer foie gras (das mais variadas formas e feitios, acrescente-se); a segunda é naquilo que o meu primeiro chefe (o meu primeiro chefe a sério, entenda-se) faria – ou me mandaria fazer – se ali estivesse.

É claro que o exercício é inglório porque o foie não cai do céu e alguém tem que o pagar; e depois porque é obviamente impossível saber o que o meu primeiro chefe (a sério) faria. Mas o exercício traz-me, apesar de tudo, calma, conforto e foco; e estes últimos acabam por me trazer uma solução. No mais das vezes.

E depois então vou comer, que pensar dá uma larica que eu sei lá.

Que é como quem diz, hoje queria falar-vos de referências. Ou, mais concretamente, da porra que é a falta delas. Deixem-me contar-vos uma história.

Quando comecei a trabalhar (a sério), tive um chefe (a sério) que era (quase) brilhante. E um alarve (quase), em igual medida. Mas enfim. O ponto é que o senhor sabia disto como poucos (ou nenhuns). É claro, um dia fartei-me das alarvidades e fui à minha vida, aprender mais umas quantas coisas com outro chefe (mais ou menos) a sério. Até que poucos anos mais tarde alguém achou que eu já tinha aprendido o suficiente e me convidou para ser director criativo de uma agência. Tinha então 29 anos. Novo de mais, pensarão alguns. Eu pensei que sim. E disse-o na entrevista, aliás. Mas do outro lado da mesa riram-se e acharam que era assim um charme naif-o-blasé que até me caía bem, e eu na maior: foram avisados, depois não se queixem. E em rigor, não se queixaram. Muito.

Hoje já passaram os tais sete anos desde a última vez que tive um chefe (a sério). Alguém a quem perguntar – e a quem reconhecer a capacidade para me responder alguma coisa que eu considere válida – se estou a fazer bem. E sabem que mais? Faz falta. Essa é que é essa. E é uma porra.

(Note-se que não estou a dizer que não aprendi nada; felizmente, foram muitos aqueles com quem me cruzei e que me ensinaram alguma coisa. Mas nenhum deles foi meu chefe, é esse o ponto.)

A verdade – e o cerne do texto de hoje – é que a nossa indústria carece (perigosamente) de senioridade, de gente mais velha e mais válida que nos ensine a nós, jovens turcos, a fazer alguma coisa de jeito. Meus amigos, faltam-nos referências. E a culpa é toda – mas mesmo toda – nossa.

Por um lado, porque criámos (ou deixámos criar) uma indústria baseada numa cadeia de valor onde a mão-de-obra se prefere barata a experiente – uma prática que, a médio/longo prazo, se tem revelado absolutamente destrutiva da formação de uma elite criativa dentro das agências, e que tanta falta nos faz.

Por outro, porque aqueles que estão cá há tempo suficiente para serem a tal elite, no mais das vezes, ou não fizeram a ponta de um corno, ou então, pura e simplesmente, não tiveram (nem têm) talento suficiente para serem uma referência para quem quer que seja.

Ou seja, por um lado, é uma merda. Por outro, uma merda maior.

E então? Então porra nenhuma. A senioridade relevante não se cria de um dia para o outro. Nem sequer de um ano para o outro.

De vez em quando dou por mim a achar que passei os últimos tempos a navegar não sei bem para onde e que um dia destes alguém vai perceber que eu estou a andar em círculos sem sair do mesmo lugar. Mas a verdade é que não tenho ninguém a quem perguntar tal coisa. E isso assusta-me. Nem imaginam o quanto, aliás.

E ainda me assusto mais quando vejo o resto da juventude turca, feliz e contente na sua imensa irrelevância. Até que me convenço que se calhar o meu mal é fome, e abro uma latinha de foie.

Texto Tiago Viegas

Fotografia  Paulo Alexandrino

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