Dá para melhorar a comunicação sem comunicador?

Por Sandro Rego, sócio-fundador da agência Priori – Comunicação com Propósito

Pouco mais de um ano após o início da pandemia, o governo de Portugal anunciou a criação de um comité de cientistas comportamentais para assessorá-lo sobre a melhor forma de passar mensagens à população.

A criação desta equipa foi noticiada pelo Público no dia 11 de Março após acesso ao despacho da ministra da Saúde, Marta Temido, que deliberava sobre o assunto. De acordo com o documento, a task force vai produzir estudos e documentos sobre os comportamentos indicados para combater a Covid-19. Mas um dado chama a atenção nessa iniciativa: não há um profissional de comunicação na equipa.

Ninguém do governo explicou como pretende melhorar a comunicação a partir do contributo, não remunerado, dos sete cientistas comportamentais. Em entrevista para a SIC, no final de semana, a coordenadora desta task force, Margarida Gaspar de Matos, disse que o objectivo é apontar a “melhor ciência” de forma a que as pessoas consigam ler as mensagens no tempo que têm. A reportagem informa também que o comité aguarda definições e mais detalhes sobre como será a relação com o governo.

Nada de relevante foi realmente comunicado sobre a criação do comité que deverá melhorar a comunicação com a população.

A preocupação do governo com as falhas de comunicação na pandemia não é recente. O próprio primeiro-ministro António Costa já assumiu a responsabilidade de ter sido “o mensageiro que transmitiu mal a mensagem”. E pelo que pudemos acompanhar até agora sobre o papel da equipa de cientistas, a mensagem continua a ser mal transmitida.

Claro que a decisão de se formar esse comité é fundamental. E dar foco ao processo de comunicação sobre os comportamentos recomendados e mais eficazes para dar uma resposta à pandemia é crucial. Os fundamentos que embasam a criação da task force parecem-me relevantes. Mas municiar o governo com informações e dados não é garantia de que a comunicação com a população será bem feita.

Neste caso, seria mais próximo da realidade se fosse divulgado que os cientistas comportamentais vão assessorar tecnicamente o governo para todas as questões relacionadas ao comportamento da população durante a pandemia. Quando informam que a task force vai auxiliar na comunicação sobre o tema, limita o conhecimento científico e expõe a ausência de profissionais de comunicação na equipa.

Depois de um ano de pandemia, os desafios comunicacionais são ainda mais elevados. A comunicação precisa de se adaptar ao momento que o país atravessa. As questões sobre o processo de vacinação, desconfinamento e os cuidados com a saúde mental são fundamentais agora. É papel do profissional de comunicação encontrar o tom certo e definir os formatos de transmissão dessas mensagens de maneira mais eficaz. Além disso, é primordial que os porta-vozes do governo sejam orientados e treinados para transmitirem a mensagem de forma mais clara possível.

Comunicar bem em situações sensíveis dá tranquilidade para a população, prepara o terreno para se tomar as medidas necessárias, não causa pânico e minimiza o impacto dos desgastes emocionais. Um comité de comunicação nesta crise ajudaria o governo a evitar, por exemplo, as possíveis desinformações relacionadas com a campanha de vacinação, que mal arrancou.

Listo algumas sugestões sobre o que não se pode falhar na comunicação nesta fase da pandemia que Portugal atravessa:

o   A população precisa de saber o que leva à adopção das regras (seja sobre desconfinamento, suspensão da utilização da vacina AstraZeneca, ritmo e cronograma da vacinação, apoios emergenciais, etc.);

o   Deixar claro que cada indivíduo precisa de fazer a sua parte para a redução dos contágios;

o   A consciencialização da população sobre os comportamentos a serem adoptados é mais eficaz que a proibição ou a imposição;

o   Destacar a importância da protecção da família, dos mais vulneráveis, dos idosos;

o   A população precisa de ser reconhecida pelo sucesso da adopção das medidas no combate à pandemia;

o   Os veículos oficiais do governo e a comunicação social profissional precisam de ganhar mais credibilidade para não dar margens para desinformação.

Espero que o governo ajuste o papel do comité nesse processo, com foco no trabalho científico e comportamental, temáticas necessárias em que são especializados. Mas fica a sugestão de uma task force formada por profissionais do jornalismo e da comunicação que contribua com discussões estratégicas e faça a diferença na forma e no conteúdo das mensagens mais adequadas para que o combate à pandemia não revele cansaço nem esgotamento. Não podemos parar.

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