Da indecisão à não decisão, à incerteza!

Ricardo FlorencioPortugal é um País da não decisão. Mais do que a indecisão, vigora o princípio de que uma não decisão é sempre melhor do que uma má decisão. E tanto assim é, que as “não deci­sões” raramente são castigadas, mas as, por­ventura, “más decisões”, essas sim, com mar­telo, cutelo, e tudo o que houver, devem ser severamente e duramente castigadas. E é este o princípio que vigora e prolifera em Portugal.

Talvez por ter trabalhado seis anos numa multinacional, estou convicto que a pior de­cisão de todas é a “não decisão”. É a única que não leva a lado nenhum. É a única que fica por provar se era boa, ou não tão boa. É a única que leva ao impasse, à incerteza, a um ponto em que não há opções.

Mas em Portugal raramente se pensa as­sim. E tanto assim é, que lá fora partilham-se as más experiências, as estratégias que não deram os resultados esperados, as acções que não correram como previsto, os lançamentos que não vingaram. E partilham-se para, por um lado, não se voltarem a cometer os mes­mos erros, e para demonstrar como se deu a volta à situação.

Em Portugal, com o receio de que não corra conforme esperado, e com medo do possível castigo a aplicar, muitas vezes adia-se, e adia­-se, e adia-se, e, por fim, já não vale a pena de­cidir, pois passou a oportunidade. Em Portugal tudo o que não teve efeitos positivos é apagado, escondido, como se nunca tivesse acontecido. É pena. Pois, com o conhecimento adquirido dos diversos erros que todos cometemos, tal­vez tivéssemos aprendido alguma coisa.

Contudo, vislumbra-se agora com muito maior preocupação que este princípio alastrou para todo o lado. Por toda a Europa se vive a “não decisão”. As grandes potências euro­peias, com receios de tomar algumas “más de­cisões” têm optado pela “não decisão”. E este princípio tem-nos levado ao ponto onde esta­mos hoje. Ao único ponto onde as opções são difíceis, impossíveis, de tomar. A incerteza!

Mais do que a crise, mais do que as dificuldades que enfrentamos, é este estado de espírito da incerteza que nos deve preocupar mais. Esperemos que sejam tomadas decisões rapidamente, mesmo que não sejam as me­lhores, pois essas podem-se mensurar e assim corrigir. E relembro a frase do meu amigo, “assim, não vamos lá!”.

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