Opinião de Nuno Costa, CEO Wizpress, do Grupo Dengun
Os órgãos de comunicação social estão numa encruzilhada histórica. Se a transição para o digital já representou um desafio monumental para muitos, alguns ainda não se conseguiram adaptar, a onda de inteligência artificial (IA) e automação adiciona uma camada de complexidade e urgência sem precedentes. A situação é clara: estamos num ponto crítico e a inação não é uma opção; tornou-se um risco existencial.
Vivemos tempos desafiantes, marcados por uma velocidade estonteante de mudança tecnológica e por uma reconfiguração constante das expectativas do público. Neste cenário, a tentação de simplesmente “manter a cabeça fora de água” é grande, mas insuficiente.
Os modelos tradicionais, desde as plataformas web básicas até aos fluxos de trabalho puramente manuais, já não respondem às exigências de alcance, envolvimento e, crucialmente, sustentabilidade financeira.
Esta realidade é particularmente ameaçadora para os meios de comunicação de proximidade. Têm equipas muito reduzidas e veem os seus recursos humanos e financeiros totalmente consumidos pelas exigências do trabalho diário, a cobertura jornalística, a gestão de assinantes, pagar contas (e salários).
Esta imersão constante na sobrevivência operacional deixa pouca ou nenhuma margem para o pensamento estratégico, para a exploração de novas ferramentas, como a IA, que não é vista como um possível aliado, mas como um substituto da equipa, ou para a busca ativa por modelos de negócio inovadores e fontes de financiamento alternativas.
Presos num ciclo de subsistência, lutam para manter as luzes acesas, tornando a transição de um modo de mera sobrevivência para um de crescimento sustentado um desafio quase intransponível.
O desafio, difícil, mas exequível, passa por construir uma “Base Digital Sólida” e integrar a IA de forma “responsável”. É crucial que a tecnologia, nomeadamente a IA, seja encarada como uma ferramenta de apoio ao serviço do jornalismo, sem substituir o discernimento, a ética e a decisão editorial humana. A automatização de tarefas repetitivas tem o único propósito de libertar jornalistas e editores, permitindo-lhes focar-se no “jornalismo de valor acrescentado”, investigação profunda, análise crítica, histórias impactantes, que só a inteligência e sensibilidade humanas podem produzir. Manter os profissionais humanos no centro da tomada de decisões é a garantia de que a integridade editorial não será sacrificada no altar da eficiência.
Numa era frequentemente assombrada pelo espectro da desinformação e pela superficialidade do consumo rápido de conteúdos, o papel dos media como garante de responsabilidade, escrutínio e informação de qualidade é mais essencial do que nunca.
São as redações fortes, independentes e adaptadas aos novos tempos, com profissionais capacitados e no comando das ferramentas tecnológicas, que podem continuar a desempenhar esta função vital.
A inovação não é apenas uma questão de sobrevivência empresarial; é uma condição necessária para que os media continuem a ser relevantes e a cumprir o seu papel cívico. Isto leva-nos até ao “elefante na sala”: o dinheiro.
Se os órgãos de comunicação social estão apenas focados na sobrevivência, como vão encontrar financiamento para pagar inovação? Há fontes alternativas de financiamento, como bolsas ou fundações. Além disso, uma otimização das fontes de receita já existentes, como GoogleAds ou campanhas de donativos podem ajudar a pagar esse investimento.
Mas também neste ponto, os órgãos de comunicação social, principalmente os locais e regionais, precisam de ajuda, tanto ao nível das candidaturas, como em termos de pensamento estratégico e marketing. Em suma, o futuro dos media está intrinsecamente ligado à sua capacidade de adaptação e inovação. Enfrentamos tempos desafiantes, mas também repletos de oportunidades para quem souber “navegar” a mudança.
O momento de agir, de forma decisiva e informada, colocando a tecnologia ao serviço do jornalismo, é agora!














