Por Fernando Batista, Diretor Executivo Do It On
Tem andado tudo numa ansiedade de mostrar que sabe e consegue dominar o digital! O mercado português acordou tarde, mas despertou em força. Não se sabe falar noutra coisa: likes, engagement, stories, reels. Parece que inventámos a roda da comunicação, e que antes das redes sociais ninguém se entendia. No meio desta agitação, esquecemos muitas vezes a essência das Relações Públicas Digitais: as pessoas.
Segundo a Harvard Business Review, cerca de 73% dos consumidores consideram que a transparência é mais importante do que nunca nas relações que estabelecem com as marcas no ambiente digital. Neste país, que cabe na palma da mão, mas que tem personalidade para dar e vender, as Relações Públicas sempre se fizeram no café, à mesa, com tempo. Essa cultura de proximidade, que já nos corre nas veias desde antes do Marquês de Pombal mandar reconstruir Lisboa, precisa urgentemente de ser traduzida para o digital com inteligência e bom senso. Não é só publicar conteúdos para alimentar algoritmos. É criar conversas genuínas, promover relações autênticas e gerar confiança.
A American Marketing Association reforça esta ideia, destacando que 84% dos consumidores confiam mais em recomendações pessoais do que em publicidade tradicional. O maior desafio das Relações Públicas digitais não é técnico, é humano. É saber ouvir antes de falar, entender o outro antes de tentar convencê-lo, e perceber que por trás de cada clique, comentário ou partilha, está uma pessoa com necessidades, desejos e opiniões próprias. As empresas que entenderem isto vão ganhar vantagem competitiva, especialmente num mercado pequeno como o nosso, onde a reputação se constrói lentamente, mas se destrói em segundos.
Outro erro clássico é tentar medir as Relações Públicas digitais exclusivamente em números. De acordo com um relatório da PRCA, apenas 29% dos profissionais de comunicação consideram que métricas quantitativas, isoladamente, são suficientes para avaliar a eficácia das suas campanhas digitais. “Quantas pessoas alcançámos? Quantos seguidores temos?” Claro que estas métricas contam, mas ninguém faz negócio com seguidores, faz negócio com pessoas que confiam e se identificam com o que uma marca representa. Por isso, é fundamental perceber que as Relações Públicas no digital não se fazem só de análises métricas, mas também de empatia, paciência e muita escuta ativa.
Neste contexto, a formação contínua dos profissionais não pode ser apenas técnica. É preciso resgatar a componente humana, o storytelling bem feito, a empatia digital, a arte de criar conteúdos que realmente importem às pessoas. Livros e artigos técnicos são úteis, claro que são, mas ler poesia, visitar exposições ou simplesmente conversar com quem pensa diferente também são práticas fundamentais para quem quer fazer Relações Públicas digitais com profundidade e eficácia.
Portugal tem uma oportunidade única: aproveitar esta mistura improvável de tradição relacional com inovação digital. As empresas que conseguirem transportar para o digital a autenticidade que vivemos diariamente no nosso contacto pessoal vão destacar-se no mercado. Mais do que nunca, precisamos de perceber que no digital, tal como na vida real, as relações públicas são feitas por pessoas, com pessoas e para pessoas. E é nesse entendimento que reside o verdadeiro valor das Relações Públicas digitais.














