Para quem cresceu nos anos 80 e 90, a América (nome de país que se sobrepõe ao continente) estava presente em todos os aspectos da nossa vida. Na música, do jazz ao rock (a música em português não era considerada “cool”), nos filmes de Hollywood, onde o vilão era muitas vezes russo e o herói invariavelmente americano, e no desporto, quando Michael Jordan e Magic Johnson fizeram o mundo descobrir a NBA, e Mike Tyson era o homem mais temido do planeta. Todos queríamos um skate ou uma bicicleta BTT.
O American Dream estava bem vivo, e todos nós tínhamos um primo, ou um amigo de um primo, que tinha emigrado e conseguido singrar na selva capitalista. Vivíamos já num tempo distante da II Guerra Mundial, criados num cenário de paz praticamente total (e aparentemente irreversível). A União Europeia crescia debaixo de um guarda-chuva transatlântico e podia concentrar-se no crescimento económico que fez dela, durante algum tempo, a maior zona económica do mundo.
A América criou todo um sistema económico global no qual vivemos hoje, do qual foi a grande beneficiada: a democracia mais forte, a economia mais forte e o exército mais forte. E também a marca mais poderosa do mundo, capaz de vender sonhos, hambúrgueres, filmes, refrigerantes e telemóveis em qualquer canto escondido do planeta. A América representava, para muitos de nós, o optimismo imparável, a sofisticação, o progresso – o futuro risonho de onde sairia a próxima grande inovação da humanidade.
Quando a América elegia um presidente, elegia o “homem mais poderoso do mundo”.
E eis que, num movimento súbito, o povo mais privilegiado do mundo decidiu que o sistema que construiu para si próprio era, afinal, um ataque ao seu país. Iniciou uma guerra (económica) com praticamente todo o mundo ao mesmo tempo, com o seu presidente a descrever a Europa como algo criado para prejudicar os EUA, e com o seu vice-presidente a chamar “camponeses” aos chineses. Os insultos são globais, salvando-se a Rússia, Israel e pouco mais. Zelensky passa a ditador, o défice com o Canadá passa a subsídio. A ameaça de invasão de aliados passa a ser normal.
Há quem pense que tudo isto é um plano genial para renegociar tarifas. Mesmo que fosse apenas um jogo de números, existe algo irreparável: a marca América, tal como a conhecíamos, foi afectada – provavelmente de forma irreversível. Como qualquer marketeer sabe, a reputação de uma marca demora uma vida a construir… e apenas um momento a destruir.
No meio deste caos surge uma oportunidade para a marca Europa, muitas vezes associada a valores como burocracia e lentidão. Mas a Europa é também berço da democracia e um bastião da luta pelos direitos humanos, protecção ambiental e liberdade de expressão. O Sonho Europeu não é como o American Dream. É menos vistoso, talvez menos cinematográfico – mas tem agora uma oportunidade de se tornar o porto seguro do mundo.














