A recuperação das aprendizagens na educação

por Miguel Durães, psicólogo e presidente da Direcção da Recovery IPSS

A OCDE divulgou um relatório (“At a Glance 2021”) que concluiu que os efeitos da pandemia Sars-Cov-2 Covid-19 na educação vão durar décadas.

Neste relatório, que trata dos impactos da pandemia na educação, com foco nos efeitos sobre a produtividade do trabalho e, consequentemente, na economia, a OCDE projecta uma queda de 1,5% no PIB mundial até o fim do século devido à interrupção das aulas.

O “tombo” será maior nos países que demorarem a organizar-se de modo a retomar o desempenho de antes da crise sanitária.

Existem efeitos, de curto e longo prazo, da Covid-19 na aprendizagem e sabemos já, pela comunidade científica, que aqueles de origens desfavorecidas enfrentam maiores desafios para se adaptarem às mudanças impostas pela pandemia. O encerramento de escolas tendeu a durar mais em países com resultados de aprendizagem mais baixos. Além disso, crianças desfavorecidas foram menos propensas a ter acesso a ferramentas adequadas para a aprendizagem remota, um lugar tranquilo para estudar em casa, ou o apoio dos seus pais ou responsáveis.

O estatuto socioeconómico também influencia os percursos educativos. Aqueles alunos sem, pelo menos, um dos pais com ensino superior, são mais propensos a não se matricularem em programas vocacionais de nível superior ou menos propensos a completar a escolaridade obrigatória. Aqueles sem ensino médio/secundário enfrentam desvantagens no mercado de trabalho. As crianças de origem imigrante tendem a estar em desvantagem em comparação com os seus pares nativos quando se trata de acesso e participação na educação, mesmo tendo em conta a origem social. As disparidades de género também persistem e influenciam trajectórias educacionais e oportunidades no mercado de trabalho.

Na primavera de 2020, em resposta à pandemia, mais de 190 países encerraram todos os seus estabelecimentos de ensino, afectando cerca de 90% da população mundial de alunos, o que se traduz em mais de 1,6 mil milhões de crianças e jovens. Milhões de estudantes em todo o Mundo perderam vários meses de aulas presenciais e, por consequência, perderam muitas oportunidades de aprendizagem.

Diversos estudos recentes têm mostrado que a educação promove o acesso futuro a melhores condições de saúde, empregabilidade e rendimentos. Os dados mais recentes sugerem que a pandemia gerou perdas de aprendizagem e acentuou as desigualdades entre os alunos.

Uma simulação do impacto da Covid-19 na educação, ajustada por factores de qualidade, indica que, a nível mundial, os alunos poderão ter perdido entre 0,3 e 0,9 anos de escolaridade, reduzindo o número efectivo de anos de escolaridade ao longo da vida de 7,9 para entre 7 e 7,6.

De um modo geral, com as perdas reais de aprendizagem em vários países da região europeia, vários foram os países que implementaram programas de recuperação de aprendizagens – uns com maior eficácia ao nível da minimização das desigualdades entre alunos e da recuperação das aprendizagens.

No entanto, e para o efeito, é absolutamente consensual, pela comunidade cientifica e pelos organismos competentes a nível internacional e nacional, que aconselham a reduzir e reverter os impactos negativos da pandemia a longo prazo, que os governos terão de implementar programas de recuperação da aprendizagem, proteger os orçamentos para a educação e prepararem-se para futuros choques.

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