A minha senhoria

Por João Sacadura, produtor executivo da Trix

[Prefácio: o texto seguinte foi escrito há umas semanas, no ‘antes’. Quando quase todos os preços disparavam sem grande justificação que não o aumento da procura. Sabemos todos que a situação mudou e, provavelmente, se vai inverter.
No entanto, acho que o texto ainda é muito pertinente para os tempos que se avizinham. Quanto mais não seja, pode ser uma base para uma boa reflexão do que estávamos a viver ‘antes’. Sim, antes: porque, sem sombra de dúvida, e pela segunda vez na história, teremos um AC e um DC – e não estou a falar de Antes de Cristo ou Depois de Cristo: o C é de Corona.]

Vivo numa casa alugada, da qual gosto muito, e quando fui negociar a renovação e contrato, preparado (e angustiado) para o incontornável aumento de renda, a minha senhoria (que adoro – e de quem já gostava muito antes desta conversa) disse-me uma coisa da qual nunca mais me esqueci: «João, eu já passei por muita coisa na vida, vi várias coisas acontecerem, mas há uma coisa em que acredito piamente: no equilíbrio de poderes. Hoje em dia, com este mercado doido, os poderes estão claramente desequilibrados. Antes, os senhorios tinham o poder de pedir a renda que quisessem e os inquilinos tinham o poder de alugar ou escolher outra casa. Hoje, os senhorios têm o poder de pedir o que quiserem por uma renda e os inquilinos não têm alternativa e, portanto, não têm o poder de decidir se aceitam ou não. E como acredito que o poder traz responsabilidade, eu, como senhoria, tenho a responsabilidade de garantir que o mundo funciona como eu acho que deve funcionar, e não correr atrás de um lucro fácil.»

E, após este maravilhoso discurso (que foi mais do que um discurso, foi quase um TedX), a minha querida Emília rematou: «Fazemos um aumento residual, só para dizer que aumentei, e assim calar a minha família que diz que levo rendas baixas…»

E porque vos falo da minha querida senhoria? Porque se vivem momentos de algum desequilíbrio de poder entre os players do
mercado. Há produtoras de filmes, produtoras de som, agências a aparecer como nunca. E o que fazem as novas produtoras, para ganhar novos clientes e garantir o seu lugar ao sol? Esmagam os preços, fazem dumping. E claro que oferecem um serviço cada vez melhor, ainda mais sorrisos nas reuniões, aquele mimo que todos os clientes gostam. E isso é bom, claro.

Sempre que se melhora o serviço e sempre que um projecto é mais agradável, todos ganhamos (e não é só o cliente final, somos todos).

Mas quando esmagamos os preços, e trabalhamos abaixo dos preços de custo, destruímos valor, esmagamos o mercado e criamos problemas sérios de sustentabilidade a médio prazo. Algumas produtoras não aguentarão esse embate e fecharão, com mais ou menos danos colaterais para o meio ambiente. Isso é o normal em qualquer tecido empresarial, em que há empresas que nascem e outras encerram, em que surgem novas formas de trabalhar, novos trends, novos clientes e relações. Todos têm direito a estender a sua toalha ao sol! Mas essa dinâmica, essa selecção natural, deve ser baseada em valor e não na destruição de valor.

Os anunciantes têm o poder de aproveitar este esmagar de preços para fazer o mesmo por menos, ou fazer mais pelo mesmo. A tentação é grande, claro (tal como a minha senhoria decerto teve a tentação de ganhar mais dinheiro com a renda…) e é necessário ter uma grande consciência social para resistir à tentação. Mas, por outro lado, têm a responsabilidade de manter os preços, garantir que o ecossistema empresarial não entra em colapso, não se aproveitar de quem está disposto a fazer dumping – seja para entrar no mercado ou para sobreviver mais uns meses – e pensar no seu papel a médio prazo em vez de pensar
no lucro rápido.

[Epílogo: E assim acabava o texto escrito umas semanas A.C.

E agora? Agora tenho que agradecer uma vez mais à D. Emília. Porquê? Desta vez não é por ter mantido a renda razoável (obrigado!), mas sim porque me passou a responsabilidade de agir como ela. Agora que – espero eu – num futuro próximo haverá uma retoma em que todos os técnicos, artistas e subcontratados da minha produtora estarão ávidos por trabalho, fiquei com a responsabilidade da D. Emília – não usar o ‘poder’ de (eventualmente, assim os clientes mo permitam) ter projectos para subcontratar para aumentar as minhas margens e pagar menos pelo mesmo. Tenho a responsabilidade de tudo fazer para pagar o justo e manter as margens dentro do necessário para que a minha empresa seja funcional, mas colaborar na retoma da economia. Espero que os meus clientes me ajudem.

E, mais uma vez, a mesma frase:
E aí entra a responsabilidade social da minha senhoria e o equilíbrio de poderes.
Obrigado, D. Emília.]
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