À espera do próximo Marega?

NotíciasOpinião
Marketeer
01/07/2020
15:04
NotíciasOpinião
Marketeer
01/07/2020
15:04
Partilhar

Por Sandro Rego, sócio-fundador da agência Priori – Comunicação com Propósito

A indignação deu o tom das manifestações públicas que surgiram nos Estados Unidos da América e que se espalharam pelo mundo após George Floyd, um homem negro, ser assassinado pela polícia de Minneapolis. O episódio deflagrou mais uma vez reflexões públicas sobre o racismo. Passado o primeiro mês desde a morte de Floyd, muitas empresas, em diversos países, levantaram a voz contra a discriminação. Nem todas foram bem percebidas. Acusadas de hipocrisia, acabaram enquadradas entre os que tentavam tirar algum proveito da situação por não estarem genuinamente envolvidas na causa anti-racista.

Em Portugal, onde cidadãos de algumas cidades juntaram-se ao movimento, o número de empresas que se posicionaram publicamente foi irrisório. E porquê tanto silêncio?

Talvez a explicação esteja na pesquisa European Social Survey (ESS), recentemente divulgada, segundo a qual 62% dos portugueses alimentam crenças racistas, como creditar superioridade cultural e capacidade de trabalho à origem étnica ou racial. Confrontar um tema tabu não é algo simples. Apesar dos resultados desanimadores, a pesquisa aponta claramente a saída do problema: está entre os jovens o menor percentual de pessoas com crenças racistas. De acordo com a pesquisa da ESS, 70% dos que têm entre 15 e 35 anos discorda da crença de que existem grupos raciais mais inteligentes. São eles que irão exigir cada vez mais uma posição sobre questões sociais, ambientais e até políticas das empresas.

O poder crescente desse grupo como consumidores e colaboradores a serem conquistados e retidos – aliado ao facto de que ter propósito é um caminho sem volta num mercado cada vez mais competitivo – obrigará as empresas a repensarem esse e outros silêncios que ainda encobrem a violência doméstica, a causa LGBTI+, a degradação ambiental, o preconceito contra minorias étnicas e tantas outras causas que precisam de visibilidade e apoio.

Continue a ler após a publicidade

Usando o racismo como exemplo, é bom destacar que o debate público sobre a questão ganhou espaço e defensores em Portugal com mais ênfase desde o ano passado. Surgiram histórias sobre o racismo estrutural e a discriminação que impede o progresso rumo a uma sociedade mais solidária e justa. Recentemente, o que mais mobilizou as empresas foram os insultos que o jogador de futebol Moussa Marega, do FC Porto, sofreu durante uma partida em Guimarães, em Fevereiro.

A história desencadeou uma série de iniciativas. Marcas concorrentes aliaram-se em uma campanha no dia seguinte ao triste episódio. Deixaram de lado a rivalidade e conquistaram uma vaga de elogios pelas redes sociais com internautas positivamente surpreendidos pela união em torno da luta anti-racista. Passaram-se mais de quatro meses. O que mais fizeram sobre o tema?

No ano passado, foi realizado o primeiro inquérito sobre os Hábitos de Turismo e Lazer de Pessoas LGBTI+, promovido pelo site Dezanove.pt em parceria com os guias Lisbon e Porto Gay Circuit. O inquérito apontou que marcas ou serviços que tenham uma postura inclusiva são privilegiados pela comunidade LGBTI+ portuguesa. Mais de 60% dos inquiridos prefere marcas ou serviços que veiculem uma mensagem de respeito à comunidade. O estudo também pediu aos inquiridos que indicassem, espontaneamente, as marcas que consideravam ter a maior adesão à causa. Entre as mais citadas, nenhuma empresa portuguesa foi lembrada.

Continue a ler após a publicidade

Para que não entrem num assunto apenas porque ficou evidente demais para ser ignorado, as marcas precisam trabalhar causas de forma consistente. O engajamento verdadeiro é resultado de um compromisso de longo prazo. O discurso das empresas precisa de estar reflectido em acções sobre o tema, por exemplo, em debates internos com seus colaboradores; em acções de sensibilização das lideranças sobre diversidade; na política de recrutamento a fim de criar um universo de colaboradores mais diverso; e, sobretudo, na escuta das associações que defendem a causa para perceber melhor os problemas a serem combatidos.

Esse conjunto de acções ajuda a tornar o movimento legítimo e melhora a reputação da empresa, sem causar danos à imagem. Reduz os riscos de serem taxadas de oportunistas porque não adoptaram acções concretas em torno da causa. Também é questão de tempo para que contradições nas estratégias insustentáveis apareçam e as marcas passem a figurar numa galeria de exemplos negativos porque não tomaram os devidos cuidados – nem fizeram as tarefas de casa – antes de se manifestarem publicamente.

Este é o caso da equipa Mercedes AMG Petronas de Fórmula 1 que anunciou a utilização de carros pretos nesta temporada, ao invés do tradicional prateado. Essa foi a forma que os actuais campeões usaram para declarar que se opõem ao racismo e a todas as formas de discriminação. Se fosse somente a mudança na cor do bólido, a acção poderia ser classificada como oportunista. Mas seguindo a tendência global, a Mercedes garantiu que a mudança é “uma promessa pública para melhorar a diversidade na equipa”.

Na semana passada, anunciou a formação da “Comissão Hamilton”, nome alusivo ao piloto Lewis Hamilton, bicampeão mundial e único negro no grid da categoria. Trata-se de uma parceria de investigação com a Royal Academy of Engineering dedicada a explorar como o automobilismo pode ser usado para envolver mais jovens negros e empregá-los em equipas de corrida ou em outros sectores de engenharia. A Mercedes busca, assim, com uma medida concreta, aumentar a diversidade na equipa. Actualmente, apenas 3% da força de trabalho se identifica como pertencente a um grupo étnico minoritário e apenas 12% dos funcionários são mulheres.

O desafio, como se vê, é preparar o terreno para que essa voz se levante com coerência, autenticidade e legitimidade na defesa das transformações duradouras.

Continue a ler após a publicidade

Trata-se afinal de fomentar um movimento que, alinhado ao seu propósito, precisa ser destinado para a melhoria das condições da sociedade, beneficiando não só a comunidade onde está inserida mas, de forma consistente e verdadeira, a própria empresa. São propostas que despertam nos colaboradores o orgulho de pertencer, que fortalecem a marca e geram mais negócios e valor. As empresas que tornam pública a sua legítima preocupação com a sociedade conseguem incrementar os níveis de confiança junto aos consumidores. É uma questão de sobrevivência.




Notícias Relacionadas

Ver Mais
c.async = !0; c.type = "text/javascript"; c.setAttribute("data-target", window.name || (f && f.getAttribute("id"))); c.setAttribute("data-callback", "put-your-callback-macro-here"); try { a = parent.document.getElementsByTagName("script")[0] || document.getElementsByTagName("script")[0]; } catch (e) { a = !1; } a || (a = document.getElementsByTagName("head")[0] || document.getElementsByTagName("body")[0]); a.parentNode.insertBefore(c, a); })(document, window); /* ]]> */