A cobertura mediática sobre violência contra mulheres e raparigas atingiu níveis historicamente baixos, apesar da dimensão crescente do problema à escala global. A conclusão é de um novo estudo internacional que analisou mais de mil milhões de artigos publicados online ao longo dos últimos anos a nível global e cujas conclusões foram divulgadas pelo The Guardian.
De acordo com a investigação, apenas cerca de 1,3% das notícias globais publicadas em 2025 abordaram violência misógina, o valor mais baixo registado desde 2017, ano em que começou a ser feita a análise. A cobertura do tema atingiu o pico de 2,2% em 2018, no auge do movimento #MeToo, tendo depois caído para 1,83% no ano seguinte.
Em 2020, ano de pandemia, esta percentagem tombou para 1,34%, registando uma evolução e uma descida ao longo dos anos seguintes – 2021 (1,48%), 2022 (1,51%), 2023 (1,59%) e 2024 (1,39%) – até culminar no valor mais baixo da análise (1,27%) em 2025.
O relatório, que analisou cerca de 1,14 mil milhões de conteúdos noticiosos ao longo de nove anos, aponta para a tendência de que apesar de a violência contra mulheres continuar a ser uma das violações de direitos humanos mais disseminadas, o tema permanece largamente invisível no espaço mediático.
Além da escassez de cobertura, os especialistas destacam falhas estruturais na forma como o tema é tratado, apontando que muitas notícias ignoram as causas profundas da violência de género, limitando-se a relatar casos isolados sem enquadramento sistémico, sendo que mesmo em escândalos de grande dimensão, como o caso de Jeffrey Epstein, a referência à violência contra mulheres foi praticamente inexistente em grande parte da cobertura mediática.
O estudo também evidencia um desequilíbrio na representação de vozes, com os homens a continuarem a dominar o discurso mediático, sendo citados com maior frequência do que mulheres, incluindo em temas que lhes dizem diretamente respeito.
Outro dado relevante prende-se com a evolução do discurso público, uma vez que enquanto a cobertura de violência contra mulheres diminui, termos como “ideologia de género” – frequentemente utilizados por movimentos anti-igualdade – têm registado um crescimento acentuado no espaço mediático e digital, refletindo uma polarização crescente em torno das questões de género.
Paralelamente, a investigação alerta para o aumento da violência facilitada pela tecnologia, incluindo assédio online e abusos potenciados por inteligência artificial, fenómenos que continuam subnoticiados apesar da sua expansão.
Perante este cenário, os autores defendem uma mudança estrutural no jornalismo, que passa por dar maior voz às sobreviventes de episódios de violência, reforçar a presença de mulheres nas redações e abordar o tema de uma perspetiva mais sistémica pois só assim, defendem, será possível contrariar a normalização da violência e contribuir para uma transformação social efetiva.














