Descobrimentos 2.0? Portugal pode voltar a ser o “lugar onde tudo se liga”

25ª ConferênciaConferências
Marketeer
30/10/2025
11:38
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Embora Portugal apresente ainda uma avaliação internacional moderada, tem vindo a registar um progresso positivo e consistente nos últimos anos. No entanto, é fundamental reforçar o investimento na formação. Quem o afirma é Ricardo Tomé, professor da Católica-Lisbon | Executives.

Com o tema “Portugal – O País das Conexões”, o docente iniciou a sua intervenção na 25.ª edição da Conferência Marketeer com a frase: «somos pequenos». Esta afirmação serviu de ponto de partida para desconstruir a percepção de que Portugal não o é, de facto. Ao analisar a dimensão territorial no contexto dos 27 países da União Europeia, constatou que Portugal se encontra na média, sublinhando: «Nem somos demasiado grandes, nem demasiado pequenos.»

Em relação à população, Ricardo Tomé destacou que Portugal conta com cerca de 11 milhões de habitantes, um valor semelhante ao da Áustria e ligeiramente acima da Bélgica, reforçando uma vez mais que, também nesta vertente, Portugal não é um país pequeno. Em termos de PIB per capita, observou, no entanto, que ainda faltam 15% para alcançar a média europeia, «quando medido em paridade com o poder de compra.»

Apesar de muitas vezes ser descrito como estando na «cauda da Europa», Portugal ocupa uma posição geoestratégica privilegiada, situando-se no centro do mapa. A nossa história marítima mostrou a importância da conectividade ao mundo. Tal como a Bélgica e os Países Baixos se afirmaram como polos comerciais, também Portugal desempenhou um papel importante como ponto de ligação entre diferentes rotas e culturas. Hoje, séculos depois, «Portugal continua a ser uma porta de entrada para o mundo» e tudo indica que continuará a reforçar esse papel no futuro, nomeadamente através das infra-estruturas energéticas que alimentam os data centers.

O novo paradigma das marcas

Para Ricardo Tomé, «o mundo transformou-se. Se antes se falava em marcas produto, hoje fala-se de marcas agregadoras, ou plataformas.» O orador exemplificou: «A Uber não tem carros, a Apple Music não tem músicas, a Amazon não tem produtos próprios, o YouTube não tem vídeos próprios e o Airbnb não tem casas próprias.» Embora todas estas plataformas sejam norte-americanas, não detêm o domínio absoluto. Na Europa, existem igualmente marcas relevantes, como o Spotify (Suécia), o Booking (Países Baixos), a Bolt (Estónia) ou a Vinted (Lituânia), o que mostra que não se trata de uma questão de ADN exclusivamente anglo-saxónica, já que em Espanha a Glovo também se tem destacado como uma marca global.

Numa análise às diferenças culturais entre Portugal e outros países latinos, Ricardo Tomé destacou que, em Espanha, predomina a energia, a emoção, o espectáculo, o flamenco ou o futebol. Em Itália, sobressaem o estilo, o design, a paixão, as marcas icónicas como a Ferrari ou a Gucci. Já em França, o charme, o romantismo, a sofisticação e os bons vinhos.

Em Portugal, evidenciam-se as praias, os destinos turísticos, a gastronomia, o vinho e o futebol. No entanto, o profissional alertou: «Mas será que é apenas isso?» Segundo o orador, a conectividade começa a tornar-se um traço distintivo.

Recorrendo aos estudos de Geert Hofstede e Fons Trompenaars, Ricardo Tomé comparou a cultura a uma cebola: à medida que se vai descascando até ao centro, descobre-se a essência dos portugueses. O professor apontou algumas dimensões da cultura portuguesa que se distinguem das sociedades anglo-saxónicas.

Entre as dimensões analisadas pelos dois sociólogos, destacam-se o individualismo vs colectivismo, posicionando Portugal como «moderado». A aversão à incerteza é culturalmente elevada, «contudo, reage com engenho», observou. Outro ponto forte é a comunicação, com os portugueses a demonstrarem capacidade de interpretar subentendidos e nuances. No universalismo vs particularismo, valorizam as regras, mas que, por vezes, existem excepções. No que se refere à afectividade e naturalidade, considerou que «somos muito mais ponderados.» Já a última dimensão, a relação com o tempo, «é claramente relacional e presente», no entanto, Portugal consegue trabalhar nas duas dimensões. Segundo os investigadores, «as nossas culturas estabelecem-se em resposta a problemas comuns.»

Dando o exemplo dos povos nórdicos, que trabalham com horizontes temporais de longo prazo, nos países mais a sul da Europa o foco recai em «horizontes temporais mais curtos», valorizando, sobretudo, a agilidade de trabalhar no médio prazo. Ricardo Tomé afirmou que Portugal consegue conjugar culturas de forma harmoniosa, criando pontes entre diferentes modos de pensar e agir.

Mas falta uma infra-estrutura…

Para Ricardo Tomé, falta uma infra-estrutura essencial: as competências. «É preciso continuar a apostar no skilling, reskilling e upskilling», investir em formação de excelência e ter à disposição as melhores ferramentas, tanto de soft skills como de hard skills. O académico referiu ainda que a transformação tecnológica e social que se vive irá exigir «a agilidade de compreender a tecnologia, a sociedade, a cultura e pessoas, e rapidez no ajustamento económico de um produto ou serviço.»

Perante este cenário, lançou a questão: «Qual é a nossa marca? Será Made in Portugal, Minded in Portugal ou até Powered by Portugal?»

Ainda que Portugal possua uma «dimensão geoestratégica de excelência» e uma «cultura ímpar», o professor considerou que é fundamental continuar a investir na formação, à semelhança do que fez a Suécia, que foi determinante para o seu desenvolvimento.

Nesse sentido, e reunindo todas as características, defendeu que «Portugal é o lugar onde tudo se liga», capaz de transformar a sua vocação para agregar culturas, projectos e negócios numa força que permita «escalar para o mundo», concluiu.

Texto de André Ramos

Foto de Paulo Alexandrino

*O jornalista escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico




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