“Estamos a definir o futuro do setor, com espaços que geram valor muito além do consumo”, Mário Barros, da Ingka Centres

EntrevistaNotícias
Sandra M. Pinto
14/10/2025
10:45
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Assumir a liderança do mercado do Sudoeste da Europa na Ingka Centres representa um marco importante na carreira de Mário Barros, recentemente nomeado Centres Markets Manager para esta região. Com a responsabilidade de supervisionar um portfólio que inclui centros comerciais e outlet parks em seis países, Mário Barros partilha nesta entrevista a sua visão estratégica para o futuro dos Meeting Places, o equilíbrio entre inovação, sustentabilidade e relevância local, e o papel central que Portugal desempenha nesta transformação. Uma conversa sobre liderança multicultural, evolução de carreira e o futuro do retalho como espaço de comunidade.

Por Sandra M. Pinto

Com mais de duas décadas de experiência no grupo, o engenheiro de formação revela como abraçou novos desafios e descobriu outras vocações ao longo do percurso. Acredita que o sucesso está na capacidade de adaptação, na escuta ativa e na criação de valor real para visitantes, comunidades e parceiros de negócio.

O que significado tem para si esta nova responsabilidade de liderar o mercado do Sudoeste da Europa na Ingka Centres?
Esta nomeação incorpora uma responsabilidade que engloba não apenas o desempenho operacional, mas também o desenvolvimento estratégico de mercados em seis países. Para mim, significa o privilégio de liderar uma equipa motivada e orientada para os resultados nas suas geografias a oportunidade de reforçar a relevância dos nossos Meeting Places, garantindo que continuem a gerar impacto positivo para as comunidades, os visitantes e os nossos parceiros de negócio.

De que forma esta nova posição representa uma evolução no seu percurso dentro da empresa?
Nunca pensei que a minha carreira fosse evoluir neste sentido. Sou Engenheiro Eletrotécnico de formação, mas ao longo dos anos, passei de funções mais técnicas e operacionais para a liderança estratégica de centros individuais, depois de clusters regionais. O denominador comum a todas as posições é a forma como, juntamente com as equipas, criámos uma cultura de colaboração, confiança e ambição positiva. Desafiando-nos também no nosso desenvolvimento pessoal. Esta nova função representa uma evolução natural do meu percurso, mas sobretudo a forma como a Ingka Centres acompanha o desempenho dos seus quadros, criando oportunidades de progressão na carreira, seja no país de origem ou noutras geografias.
Mais de 20 anos depois de me formar como engenheiro, e de ainda me sentir assim, vejo com claridade de que é possível aprender a gostar de fazer outras coisas, e encarar isso com naturalidade dentro da minha evolução e percurso. Deixo essa mensagem, não nos deixemos limitar por aquilo que sabemos nem por aquilo que pensamos ser a nossa vocação. Podem haver outras!

Como encara o desafio de supervisionar um portfólio tão diverso, que inclui 10 centros comerciais e dois outlet parks em seis países?
Vejo-o como uma oportunidade única. Cada mercado tem características próprias, culturas diferentes e perfis de visitantes distintos. O desafio é coordenar essa diversidade que nos complementa de forma a manter a consistência na proposta de valor, enquanto adaptamos a oferta às necessidades locais. Acredito que a chave está em combinar autonomia das equipas locais com uma visão estratégica comum, apoiada por boas práticas e inovação contínua. Somos uma equipa com mais de 20 nacionalidades, com vários perspetivas sobre o mesmo tema. Esta gestão de perspetivas e expectativas é muito gratificante de um ponto de vista de liderança e claramente permite-nos ter uma visão mais abrangente.

Quais são os principais objetivos estratégicos para os mercados do Sudoeste da Europa nos próximos anos?
Queremos reforçar a relevância dos nossos espaços como hubs comunitários e destinos de experiência completa, integrando retalho, lazer, cultura e serviços. Paralelamente, o foco será crescimento sustentável, otimização do portfólio, inovação digital e fortalecimento da relação com visitantes e lojistas. O objetivo final é criar espaços que sejam parte ativa da vida das comunidades que servimos, indo muito além da experiência de compra. A ideia final é que cada um dos nossos Meeting Places seja o local de ida, ou a primeira escolha para solução de um conjunto grande desafios, sejam estes de diversão, cultura, serviços, saúde ou retalho.

Portugal desempenha um papel relevante dentro deste portfólio. Que potencial vê no mercado português face aos restantes países sob a sua alçada?
Portugal é um mercado estratégico, com uma população muito específica e uma forte componente turística. Os nossos centros portugueses, como o MAR Shopping Matosinhos e o MAR Shopping Algarve, são excelentes exemplos de Meeting Places bem-sucedidos, combinando retalho, lazer e cultura. O potencial está em continuar a inovar e expandir estas experiências, aproveitando tanto a procura local quanto o fluxo de visitantes internacionais, reforçando Portugal como referência na região. Queremos também transportar as boas práticas de Portugal para outras geografias, assim como trazer aquilo que se faz bem lá fora e adaptar à realidade portuguesa.

Como a Ingka Centres está a adaptar os seus espaços ao comportamento atual dos consumidores, cada vez mais exigentes e digitais?
Estamos a integrar tecnologia e dados em todos os níveis: desde a curadoria do mix comercial à personalização da experiência do visitante. Aplicamos ferramentas digitais para compreender melhor hábitos, antecipar necessidades e melhorar a comunicação com lojistas e clientes. Esta abordagem permite-nos criar espaços mais ágeis, adaptados às expectativas de conveniência, interação e entretenimento dos visitantes. Procuramos também desenvolver, ciclicamente e em momentos chave do ano, como efemérides e datas importantes, um conjunto de campanhas e ativações que melhoram e inovam a nossa oferta para quem nos visita. Algumas destas campanhas são globais, acontecem em toda a europa ao mesmo tempo, outras são locais e especificas do mercado português.

Os tradicionais centros comerciais estão a transformar-se em ‘Meeting Places’. O que distingue este conceito e o que ele representa para a marca?
O conceito de Meeting Place transforma o centro comercial em espaço de encontro comunitário. Aqui, as pessoas podem comprar, divertir-se, aprender, socializar e participar em experiências culturais e de lazer. Para a marca, significa assumir um papel ativo na vida das comunidades, criando espaços relevantes, acolhedores e sustentáveis, muito mais complexos e completos que um local de consumo. Esta nova visão de Meeting Place tem como objetivo principal estreitar laços e criar relações de proximidade, seja com visitantes pontuais, com pessoas que frequentam os nossos espaços regularmente, ou com parceiros das mais diversas áreas. Assim como a praça central sempre foi o coração de localidades e comunidades, os nossos Meeting Places pretendem tornam-se no ponto de encontro moderno, onde retalho, lazer e cultura se cruzam para criar experiências que vão muito além da simples compra. Acreditamos que estamos a definir o futuro do nosso sector.

Como equilibrar a componente comercial com a dimensão social e experiencial que os Meeting Places procuram oferecer?
O equilíbrio vem de uma estratégia integrada: oferecer retalho de qualidade, com um amplo portfolio de marcas, aliado a programação cultural, áreas de lazer e iniciativas de bem-estar. Cada decisão é tomada com base na experiência do visitante e no impacto positivo na comunidade. Este último ponto é crucial para nós, e temos uma agenda muito interconectada com a comunidade que nos insere. O objetivo é criar valor para todos: lojistas, visitantes e comunidade local, reforçando a atratividade e a sustentabilidade do espaço.

Pode partilhar algum exemplo de transformação bem-sucedida de um centro num verdadeiro Meeting Place?
O MAR Shopping Algarve é um exemplo claro. A área de lazer exterior de 8.000 m², aliada a exposições culturais, workshops e rastreios de saúde, transforma o centro num ponto de encontro comunitário. As iniciativas atraem diferentes públicos, reforçam a ligação emocional com o espaço e mostram que um centro comercial pode ser mais do um destino para fazer compras.

Vai liderar uma equipa multicultural de mais de 90 pessoas. Que tipo de liderança considera essencial para gerir com eficácia equipas tão diversas? Liderança adaptativa e empática é essencial. Ser líder é um exercício de flexibilidade e adaptação ao que os outros precisam de ti em cada momento. Embora pareça complicado, é importante compreender as necessidades de cada país, cidade, Meeting Place e no fim de cada membro de uma equipa, reconhecer diferenças culturais e criar um ambiente de confiança e colaboração. O foco está em empoderar as equipas, delegar responsabilidades e criar condições para que todos possam contribuir com o seu talento, criatividade e motivação, mantendo a coesão e alinhamento estratégico, mas também permitindo que todos tenhamos oportunidade de crescimento e desenvolvimento.

Que sinergias existem entre os diferentes países sob a sua supervisão? Há espaço para uma estratégia comum ou é tudo pensado à medida de cada mercado?
Existem ambas as dimensões. Partilhamos boas práticas e conceitos comuns, como campanhas, ações, soluções de sustentabilidade e inovação digital, enquanto a nossa agenda com a comunidade local é eminentemente local, gerida pela equipa local. Mas cada mercado é único, e a implementação é sempre adaptada às necessidades locais. Esta combinação permite, manutenção de identidade, consistência e pluralidade da marca, mantendo relevância para os clientes e comunidades de cada país.

Com mais de 772 marcas e 1171 lojas no portfólio, como é feita a curadoria do mix comercial para garantir relevância local e consistência global?
A curadoria é feita de forma estratégica, equilibrando marcas globais com propostas locais. Avaliamos categorias, segmentos e tendências de consumo, garantindo variedade e inovação, mas também a capacidade para os nossos clientes poderem comparar e decidir. O objetivo é oferecer uma experiência coerente e atrativa para todos os visitantes, ao mesmo tempo que respeitamos a identidade de cada mercado e do perfil dos seus clientes

O crescimento sustentável é um dos pilares da Ingka Centres. Quais são as principais iniciativas em curso para tornar os Meeting Places mais sustentáveis?
Implementámos já 100% de eletricidade renovável nos edifícios, estamos a otimizar recursos hídricos, reduzir desperdício e apostar em soluções de mobilidade sustentável. Paralelamente, não só incorporamos no nosso processo de comercialização a procura de parceiros e lojistas com a mesma motivação, como também incentivamos lojistas e parceiros a adotar práticas sustentáveis. O objetivo é equilibrar crescimento e criar impacto ambiental positivo, garantindo que os espaços continuem a servir as gerações futuras. Este é um ponto onde temos investido bastante, quer na instalação de equipamentos mais eficientes, que nos permitem ter uma pegada menor.

Que papel têm a inovação digital e os dados na gestão dos espaços e na relação com os visitantes e lojistas?
Dados e tecnologia são centrais para decisões estratégicas, desde a curadoria de marcas à experiência do visitante. Se não sabemos quem é o cliente, o que procura, quando procura, porque procura, de onde vem, ou quanto tempo demora a vir, como é que podemos ter uma oferta que maximiza o nosso potencial? Os dados permitem-nos antecipar necessidades, fazer planeamento estratégico, personalizar a comunicação e medir impacto de ações. A inovação digital facilita também a interação com lojistas, garantindo maior eficiência e alinhamento com as expectativas do mercado.

Como antecipa que será o “centro comercial” do futuro? E qual será o papel da Ingka Centres nesse cenário?
O centro do futuro será um verdadeiro hub comunitário: espaços híbridos onde retalho, lazer, cultura e serviços se cruzam. Acredito que a Ingka Centres está na linha da frente desta transformação, com a criação dos Meeting Places que geram valor para visitantes, lojistas e comunidades, sempre com foco na sustentabilidade e inovação. Convidamos os nossos clientes e parceiros a fazerem parte desta viagem connosco. Adoramos feedback!

Que legado gostaria de deixar nesta nova fase da sua carreira?
Gostaria de consolidar uma cultura de colaboração, confiança e impacto positivo nos mercados que lidero, mas também nas pessoas que trabalham na Ingka centres com este objetivo. O legado que pretendo deixar é a consolidação do projeto de Meeting Places que temos vindo a implementar ao longo destes anos. É meu objetivo que os nossos espaços sejam referência em relevância, sustentabilidade e experiência do visitante. Quero também inspirar e ser inspirado pelas minhas equipas, parceiros, clientes e visitantes a pensar sempre na criação de valor para todos e a desenhar soluções relevantes.

Que conselhos daria a profissionais que, como você, querem construir uma carreira internacional na área de retail e gestão de espaços comerciais?
É fundamental ter foco, identificar onde queremos chegar e ter um plano de como chegar aí, mas também flexibilidade para aproveitar oportunidades inesperadas. Diria que é essencial desenvolver competências técnicas e de gestão, compreender diferentes culturas e valorizar o trabalho em equipa. Por fim, é importante ser assertivo, ter humildade, curiosidade, persistência e paixão pelo que se faz.

Em poucas palavras: qual é a sua visão de sucesso para os Meeting Places que agora lidera?
A minha visão em poucas palavras é a seguinte: Criar espaços relevantes, sustentáveis e cheios de vida, onde pessoas, comunidades e parceiros se sintam valorizados e inspirados. Meeting Places que vão muito além do retalho, que são pontos de encontro, aprendizagem e locais onde acontecem experiências memoráveis. Mas igualmente importante é que todos aqueles que trabalham neste propósito, sejam colaboradores da Ingka Centres ou das marcas e empresas que trabalham nos nossos Meeting Places, tenham a mesma experiência!




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