Nos últimos anos, a presença da inteligência artificial no quotidiano tornou-se cada vez mais profunda, sobretudo entre as gerações mais novas. Ferramentas como assistentes de escrita, Chat GPT – ou semelhantes – ou plataformas educativas automatizadas estão a transformar profundamente a forma como os jovens aprendem, pensam e interagem entre si.
Ao mesmo tempo, surgem preocupações crescentes com fenómenos como o chamado “brain rot” — uma espécie de entorpecimento cognitivo causado pelo consumo excessivo de conteúdos digitais rápidos e pouco exigentes para o nosso cérebro.
Neste contexto, importa questionar: estará o uso intensivo da IA a comprometer o desenvolvimento do pensamento crítico nas novas gerações? E, se assim for, que estratégias podemos adotar para contrariar essa tendência e garantir que as mentes do futuro não se tornem meros reflexos de algoritmos?
Diogo Miranda, manager na consultora LTPLabs, alertou para os riscos do uso excessivo da inteligência artificial (IA) pelas gerações mais novas, sobretudo no contexto educativo, numa entrevista dada à Marketeer. Nesta conversa refletiu sobre os impactos profundos da tecnologia na construção da identidade, capacidade de atenção e pensamento crítico dos jovens e como isso também os afetará enquanto consumidores.
Mas vamos ao início: a educação
O profissional faz o paralelismo com a aprendizagem da matemática que, ainda que hoje em dia se tenha uma calculadora, é ensinada com as bases de raciocínio para se fazerem os cálculos. A mesma coisa acontece com a inteligência artificial, trata-se de uma ferramenta, como uma calculadora, mas é necessário haver bases de raciocínio estabelecidas.
“Se as gerações mais novas nunca percorreram estes desafios de saber como fazer um pensamento – imaginando, por exemplo, um cenário em que, de um momento para outro, deixaríamos de ter a inteligência artificial – faltariam estas skills”, afirmou, chamando a atenção para a importância das bases cognitivas que sempre distinguiram o ser humano — como a resolução de problemas e o raciocínio analítico.
A conversa abordou também o papel crescente da IA no marketing direcionado, e como esta hiperpersonalização pode condicionar as preferências e personalidades dos mais novos. “Vamos convergir mais para o mesmo e menos divergência em termos de personalidade, características pessoais, gostos, preferências”, referiu, lamentando a “perda daquele fogacho de criatividade, da originalidade que muitas vezes as pessoas têm”.
Miranda reconhece que a IA traz benefícios claros como facilitador de tarefas repetitivas, mas sublinha a inversão de papeis que se torna um problema: “Quando se invertem um bocadinho os papeis e em vez de as pessoas aprenderem a fazer e a saberem fazer perguntas direcionadas para a Inteligência Artificial ajudar a complementar, somos nós que complementamos a Inteligência Artificial, aí a base é toda gerada, ou na grande maioria, pela Inteligência Artificial.”
O gestor alerta para um futuro onde capacidades cognitivas como a atenção e a curiosidade podem entrar em declínio — fenómeno apelidado de brain rot. “Se pensarmos no nosso cérebro como uma espécie de computador, vão haver ali peças que se calhar já não vão ser precisas, porque a inteligência artificial faz essa parte. E depois, se eventualmente precisarmos delas, elas já estão enferrujadas.”
O que fazer? Há solução?
Quanto ao caminho a seguir, Diogo Miranda defende que é no setor da educação que deve começar a mudança. Na sua perspectiva “ainda existe muito o estigma de proibir inteligência artificial”, mas a solução poderá passar por direcionar a forma como usamos a IA, ou seja, mantendo “as características únicas de pensamento crítico, de capacidade de resolver problemas”.
“Acho que, em vez de vermos a inteligência artificial como um vilão, devíamos ver como um ajudante que pode quase que exacerbar as nossas capacidades únicas, em vez de as substituir”, considera.
De acordo com o manager da LTPLabs, o segredo está em ensinar a usar estas ferramentas como uma extensão do pensamento humano — e não como um substituto. “Como é que conseguimos transformar o nosso sistema educacional para conseguir incorporar isso de uma forma positiva?”, questiona Miranda.
“Acho que do ponto de vista de sociedade, se calhar aqui pessoas já mais maduras, não tanto as crianças, mas os jovens, podem tentar manter no seu dia-a-dia exercícios, e aqui exercícios podem ser só tarefas do dia-a-dia, que continuem a estimular por estas capacidades de pensamento crítico”, começa por refletir. E explica: “Eu posso utilizar a inteligência artificial, mas em vez de lhe pedir a resposta final, posso pedir, por exemplo, opções e, entre essas, sou eu que estou a decidir qual a melhor.”
Diogo Miranda considera ainda que a IA pode ser utilizada “quase como um amigo de conversa que avalia o nosso trabalho e nos diz o que pode estar mal” e nós fazemos avaliação posterior ao que destacou a IA.
Desta forma mantemos “a nossa capacidade de resolver problemas e de pensar criticamente sobre os assuntos”, acrescenta.
“Era quase que um pequeno ajudante que nos facilitava o processo”, conclui.
A reflexão fica assim lançada: Como garantir que não nos esquecemos de pensar por nós próprios num mundo cada vez mais artificial e com a IA cada vez mais enraizada?














