Para onde caminha o turismo?

O Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, acolheu mais um primeiro pequeno-almoço debate dedicado ao universo do turismo. As diferentes visões sobre o sector em crescimento estiveram em discussão.

Texto de Sandra M. Pinto

Fotos de Pedro Simões

Lisboa, Porto, Algarve e Madeira. São estes os principais focos do turismo nacional, sendo eles os agregadores da maioria dos turistas que diariamente chegam para conhecer Portugal. Mas e o resto do País? Estará ele a beneficiar deste crescimento exponencial do número de visitantes? Onde se pode alavancar o interesse por outros destinos que não os acima referidos? De tudo isto se constrói o grande desafio do turismo hoje em Portugal, sendo este um dos temas abordados pelo grupo de trabalho da Marketeer dedicado ao turismo. No pequeno- almoço, que teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, estiveram presentes Pedro Ribeiro (director de Marketing e Comercial do grupo Dom Pedro Hotels), António Loureiro (director-geral da Travelport), Timóteo Gonçalves (General manager da Halcon Viagens), Nuno Ferreira Pires (administrador do grupo Pestana) e Pedro Costa Ferreira (presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo). Com a finalidade de se alcançar um debate mais aprofundado por parte de todos, foi decidido que nenhuma das intervenções seria atribuída directamente no texto.

Turismo: tema aberto a discussão ou não?

A afirmação de que este é um sector que não se une é recorrente. Ou porque estão em causa diferentes interesses, ou porque a concorrência, ou a visão que se tem dela, a isso levam, ou porque há mesmo um desinteresse puro relativamente àquilo que os outros players estão a realizar. Sejam quais forem as razões, a verdade «é que os intervenientes no sector não se aliam, e exemplo disso é a falta de comparência em eventos onde se discute o futuro e a realidade do turismo em Portugal». A questão foi lançada à discussão, sendo que houve por parte dos intervenientes concordância em que «muitas vezes quem é do turismo não tem grande vontade de discutir ou ouvir discutir o tema», o que poderá não ser benéfico, dada a actualidade da discussão, mas que é real.Por outro lado, começa a notar- -se um interesse crescente por pessoas outsiders ao sector, «o que não só é revelador da importância de se discutir o turismo, como se percebe que este é um sector que transversalmente toca e afecta muitos outros sectores da vida e da economia actual». Para que se possa discutir o sector dentro do sector, «é essencial e determinante existir novidade. Se não se falar nada de novo, se não se trouxer uma mais-valia, a discussão pura e simplesmente não acontece, pois não houve o germinar de interesse, a vontade de participar e a disponibilidade em ouvir». «A questão assenta no próprio ADN do sector, pois não nos podemos esquecer que estamos numa actividade que só nos últimos anos apareceu na ribalta como a salvadora do País, o que não é verdade, pois o turismo já é a bóia de salvação de Portugal faz muitos anos», o que leva a que muitos olhem para os players do turismo como pessoas que cumprem, mas que não pensam, não discutem, «e de facto, não é bem assim. É preciso mudar? Sim, é. É preciso pôr as pessoas do turismo a reflectir». A solução estará em apelar ao interesse dos sectores satélite que vivem, crescem e se desenvolvem à volta do turismo. Todos juntos rumo a um debate construtivo, para que os problemas sejam discutidos de forma plural e as soluções partilhadas de maneira conjunta e integrada.

Dados: a relevância da divulgação

Uma questão que urge dar seguimento é a obtenção de dados relativamente ao sector, «isso é importante para agregar as decisões a estes números, os quais se revelam, com o desenrolar da actividade, cada vez mais importantes ». Este é um tema de crescente importância e que devia ser mais comummente debatido, «é preciso que os organismos oficiais divulguem os dados que têm na sua posse de uma forma estruturada, algo essencial para a gestão da actividade de cada um dos players, sejam eles da hotelaria, da aviação, das agências de viagens ou dos cruzeiros». Opinião diversa também teve lugar no debate, com um dos intervenientes a defender que o problema não são os dados do Turismo de Portugal, mas sim «a quantidade total de dados que existe no mercado e que, num futuro próximo, vai originar a que não tenhamos capacidade para lidar com toda essa informação», facto que nos leva até à necessidade da organização urgente de todos esses dados.

«Nós, que actuamos no sector, não o conhecemos tão bem como devíamos, daí a necessidade de existir uma plataforma onde os dados sejam divulgados e à qual todos tenhamos acesso.» É necessário fazer de tudo isto informação para a acção e decisão que fundamentem estratégias futuras dos diferentes players. Foi referida a situação de alguns sectores satélite, «que a única coisa que fazem é recolher informações sobre os turistas que nos visitam e que com isso investem muito mais dinheiro do que os próprios players do sector », ou seja, ficam com um conhecimento muito mais profundo do consumidor do turismo em Portugal. A forma como zonas não turísticas estão a investir no marketing relacionado com os resultados do turismo é algo que reuniu consenso, como «um tema de crescente interesse e que é necessário discutir».

2017: o melhor ano da década?

Esta foi a questão que teve uma resposta unânime, sim. «Disso já ninguém tem dúvidas, veja-se o “outgoing” com as reservas a superar os bons números alcançados em 2016.» Referido como «um disparate», o early booking vem trazer dados novos à discussão e, não menos importante, aos resultados alcançados, e isto porque, «revelando um evidente crescimento do turismo assenta no facto de a procura estar neste momento a superar a oferta ». Mas importa não acontecer um baixar dos preços fora do expectável. Há uma certa apreensão relativamente ao que vai acontecer na segunda metade do ano, quando já não existirem valores de “early booking” tão altos como os verificados no boom que se viveu nos primeiros seis meses. «O cliente das viagens está hoje mais racional, pelo que procura sempre “best value” para as suas opções, enquanto o cliente de última hora desapareceu», pelo que o “early booking” é bom, se a estratégia de preço for bem conseguida. Relativamente ao MICE, há por parte das empresas uma dificuldade maior em reservar, «pois as reservas neste tipo de investimento são feitas a um ano e os hoteleiros não as estão a efectuar com receio de terem o hotel cheio».

Concentração de mercado

Há uma evidência de que em todos os sectores, tirando o turismo, existe concentração de mercado. Qual será o motivo que alavanca esta realidade do universo do turismo? «Relativamente à distribuição, há de facto muito pouca concentração e nota-se o fenómeno do afastamento de alguns grupos económicos relativamente a este tema, mas há um problema de dimensão na distribuição turística em Portugal, que contraria a ideia de economias de escala.» E isto, por duas razões, «por parte dos custos, do ponto de vista do custo relativo; e depois relativamente à margem, sendo que não há dimensão em Portugal se não acedermos a dois subsectores ou segmentos, o Estado e as grandes empresas, que juntos provocam uma margem muito menor porque esmagam o preço e têm prazos de pagamento muito piores», algo classificado durante o debate como «contranatura». Quem pretender ter dimensão, ou trabalha estes dois segmentos anteriormente referidos, ou não tem, e, quem o fizer e pretender ter lucro, baixa a margem relativa e fica com piores índices de tesouraria. «Havemos de conseguir contornar este problema, tendo a concentração como objectivo.» Relativamente à hotelaria «surgem os fundos, os quais impediram uma muito maior concentração nesta área de actividade do sector do turismo nacional».

Artigo publicado na edição n.º 250 de Maio de 2017.

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