O sorriso por detrás das máscaras vale mil calls

“Energy, attitude and personality cannot be remoted through even the best fiber optics lines.”

Jerry Seinfeld escreveu esta frase num artigo de opinião de uma edição de Agosto do “New York Times”.

Ele estava a referir-se à debandada de actores e outros artistas, de Manhattan para os subúrbios, mas a frase podia facilmente aplicar-se ao coração de qualquer agência criativa. O talento pode ser inato, mas se não for alimentado, questionado, desafiado, definha. As melhores ideias, aquelas que mudam alguma coisa, seja uma percepção, um comportamento ou o mundo, surgem da disrupção e não apenas da continuidade. As melhores ideias provocam revolução. E as revoluções dificilmente se fazem sem o confronto de ideias, ao vivo e a cores.

Acredito piamente (e tenho tentado aplicar o princípio em todos os departamentos criativos que dirigi) que a diversidade fomenta a criatividade. Pessoas de backgrounds diferentes, idades diferentes, critérios diferentes, pontos de vista opostos, conseguem ir mais longe. Mas, muitas vezes, as boas ideias não chegam apenas pelo debate entre estas pessoas. Muitas vezes surgem porque alguém ouviu o debate e meteu a colher onde não era chamado; porque alguém atirou uma boca para o ar, porque alguém espreitou por cima do ombro de outro alguém. E o Teams ainda não tem um botão para este tipo de interacção. O trabalho faz-se, as tarefas cumprem-se, mas o brilhantismo aparece?

Sem negar o rasgo individual ou o excelente trabalho das equipas à distância, que é inegável e louvável, acho que começa a faltar-nos a energia de grupo que potencia a nossa diversidade e amplifica a criatividade individual. Agora, é mais fácil aceitar que “dadas as circunstâncias” um trabalho assim-assim é aceitável; porque “vivemos tempos inéditos”, cedemos mais facilmente à sentença de morte de uma boa ideia às mãos de um cliente à distância. Tal como naquele botão do Teams, mais facilmente cedemos o controlo e deixamos que as ideias deixem de ser um pico para se tornarem numa pequena curva achatada e pouco visível. Adoraríamos ver isto acontecer na saúde mas, nunca, na criatividade.

É verdade que tudo isto não passa de uma constatação e, sim, também de um lamento. Tal como tantas outras pessoas em tantas áreas quero voltar o mais depressa possível às coisas boas pré-pandemia – e deixar para trás tantas outras más. Tenho a certeza que muitas pessoas na nossa área de actividade, do lado das agências ou do lado das marcas, estão a sentir o mesmo. A falta do fervilhar da interacção humana presencial que acrescenta valor ao trabalho, a conversa de circunstância que conduz ao epá, isso deu-me uma ideia, não fazem falta na funcionalidade ou no cumprimento de tarefas, mas desde quando é que as actividades criativas podem ser reduzidas ao comprimento de tarefas?

Nas últimas duas semanas tenho vindo à agência. Eu e mais três ou quatro, nem todos criativos. Mas só isso, só o comentar não programado, a piada por impulso, o sorriso por detrás das máscaras vale mil calls. Aqui do meu lugar consigo ouvir outro director criativo numa conversa online sobre um tema no qual não estou envolvida. E só me apetece ir lá e dar a minha opinião. E vou. Assim que acabar de escrever este texto. Pelo meu pé e não através da fibra.

Judite Mota
CCO na VMLY&R

judite.mota@vmlyr.com

Artigo publicado na edição n.º 290 de Setembro de 2020

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