Opinião de Marco Gouveia, consultor e formador de Marketing Digital, CEO da Escola Marketing Digital e autor do livro “Marketing Digital: O Guia Completo”
Ah, Portugal nos anos 2000… um país que ainda respirava novelas brasileiras e rádios cheias de boys bands e superstars, mas já sentia o cheiro da internet. Os mais velhos passavam as tardes a ver as novelas e os jovens descobriam blogs, fóruns e portais onde cada publicação, comentário ou discussão eram quase um acontecimento nacional.
As revistas (Maxmen, Blitz, Bravo, entre outras) ditavam tendências e estavam presentes nas paredes dos quartos, os Nokia com jogo da cobrinha dominavam as ruas, e o MSN Messenger era quase uma extensão do corpo: um “ping” podia mudar o humor do dia. Descarregar músicas de sites piratas era uma aventura que tinha dois desfechos possíveis, ou tinhas a música que querias ou apanhavas um vírus que te deixava o PC a soar como uma rave.
As Páginas Amarelas eram sagradas. Se querias encontrar um fornecedor, uma empresa ou até um restaurante, lá estavam elas, grossas e amarelas, à espera de serem folheadas. E quando uma marca aparecia online (eram muito, mas mesmo muito poucas), era como se tivesse saído das Páginas Amarelas para um outro mundo, o novo mundo digital: todos olhavam, comentavam e, se fosse boa, até partilhavam com os amigos pelo MSN. O digital era um deserto quase como víamos nos filmes do Faroeste, pouco se lá passava.
Mas o marketing digital estava a nascer. As empresas (poucas) começavam a entrar neste novo mundo: cada site era um projeto épico, cada newsletter um ato de coragem, cada banner um teste à paciência dos designers (este último ainda não mudou, coitados!). No final, cada sucesso era comemorado como se fosse uma final do Euro, e cada falha era uma lição aprendida no terreno.
E lá estava eu, a começar com um blogue sobre os Morangos com Açúcar. Não havia KPIs, algoritmos ou dashboards; havia pura intuição, criatividade e muito entusiasmo. Cada comentário, email ou clique era motivo de festa. E quando ganhei os primeiros cêntimos com o Google AdSense? Isso é que foi excitação!
Hoje, em vez do MSN temos WhatsApp, em vez do mIRC e do Hi5 temos Instagram e TikTok, e em vez de pequenos blogs artesanais temos estratégias multicanal complexas e dashboards que nos dizem até quantos segundos alguém hesitou a olhar para uma imagem. Medimos tudo, prevemos tudo, segmentamos tudo… Uau, o progresso! Mas aquela surpresa genuína de ver alguém interagir com algo que criaste sem filtros nem algoritmos? Isso é impagável.
Comparar os anos 2000 com 2025 é quase como comparar um Fiat 600 a um Tesla: o carro é mais rápido, mais seguro, mais eficiente… mas não faz sentir a mesma emoção de andar a 20 km/h com a cabeça fora da janela a ouvir Da Weasel.
Ainda assim, a essência do marketing digital continua a mesma: conectar pessoas e marcas de forma memorável. E se fecharmos os olhos, ainda conseguimos ouvir o toque polifónico do Nokia, o som do modem a discar e sentir aquela excitação de descobrir que alguém, do outro lado, leu e gostou do que criámos. E isso, para mim, continua a ser mágico.
Partilha este artigo com alguém que ainda se lembra de procurar negócios nas Páginas Amarelas, perguntar “dd tc” no mIRC, de ter posters da Bravo na parede e de ouvir Da Weasel com o som cheio de ruído num Fiat 600. Vai ser bonito ver a nostalgia a bater mais forte do que uma “cutucada” no MSN.














