“A nossa estratégia baseia-se numa abordagem de ‘visibilidade seletiva'”, Klaas Van Tilburgh e Orlando Chouzende, da Thilburg

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Sandra M. Pinto
29/01/2026
09:45
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Sandra M. Pinto
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A Thilburg é uma marca que nasceu da ambição de unir património, minimalismo e funcionalidade no universo do design para casa. Criada por Klaas Van Tilburgh, diretor criativo e head of Design & Brand Image, em parceria com Orlando Chouzende, diretor de operações, a marca escolheu Portugal como base criativa e produtiva, explorando o talento artesanal local para transformar ideias em peças intemporais.

Por Sandra M. Pinto

Com uma estética silenciosa e sofisticada, que privilegia materiais, formas e texturas sobre ornamentos e cores, a Thilburg propõe um conceito de “luxo discreto”, onde cada detalhe é pensado para oferecer conforto, presença e rigor. Nesta entrevista, Klaas e Orlando explicam a filosofia por detrás da marca, a colaboração com artesãos portugueses e os desafios de conciliar inovação, tradição e minimalismo, revelando ainda os próximos passos da marca no panorama do design europeu contemporâneo.

Como nasceu a ideia de criar a Thilburg e por que escolheram Portugal como casa criativa e produtiva da marca?
Klass: A Thilburg nasceu do meu desejo de criar uma marca de acessórios para casa que oferecesse novos clássicos. Sendo um designer que vive em Paris, mas que frequentemente visita Portugal, partilhei o meu objetivo com o Orlando Chouzende, que é hoje meu sócio e que vive em Portugal e conhece bem a indústria do país.
Orlando: Portugal oferece um ecossistema artesanal único, onde o património não é uma peça que pertence a um museu, mas sim uma habilidade viva e pulsante. A proximidade com o artesanato permitiu transformar uma intenção abstrata numa realidade tangível e de alta qualidade. Portugal é o único lar lógico para a marca.

De que forma descrevem a missão da Thilburg no panorama do design europeu contemporâneo?
Klaas: A Thilburg quer contar uma história europeia onde o património e a modernidade se cruzam. Não estamos interessados em tendências sazonais, queremos contribuir para a perspetiva do design a longo prazo. Vemos a Thilburg como uma ponte entre a precisão da estética do norte da Europa e as tradições emotivas e orientadas para os materiais do sul.

A Thilburg tem uma estética silenciosa e intemporal. Para vocês, o que significa “menos é mais”?
Orlando: O Klaas é um verdadeiro esteta. O “menos é mais” não significa ausência, mas sim precisão daquilo que permanece. Significa que, quando se elimina o ruído das cores e dos ornamentos, a alma do objeto – a sua forma, textura e material – deve ser perfeita.
Klaas: Trata-se da disciplina e fazer uma afirmação discreta e não ruidosa.

O conceito de “luxo discreto” é central na marca. Como o definiriam e de que forma ele se reflete nas vossas peças?
Klaas: O luxo discreto é o privilégio da substância acima do espetáculo. É uma experiência destinada ao proprietário, não ao observador. Nas nossas peças, isso reflete-se no toque fresco do mármore Ruivina ou na forma como um vaso de barro preto absorve a luz. É um luxo que não precisa de se anunciar para ser reconhecido.

A coleção More or Less evita cores e ornamentos. Qual foi a inspiração por detrás desta abordagem minimalista?
Klaas: Queríamos contestar a ideia que as pessoas têm do preto nos objetos de decoração, que muitas vezes é assustadora. Tirando a cor, deixamos que os materiais falem por si. O preto nunca é só preto, é um espectro de nuances. Nesta coleção, o preto aparece na porosidade do barro de Bisalhães, nos veios da madeira ou na trama da lã Burel. Isto leva-nos a olhar com mais detalhe para as peças.

Como conseguem equilibrar funcionalidade, presença e rigor em cada objeto?
Orlando: É um processo de refinamento, garantindo que cada linha tem um propósito estrutural e que cada escolha de material seja intencional.
Klaas: O rigor dita a precisão técnica e garante, naturalmente, a funcionalidade, sem a necessidade de ornamentação superficial. A presença surge então dos materiais e da silhueta da peça: escultural e intemporal.

Há alguma peça da coleção que tenha detalhes ou características que passam despercebidos à primeira vista?
Klaas: A maioria das nossas peças esconde detalhes ‘secretos’. Por exemplo, a forma como o queimador de incenso em mármore é cortado foi um verdadeiro processo de engenharia. Há um rigor discreto em todas as peças que não é imediatamente visível, as nossas peças levam o seu tempo a revelar os seus detalhes.

Como foi receber o feedback do público e do mercado durante a estreia da coleção na Lisbon Design Week?
Klaas: Lembramo-nos disso como um momento de validação após meses de árduo trabalho. Ver as pessoas a interagirem com as nossas peças confirmou que há apetite por um design discreto e intencional.
Orlando: Foi o palco perfeito para nos apresentarmos a um público exigente.

Como escolhem os materiais com que trabalham e qual a importância da relação com a matéria na Thilburg?
Orlando: Selecionamos os materiais que têm uma história e uma “verdade” sensorial. Procuramos elementos locais que ofereçam uma experiência tátil – como a profundidade da pedra Brecha de Leiria ou a honestidade crua do couro ou do metal.
Klaas: Os materiais têm sido, quase sempre, o ponto de partida para as nossas criações. O material ditou a forma do objeto.

Existe algum material ou técnica artesanal portuguesa que tenha marcado profundamente o desenvolvimento das vossas peças?
Orlando: Dando apenas um exemplo, o barro preto de Bisalhães tem sido particularmente influente. O antigo processo de cozedura “com fuligem” produz um acabamento de beleza hipnotizante que se alinha perfeitamente com a nossa estética “incolor”. Representa exatamente o que Thilburg defende: uma técnica antiga renascida numa silhueta contemporânea e minimalista.

De que forma colaboram com os artesãos e oficinas portuguesas no processo de criação?
Klaas: É um diálogo constante. Não nos limitamos a enviar um desenho técnico e esperar pelo resultado. Passamos muito tempo nas oficinas, aprendemos as limitações e as possibilidades do ofício. Esta colaboração é um equilíbrio entre a nossa visão criativa e a experiência geracional dos artesãos. É um processo de respeito mútuo.

Quais foram os principais desafios de trabalhar com produção artesanal local e como os superaram?
Klaas: O maior desafio foi incentivar os artesãos a sair da sua zona de conforto tradicional e aplicar técnicas antigas às nossas geometrias minimalistas e não convencionais. Superámos isso ao construir uma base de confiança mútua, provando que as nossas silhuetas ‘novas e originais’ são uma homenagem às habilidades que têm trabalhado ao longo dos anos e não um afastamento.
Orlando: Com o decorrer do tempo, também dominamos a arte da paciência, aprendemos que em Portugal “amanhã de manhã” é um prazo menos intransigente do que na maioria dos outros países.

Como é o vosso processo criativo? Como equilibram a parte do design com a produção?
Klaas: O processo começa com uma fase de design, uma intenção ou, às vezes, uma visão bem clara. Pode levar tempo, mas assim que os primeiros esboços são feitos, passamos para as oficinas. Ao tratar os artesãos como nossos parceiros de design, garantimos que as ambições criativas sejam fundamentadas na realidade técnica.

Existem rotinas, filosofias ou pequenas práticas que guiam o desenvolvimento de cada peça?
Klaas: A filosofia é basicamente uma “dieta de design”: cortar o excesso até que as partes mais interessantes do objeto permaneçam. Depois adiciono apenas o que sinto que vai dar à peça a sua singularidade. A minha única rotina real é partilhar os designs com o Orlando, como parceiro de negócios que não tem formação em design, a perspetiva externa desafia muito as minhas suposições estéticas exageradas.

Como imaginam a evolução da Thilburg nos próximos anos?
Orlando: A Thilburg vai estabelecer uma presença internacional sólida, passando as suas raízes europeias para uma escala global, de forma constante e inteligente. Tornando-se uma marca de referência para clientes que valorizam uma abordagem artesanal, original e intemporal em detrimento da visibilidade no mercado de massas.
Klaas: Do ponto de vista do design, a Thilburg permanecerá firme na abordagem sem cor. O próximo marco vai ser o lançamento de uma nova coleção em maio de 2026 durante a Lisbon by Design. Depois da atmosfera melancólica do lançamento em 2025, estamos muito entusiasmados por apresentar a extensão da nossa coleção, desta vez banhada pela luz crua e sem remorsos do sol português.

Qual é a estratégia da Thilburg para dar a conhecer a marca e chegar a um público mais vasto?
Orlando: A nossa estratégia baseia-se numa abordagem de “visibilidade seletiva”, como foco em presença de alto impacto e colaborações estratégicas. Preferimos uma narrativa de construção lenta, que permite que a qualidade da coleção fale por si, priorizando a descoberta autêntica em detrimento da saturação do mercado de massa.

De que forma comunicam os valores e a filosofia da marca, seja através do marketing, do storytelling ou das redes sociais?
Klaas: Mantemos uma “discrição digital” que corresponde à nossa estética, utilizando as redes sociais como uma curadoria e não um megafone promocional. A nossa narrativa centra-se na viagem crua e tátil dos materiais para criar uma sensação de transparência e profundidade. Ao dar prioridade a narrativas visuais de alta qualidade e não tanto ao ruído constante, convidamos o nosso público a descobrir os valores da marca ao seu próprio ritmo.

Que sentimento ou experiência gostariam que o público associasse à Thilburg e como isso fortalece o valor da marca a longo prazo?
Uma sensação de “elegância sóbria”. Queremos que a experiência da Thilburg seja calma e com intenção. Quando alguém leva uma peça Thilburg para casa, não está a apenas a comprar mobiliário ou peças decorativas, está a adotar uma peça intemporal e bem pensada que, esperemos, permanecerá com o comprador por gerações. É essa a nossa visão a longo prazo.




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