O embaraço de comprar roupa em segunda mão

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31/01/2022
09:30
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O embaraço de comprar roupa em segunda mão

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Por Susana Costa e Silva, docente da Católica Porto Business School

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A indústria conhecida como fast fashion é normalmente caracterizada pela existência de produtos de baixa qualidade, com colecções lançadas de forma frequente acompanhando as últimas tendências da moda, com design apelativo e cujo o preço é relativamente baixo. A maior crítica endereçada a esta indústria, e que tem começado a ser considerada com veemência por parte dos produtores, tem a ver com as preocupações ambientais. De acordo com a Greenpeace, a produção de uma t-shirt é responsável pelo consumo de 2700 litros de água, podendo a produção de uns jeans chegar a gastar 10 mil litros. Num ranking de países com roupas por usar nos guarda-roupas, segundo a Vogue, Portugal está no 11.º lugar, com uma cultura de tratar roupas usadas como lixo. Aparentemente, Portugal lança para o lixo todos os anos mais de 200 mil toneladas de produtos têxteis.

Face a estas preocupações, muitos consumidores vêm procurando soluções baseadas na economia circular, onde se insere o mercado dos produtos de moda de 2.ª mão. Este mercado era, até há relativamente pouco tempo, realizado unicamente no âmbito de feiras locais como o flea martket e as suas vendas eram sobretudo realizadas consumidor-a-consumidor, quer no mercado físico quer no mercado online. No online, tínhamos ainda os receios acrescidos da ausência de toque, da fraude associada aos meios de pagamento, envio sem o respectivo recebimento (e vice-versa), do risco associado a receber um produto em piores condições do que o indicado, num tamanho ou cor diferentes, etc. Mas também havia o risco associado à devolução, ou outras condições relacionadas com a logística e distribuição. Porém, apesar dos riscos associados a esta forma de comércio, nomeadamente através dos canais digitais, parece não restar dúvida de que a tendência da compra de produtos em 2.ª mão veio para ficar, com o aparecimento de plataformas que surgiram neste mercado, intermediando a relação directa entre compradores e vendedores.

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Assim, apesar desta ligação directa continuar a existir, a verdade é que a procura cresceu maioritariamente com novos players que se instalaram na indústria intermediando agora a relação entre quem compra e vende. Com plataformas como o marketplace do Facebook, a Thread Up e a Vinted (o primeiro unicórnio lituano, nascido em 2018), o mercado de retalho de moda em 2.ª mão continua a crescer e assim deverá continuar nos próximos anos, havendo estimativas que o posicionam em mais de 50 mil milhões de euros já no próximo ano.

Todavia, para que estas expectativas se concretizem, ainda há um longo caminho a percorrer e muito passará sem dúvida por esforços conjuntos de empresas e governos no sentido de alterar o actual mindset dos consumidores. Será necessário, antes de mais, compreender o que leva os consumidores a optar por produtos em 2.ª mão,« e o que os impede de avançarem, pelo menos para já, com esta opção. Um dos aspectos que maior obstáculo parece levantar é a falta de experiência em relação a este tipo de compra. De facto, vemos muitos jovens já experientes, mas fora desse grupo etário, a história é outra… Num estudo conduzido em Portugal em 2020, e publicado em 2021, no International Journal of Retail and Distribution Management, Portugal apresentou-se como um país onde assumir que  as roupas adquiridas já pertenceram a outras pessoas é um dos principais obstáculos à compra destes produtos.

Paralelamente, questões higiénicas e a apresentação dos produtos no espaço (no caso das lojas físicas) também se apresentam como factores contra, sendo ainda de destacar o embaraço social que se afigura como um dos maiores entraves: os portugueses não só não gostam de saber que estão a comprar um produto que já foi usado por outra pessoa (ainda por cima desconhecida, dado que nalguns contextos – no máximo – admite-se a passagem de roupa entre irmãos ou entre primos), como morrem de vergonha de serem vistos numa loja de produtos de 2.ª mão, sobretudo numa loja física.

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Os casos de lojas físicas mais conhecidas em Portugal são as lojas “Humana”, que contam já com 15 unidades em Lisboa e Porto. Claro que a procura por um bom negócio, uma peça única, um artigo vintage, uma raridade que assenta perfeitamente e faz brilhar, ou uma bagatela como um casaco de pele da Timberland por 30 euros ou uma sweatshirt da Hollister por 5 euros, continuam a ser as principais motivações para a compra, segundo os mais habitués. Mas o preço ou as motivações económicas jamais serão evocadas por quem ainda faz do embaraço um travão à procura pelas opções mais sustentáveis, num planeta que precisaria actualmente de 1,7 vezes mais recursos para ser capaz de regenerar aquilo que consumimos.

Enquanto continuarmos vergados ao embaraço, caminhamos alegremente a achar que as alterações climáticas são coisas para os cientistas resolverem e que não há nada sobre isso que possamos fazer.






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