Marketing revolucionário: como transformar um tabu num negócio multimilionário

Notícias
Marketeer
14/07/2025
21:05
Notícias
Marketeer
14/07/2025
21:05


Partilhar

Nos anos 1920, uma jovem nos Estados Unidos confessava desconcertada num jantar: “Gostava que alguém me explicasse o que é Kotex.” Na altura, ninguém o faria, Kotex era um segredo, um código para algo tabu e quase “inominável”. Mas Kotex viria a tornar-se uma das marcas mais conhecidas de pensos higiénicos no mundo.

Como revela Sharra Vostral no seu livro Under Wraps, uma das missões centrais dos produtos menstruais, pensos, tampões, copos, é a discrição. O ciclo menstrual, durante muito tempo, foi um tema que o mundo exigia que ficasse escondido. E as mulheres tiveram razões poderosas para o manter em segredo.

Por exemplo, em 1868, o vice-presidente da Associação Médica Americana alertava que não se podia confiar nas mulheres médicas durante a sua “doença” mensal. Ou cinco anos depois, o médico Edward Clarke sugeria que as meninas deviam ser afastadas das aulas durante o período menstrual, pois era demasiado exigente pensar e menstruar ao mesmo tempo.

Apesar da existência de tampões desde a Antiguidade, feitos de lã na Roma antiga, de fibras vegetais na Indonésia, papel no Japão ou papiro no Egito, a maioria das mulheres fazia uso de soluções caseiras, muitas vezes reutilizando tecido, o que hoje sabemos que pode causar infeções graves.

No final do século XIX surgiram os primeiros pensos higiénicos industrializados: Johnson & Johnson lançou “Lister’s Towels” em 1896, e a loja londrina Harrods vendia “Hygienic Towelettes” um ano antes. Ainda assim, estes produtos tiveram pouca adesão, pois o constrangimento social e o custo levavam as mulheres a continuar a usar soluções caseiras.

A viragem veio com a Primeira Guerra Mundial, quando a Kimberly-Clark desenvolveu o “cellucotton”, um material mais barato e absorvente feito de polpa de madeira para feridas. Ao perceber que enfermeiras usavam o cellucotton para fins pessoais, a empresa arriscou e lançou o produto com o nome “Kotex”, uma combinação de “cotton” e “texture”, garantindo que poucos perceberiam do que se tratava.

Kotex tornou-se rapidamente popular, respondendo às necessidades das mulheres modernas que já trabalhavam fora de casa e queriam um produto prático, descartável e discreto. Contrariando a opinião do Dr. Clarke, as mulheres mostraram que podiam pensar e menstruar sem problema.

O estudo pioneiro da Lillian Gilbreth, em 1927, reforçou que as mulheres queriam um produto embalado discretamente, para que pudessem usar sem constrangimentos.

Mas a publicidade começou a ganhar terreno. Na década de 1930, as campanhas publicitárias, embora eufemísticas, tornaram o assunto mais presente na cultura popular.

Na década de 1930 surgiram os primeiros tampões comerciais (“Tampax”) e, em 1937, a primeira copa menstrual foi patenteada pela americana Leona Watson Chalmers.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os produtos menstruais foram ainda promovidos como forma de as mulheres poderem contribuir para o esforço de guerra, marcando um novo patamar na sua aceitação. Hoje, estima-se que apenas nos EUA sejam gastos mais de 3 mil milhões de dólares por ano em produtos de higiene menstrual.

Apesar dos avanços, o estigma não desapareceu. Em muitas partes do mundo, a menstruação continua a ser motivo de vergonha e exclusão.

O caso do indiano Arunachalam Muruganantham, que em 1998 inventou uma máquina para fabricar pensos higiénicos baratos, é paradigmático. Apesar da resistência inicial da sua família e da comunidade, a sua inovação permitiu fornecer produtos acessíveis a milhares de mulheres, ajudando a combater a exclusão escolar e social causada pela falta de acesso a produtos menstruais.




Notícias Relacionadas

Ver Mais