Dos Erros

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12/02/2010
12:07
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tiagoviegasSendo certo que não faltam nesta indústria pessoas com o condão de me irritar o juízo (a irritação surge aqui, claramente, como um eufemismo para uma outra expressão que, pese embora não parecer bem escrevê-la nestas linhas, seria bastante mais adequada), poucas conseguem fazê-lo de forma tão completa (ou holística, como se diz agora) como aqueles que nunca erraram.

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Primeiro, porque provavelmente é mentira: é impossível trabalhar nesta indústria e não passar a vida a errar. E depois porque se por acaso for verdade, tenho sérias dúvidas que essa pessoa alguma vez tenha feito um trabalho decente na vida.

A ver se me explico: tenho para mim que sou o que sou e valho o que valho para a minha agência e para os meus clientes pela quantidade imensa de vezes que errei.

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E, senhores, se errei.

A quantidade de trabalho mau, desajustado, desadequado, com resultados comerciais mas sem valor para a marca, com valor para a marca mas sem resultados comerciais – e, o que é pior, sem uma coisa nem outra – que já fiz na vida chegaria para fazer um (mau) programa de televisão. Com duas temporadas inteiras. E um especial de Natal.

Mas de todas as vezes que errei – e aí está o valor do erro – aprendi alguma coisa. E esse nunca mais o cometi de novo.

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Prefiro (e vou preferir sempre) ter ao meu lado alguém que tenha errado muito (e aprendido com isso) do que alguém que só tenha acertado (primeiro porque provavelmente é mentira e eu não gosto de mentirosos; depois, porque se não for mentira, foi muito provavelmente pura sorte).

E o mesmo se aplica (ou deveria aplicar) aos clientes. Por mais anos que passe a trabalhar, nunca vou conseguir perceber que mal faz entrar numa reunião e dizer sem rodeios a um cliente que a campanha que eu criei, propus e lhe vendi, pura e simplesmente não funcionou.

Em vez disso gastam-se reuniões inteiras (e a minha paciência) a tentar explicar aos senhores que também não se pode dizer que a campanha tenha corrido mal – apenas que, eventualmente, porventura, talvez quem sabe, se calhar, não correu propriamente… bem.

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Chiça, penico, cruz credo, virgem santíssima. Assuma-se que ficou uma merda, perceba-se o porquê e compense-se da próxima vez.

Sim, eu sei. Há sempre o receio que, se assumirmos que a coisa não funcionou, o cliente diga que não quer pagar ou, pior ainda, se vá embora. Mas devo confessar-vos, da minha curta experiência, ainda está para chegar o dia em que tal acontecerá (aliás, bem pelo contrário).

Não há nada mais irritante que estar a olhar para uma coisa e ter alguém do outro lado a dizer que aquilo que estamos a ver não é bem assim.

Disse uma vez um tal de Bill Bernbach* que “a small admittance gains a large acceptance”. E não é que o senhor tinha razão**? Não há nada mais salutar para uma relação de parceria (palavra muito em voga, também, nos dias que correm) do que poder falar abertamente e sem medos do que correu mal.

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Algo que não só é verdade para a relação entre agência e cliente, mas também para a relação das marcas com os consumidores. Ele há coisa mais refrescante que ver uma marca a assumir que tem, como todas, os seus defeitos? Mais que não seja, porque é um sinal de que estará a trabalhar para os resolver.

Mas são casos raros. Vivemos num mundo sem grandes erros, onde errar é errado. E, portanto, onde há medo de errar. Os criativos porque acham que serão despedidos. As agências porque acham que serão dispensadas. Os clientes porque acham que serão despromovidos. E assim por diante pela cadeia alimentar acima.

E assim vamos andando, contentes e seguros e medíocres.

Este texto, por exemplo. Se calhar foi um erro. Mas alguém tinha que o fazer.

* Para os mais desatentos, o senhor Bill Bernbach era o B em DDB, agência que hoje pertence ao grupo Omnicom.

** O senhor em causa, para os mais desatentos, costumava ter razão muitas vezes




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