Debate: A saúde precisa de ser guiada

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Marketeer
03/03/2026
09:32
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O crescimento dos seguros de saúde e dos prestadores privados, aliado à crise do SNS, tem conduzido a alterações no consumo dos recursos de saúde, que colocam em causa a sustentabilidade do sector como um todo.

No sector da Saúde, o ano de 2025 ficou marcado, em termos mediáticos, pela tão badalada crise do Serviço Nacional de Saúde (SNS), pelo encerramento de urgências, pelos tempos de espera elevados, por sucessivas greves, por partos em ambulâncias, entre outros temas e acontecimentos que adensaram as dúvidas em torno da sustentabilidade de todo o sistema. Que impacto (directo e indirecto) é que todo este mediatismo teve na operação e percepção das empresas e subsectores que compõem este ecossistema? E que soluções para o futuro?



Estes foram alguns dos temas que deram o mote ao mais recente pequeno-almoço debate da Saúde promovido pela Marketeer. Os participantes à volta da mesa assumem que, para os prestadores do sector privado, o impacto foi directo e imediato,em especial durante o pico da gripe, em que se verificou uma afluência acima do normal às urgências – consequência directa da incapacidade do SNS. «As pessoas sentem muita necessidade de ter um seguro de saúde para terem acesso ao privado, porque no público têm cada vez menos resposta. Mas o privado também não tem uma oferta infinita e, portanto, sempre que o SNS entra em ruptura, sente-se um impacto directo. A elasticidade não é grande e o sector sofre depois os efeitos negativos – mesmo não igualando os tempos de espera do SNS –, nomeadamente alguma insatisfação dos clientes, que estão habituados a ter um nível de serviço melhor do que aquele que têm nas alturas de pico», frisam os responsáveis ouvidos pela Marketeer.

O que decorre destas situações é, em certa medida, um problema de gestão de expectativas, porque «as pessoas acham que o sector privado tem a obrigação de servir todos aqueles podeque o SNS não consegue». Mas a verdade é que a capacidade dos prestadores privados é, também ela, limitada, não apenas do ponto de vista das operações, mas também dos recursos humanos, que é um problema estrutural. «Efectivamente, nem sempre conseguimos dar resposta», reiteram, ressalvando que as pessoas ainda «distinguem o que é o público e o privado».

A verdade é que, na última década, o número de clientes com seguro de saúde disparou em Portugal, ultrapassando já a fasquia dos 3,7 milhões, de acordo com os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Seguradores (APS). Uma tendência que, conjugada com o crescimento das redes de clínicas e hospitais privados nos últimos anos, provocou uma alteração profunda no modelo de negócio, criando uma espécie de regime de “procura directa” na Saúde.

O que significa? Se, antigamente, as pessoas iam primeiro ao médico de Medicina Geral e Familiar, que depois as encaminhava para as consultas de especialidade, sempre que se justificasse, hoje o panorama é diferente, porque o acesso à especialidade no privado está mais facilitado – muitas vezes, à distância de uns cliques – e o financiamento assegurado. «Quantas consultas são feitas por ano que não deveriam acontecer? Porque simplesmente há essa facilidade e as pessoas marcam. O modelo de negócio mudou, mas o mindset das pessoas também: como têm um seguro de saúde e pagam o respectivo prémio, acham (legitimamente) que têm direito a marcar as consultas», referem os responsáveis.

Assim, a “procura directa” por consultas de especialidade, mas também pelas urgências, deve-se ao facto de uma parte substantiva da população ter deixado de ter ou de recorrer a um médico de referência, tipicamente o médico de família (do SNS), que conhecia bem os seus utentes, geria a sua saúde e, quando necessário, referenciava para a especialidade. A própria classe médica começa a colocar, cada vez mais, um travão aos acordos com as seguradoras em determinadas consultas de especialidade, porque a procura é superior à capacidade de resposta e o impacto ao nível das remunerações significativo.

Ana Allen Lima (CUF), Maria Brandão de Vasconcelos (Multicare), Maria do Carmo Silveira (Médis), Pedro Costa e Silva (ANF – Associação Nacional das Farmácias), Rui Rijo Ferreira (Jaba Recordati) e Victor Almeida (Lusíadas Saúde) foram os participantes no pequeno-almoço debate da Saúde, que decorreu no hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa.

Que soluções à vista?

O modelo de “procura directa” na Saúde é uma tendência dos últimos anos. Mas será que há formas de tornar a utilização mais sustentável no sector? De apoiar os clientes a gerirem melhor a sua saúde e a navegarem no sistema, por forma a melhorar os resultados em saúde e evitar o desperdício? Para os responsáveis ouvidos pela Marketeer, uma das soluções poderia passar por repensar o paradigma ou modelo de negócio dos seguros de saúde, premiando «os comportamentos preventivos e bons hábitos de vida, para baixar a sinistralidade e suportar mais a despesa de quem precisa verdadeiramente». Nesse sentido, poderiam ser criados mecanismos que permitissem baixar o prémio ou dar um bónus às pessoas que demonstrassem «esforçar- se verdadeiramente para melhorar a sua saúde e os seus hábitos de vida. Poderia estar associado a indicadores de saúde
ou boas práticas», sugerem os participantes no debate.

Do lado dos prestadores de saúde, o que tem de haver é um esforço para voltar a tornar comum que o médico de Medicina Geral e Familiar (MGF) seja essa porta de entrada no sistema, que depois orienta os pacientes para as consultas de especialidade mais indicadas, porque, «com o sistema actual, as pessoas, por si só, nem sempre marcam as consultas certas ». «Temos de canalizá-las para o médico de família, que pode ser um “distribuidor de jogo”», contribuindo para tornar a utilização dos recursos mais sustentável, explanam.

Com efeito, os prestadores de saúde privados estão a fazer essa aposta no mercado português, através, por exemplo, da abertura de centros de saúde com médicos de MGF, complementando a oferta das suas clínicas e hospitais. Um grupo criou, inclusive, a figura do “enfermeiro de família”, que também pode contribuir para fazer essa triagem inicial. «As pessoas têm de ser guiadas ao longo do sistema. Primeiro, porque o sistema não aguenta. E, depois, porque elas próprias fazem um uso [do sistema] que nem sempre é o adequado», reforçam.

Mas há outras medidas que já estão a ser implementadas para aliviar a pressão no sistema de saúde, mesmo a nível dos cuidados primários do SNS. Em algumas ULS (Unidades Locais de Saúde) onde há falta de médicos, inclusive de Medicina Geral e Familiar, já há enfermeiros a realizarem consultas.

Além disso, é preciso salientar que, apesar do boom dos seguros de saúde, nem toda a população tem acesso a consultas de especialidade, por falta de capacidade económica. E o que se vê, em muitos casos, é que «o ChatGPT começa a ser o “médico de família”. As pessoas começam a recorrer a este tipo de ferramentas de inteligência artificial para se automedicarem », o que pode ser um risco de saúde pública. «Temos a população que tem seguro de saúde e facilidade em aceder às especialidades, mas também temos a população que não tem nada disso e tem dificuldade em aceder a um médico a nível do SNS», sublinham os participantes no debate.

Alargar o papel da farmácia

Além destas medidas, consideram os participantes no debate que as farmácias podem assumir um papel mais alargado enquanto porta de entrada no sistema de saúde, contribuindo para uma melhor gestão da elevada pressão que o sector enfrenta. Reconhece-se que persistem desafios estruturais no SNS e que, em 2025, algumas oportunidades de reforço da intervenção das farmácias, nomeadamente em situações clínicas ligeiras, não chegaram a concretizar-se.

Neste contexto, importa sublinhar que já existem, em determinados enquadramentos – incluindo a nível internacional –, situações clínicas ligeiras em que os farmacêuticos avaliam e acompanham directamente os utentes em contexto de farmácia. Este papel pode ser progressivamente alargado de forma protocolada, permitindo uma intervenção em proximidade e, sempre que necessário, uma referenciação adequada para outros níveis de cuidados de saúde. Para que esta integração se concretize de forma consistente, destacam a importância de existirem ferramentas de comunicação, enquadramento claro e mecanismos de articulação que suportem uma actuação integrada e colaborativa.

São exemplos desta abordagem várias iniciativas através das quais as farmácias têm vindo a desenvolver trabalho conjunto com Ordens profissionais, associações de doentes e Unidades Locais de Saúde (ULS), materializadas em projectos de rastreio e iniciativas de prevenção. Entre estas, destaca-se a campanha de rastreio do cancro colorrectal a realizar em Lisboa, promovida pela MovSaúde, com início a 23 de Fevereiro e duração de seis semanas, uma iniciativa que se antecipa com impacto positivo ao nível da detecção precoce.

Apesar destes desafios, têm sido dados passos relevantes no sentido de reforçar o papel e o âmbito de actuação das farmácias. No final de 2025, a Associação Nacional das Farmácias assinou com o ICAD – Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências um protocolo que prevê o regresso da dispensa e administração de metadona nas farmácias comunitárias, encontrando-se em fase de conclusão os procedimentos necessários para a implementação do projecto.

Para 2026, estão igualmente previstas novas iniciativas no âmbito da saúde em proximidade através das farmácias, com um maior envolvimento da rede enquanto ponto de testagem em programas de rastreio a nível nacional, nomeadamente para o VIH e hepatites.

Expansão de serviços é tendência

Mas não são só as farmácias que estão a alargar o seu portefólio de serviços. Fazendo um balanço do ano de 2025, os prestadores de saúde privados deram continuidade aos seus planos de expansão, com a abertura de novas clínicas e hospitais por todo o território nacional, mas também com a entrada ou a consolidação em áreas como a medicina dentária ou os cuidados domiciliários – em muitos dos casos, através da aquisição de players especializados nessas áreas.

«2025 foi um ano de expansão, não só geográfica, mas também de portefólio. Foi um ano difícil, mas que acabou por correr bem. Conseguimos um footprint nacional mais vasto», salientam os responsáveis, ressalvando, ainda assim, que «não foi um ano excelente, porque a abertura de novas unidades não correu ao ritmo desejado, devido a problemas burocráticos. A burocracia tem sido uma grande pedra no sapato e acaba- se por penalizar os “bons alunos”, que são os que esperam pelo licenciamento».

Para as seguradoras, o ano transacto ficou também marcado pela expansão na prestação de cuidados de saúde, com várias empresas do sector a reforçarem em áreas como a medicina dentária, fisioterapia e gastrenterologia. Um movimento que tem permitido às marcas seguradoras afirmarem-se cada vez mais como um modelo de negócio de saúde integrada. «Alargar aquilo que fazemos é, sem dúvida, um objectivo. Mas também, dentro daquilo que já fazemos, repensar o modelo de negócio. Se calhar a discussão não tem de ser tanto o preço, mas que modelos temos para trabalhar a frequência e utilização do seguro naquilo que realmente é importante, e sermos nós a guiar os pacientes», frisam.

Por seu lado, as farmacêuticas têm-se mantido, grosso modo, focadas no seu core business. Apesar de algumas companhias estarem a evoluir para outro tipo de serviços, a grande maioria continua focada na inovação e em encontrar soluções para os novos desafios do sector, em particular o da longevidade. «A esperança média de vida aumentou cerca de 10 anos na última década. Mas o foco tem de estar em envelhecer com qualidade de vida e em desenvolver produtos e serviços que vão responder às necessidades de uma população que vive mais tempo», concluem.

Texto de Daniel Almeida

Foto de Paulo Alexandrino

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Saúde”, publicado na edição de Fevereiro (n.º 355) da Marketeer.




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