Cannes: inside the jury room

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29/06/2026
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Opinião de Susana Albuquerque, diretora criativa executiva e sócia da Uzina (foi a única jurada portuguesa no Cannes Lions 2026)

 

“Inside the jury room” é o nome de um formato popular no Festival de Cannes: 3 membros do júri de cada categoria juntam-se no piso subterrâneo do Palais para falar sobre os critérios de premiação e respondem a perguntas do público. Farei o mesmo nestas linhas. Apesar de não servir cerveja a 20€ nem oferecer mini-ventoinhas para aliviar a onda de calor, convido-vos a agarrarem uma cadeira para vos contar como foi estar no júri de Creative Data.

Das 390 inscrições chegaram 39 à shortlist. Primeira constatação: a AI e a tecnologia estão por todo o lado. Sim, o trabalho tem AI. Mas não se ganha por aí. Também há alguma confusão com o nome da categoria. A maioria das inscrições de Creative Data são pura Data, zero Creative, o que torna a seleção mais fácil.

Temos 2 dias de discussões presenciais. No primeiro, fechamos a shortlist, no segundo escolhemos os metais. Podemos atribuir 1 Grande Prémio, 2 Ouros, 4 pratas e 6 bronzes, 13 prémios no total. Ao contrário de outros festivais, este número está pré-definido. Só 3% do trabalho pode ser premiado. Talvez seja isso que faz de Cannes, Cannes. As discussões aquecem mais que a temperatura lá fora. Estes 3% tornam-nos picuinhas: os criativos puxam pelas ideias, os que vêm da media e dos dados pela data, todos pelo impacto (real ou potencial) e pelos resultados.

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Acabámos com um Grand Prix e um ouro para um Banco do Perú: SOS POS para o BCP. Uma ideia que transforma TPAs de pequenos comércios em aparelhos para cancelar os cartões bancários quando nos roubam o telemóvel. Os critérios? A simplicidade da ideia. O uso de data para proteger a data. A dificuldade de ter boas ideias para Bancos. O facto de ser uma ideia que resolve um problema das pessoas e por isso traz valor para o Banco.

O outro ouro foi para 600K Network, uma inscrição feita pelo México em nome de um grupo de civis anónimos da Venezuela. Esta ideia acabou por ganhar também Grand Prix for Good, troféu escolhido entre todos os ouros atribuídos a Charities em todas as categorias. Aqui, um grupo de Venezuelanos conseguiu hackear os boletins de voto das últimas eleições e publicar os resultados reais, cidade por cidade, enquanto Nicolas Maduro anunciava a sua esmagadora e mentirosa vitória.

Este trabalho deu muita discussão: o que estamos a votar aqui? Quem estamos a premiar? Podemos ser assim tão políticos em Cannes? Perguntavam alguns jurados. Depois de muito argumento e clarificação, ganhou o bom senso. 600k Network tem Data e tem uma ideia poderosa que faz avançar a sociedade e desafia os limites da categoria. Mostra o que pode fazer a Data. Neste caso, lutar pela democracia e expor a verdade.

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No fim da sessão, pedem-nos alguns conselhos para quem vai inscrever trabalho em 2027. Dei estes: sê brutalmente simples. Conta uma boa história. Usa Data de uma forma relevante. Faz alguma coisa pelas pessoas que possa fazer algo pela marca.

De resto, tudo igual e tudo diferente em Cannes. Tiraram-nos as praias, agora são stands do Reddit, do Youtube, da Google e do Pinterest. Tiram-nos os restaurantes e os cafés, agora são hubs de networks. Veem-se poucas mulheres como CCOs e ECDs. Há um ambiente de nervosismo no ar pela quantidade de fusões recentes e futuras. Saímos inspirados. Vemos trabalhos bons e bonitos. A Uzina ganhou uma prata com Hidden Tags em Creative Effectiveness, mas infelizmente não tinha lá a equipa para celebrarmos e tive que abraçar um transeunte. O que não surpreende, se estás em Cannes.

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