A vida em dois códigos postais

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Matilde Calhau, consultora de comunicação da IPSIS
18/09/2026
20:02
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A vida em dois códigos postais

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Opinião de Matilde Calhau, consultora de comunicação da IPSIS

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Há uma pergunta que me fazem com frequência, sempre com o mesmo tom de curiosidade: “Mas então onde é que tu vives, afinal?” A resposta nunca é simples. Vivo em Lisboa, onde trabalho. Mas sempre que alguém me pergunta “de onde és”, a resposta que me sai automaticamente é Portimão. É lá que está a minha família, a casa onde cresci e o cheiro a maresia. Sou, no sentido mais literal da palavra, uma pessoa deslocada, e demorei anos a perceber que isso não é um estado transitório, é uma forma de vida.

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Portugal é um país pequeno, mas a distância entre Lisboa e o Algarve não se mede só em quilómetros. Mede-se em portagens, em horas de comboio que nunca encaixam com os horários de trabalho, aos fins de semana que começam na sexta à noite e acabam a meio da manhã de domingo porque é preciso guardar tempo para a viagem de volta. Mede-se também numa espécie de fadiga emocional que ninguém nos ensinou a nomear: a sensação de estar sempre a meio caminho entre dois sítios, sem pertencer inteiramente a nenhum deles.

Não sou exceção. Somos milhares, talvez milhões, se juntarmos quem trabalha na Europa e mantém os pais em Trás-os-Montes, quem vive em Londres e tem os filhos criados pelos avós no Minho, quem, como eu, trocou o Algarve pela capital em nome de uma carreira que, honestamente, não existe fora de Lisboa. A geografia do trabalho em Portugal continua profundamente centralizada, e esta centralização tem um custo humano que raramente entra nas estatísticas: o custo de viver longe de quem se ama.

Há quem chame a isto o preço do sucesso, e há dias em que quase acredito. Escolhi Lisboa porque foi aqui que encontrei o trabalho que queria fazer, os clientes que me desafiam, a cidade que me deu espaço para crescer profissionalmente. Não me arrependo desta escolha. Mas seria desonesto fingir que ela não teve peso. Perdi anos de almoços de domingo com os meus familiares. Perdi a normalidade de passar por casa “só porque sim”. Ganhei, em troca, uma vida profissional que provavelmente não teria construído se tivesse ficado no Algarve, mas ninguém me avisou que o preço se pagaria em saudade, todos os dias, em prestações.

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Porque é isso que a distância faz: transforma o afeto em logística. Planeamos os telefonemas como quem planeia reuniões. Combinamos as visitas com meses de antecedência, a pensar nos preços dos bilhetes e nas férias que ainda temos direito a gozar. E há sempre aquela dúvida incómoda, sempre que o telefone toca fora de horas: será que é só a minha mãe a ligar por ligar, ou aconteceu alguma coisa?

Acho que é tempo de falarmos disto sem os óculos cor-de-rosa do “mas o Algarve é tão bonito, tens sorte”, ou do “mas Lisboa dá tantas oportunidades”. As duas coisas são verdade e nenhuma delas resolve o problema real: que continuamos a construir um país onde a proximidade da família é, cada vez mais, um luxo geográfico. E até que isso mude verdadeiramente, quem vem do interior ou das regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos vai continuar a escolher entre a carreira e a proximidade de casa.

Não escrevo isto à procura de pena, nem tão pouco de uma solução fácil que caiba num parágrafo final. Escrevo porque acho que há uma geração inteira de portugueses a viver esta mesma equação em silêncio, cada um a achar que é o único a sentir aquele nó que aperta quando o comboio parte e a mãe fica na plataforma a acenar. Não somos os únicos. E talvez o primeiro passo para tornar esta vida mais leve seja simplesmente admitir, em voz alta, que ser deslocado tem um custo, e que este custo merece ser discutido, não só sentido.

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Por agora, continuo a fazer a viagem. Vivo em Lisboa, sou de Portimão, e algures na linha do comboio, entre Portimão e Sete Rios, todos os meses, encontro-me comigo mesma a meio caminho.




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